terça-feira, 13 de outubro de 2009



Inteligência ou silicone



Luiz de Aquino





O noticiário, em vários veículos eletrônicos e impressos da mídia brasileira, dão-nos conta de que o Brasil, hoje, é o segundo país do mundo em cirurgias plásticas, perdendo apenas, e obviamente, para os Estados Unidos. Existem páginas na Internet que difundem com otimismo a prática e buscam estimular as pessoas a aumentarem seios e bundas, modificar narizes e pálpebras e outros procedimentos no gênero.

E dá certo! Já são mais de setecentas mil cirurgias ao ano. Silicone se vende em dez suaves prestações no cartão de crédito e o sonho de uma cara ou pernas bonitas justificam o sacrifício na conta do supermercado. Ou a eliminação de itens “dispensáveis”, como os custos com a educação.

Pois é! Nada de escola, porque livros custam caro. Nada de leitura, porque jornais e revistas custam caro. Nada de aprender, porque aprender é chato. Então, vamos fazer um consórcio, ou uma conta de poupança, vender o carro 2003 e comprar um 1997 e pagar a cirurgia. Riscos cirúrgicos? Ah, que bobagem! O doutor Caron foi cassado, condenado etc. e os outros não são como ele.

Nariz adunco é do pai ou da mãe; o “meu”, este ficará fino, arrebitado... Pena que não se faz isso diretamente no DNA. Olhos? A gente muda a cor com lente de contato. Peitos caídos ou pequenos? Silicone neles. Bunda murcha? Silicone de novo. Pernas finas? Silicone. Sulcos na face? Botox. Feito isso, a madame (ou o garanhão, porque tem muito macho cuidando de se transformar também, com cirurgia plástica e depilação a lêiser) se sente estrela! Mas sequer pode sorrir. E, se sorri, fica apenas o som, a expressão facial é a mesma com que a tal (ou o tal) saiu da cirurgia. Na tevê existem muitas (os) a confirmar o que digo.

Enquanto isso, a qualidade da pessoa continua a mesma. O miolo, o conteúdo, o conjunto de informações e processamento é o mesmo de antes, dos tempos do peito caído, do nariz enorme, das pernas finas e da bunda minguada.

Não é radicalismo, gente! Sei que há casos em que é indispensável a cirurgia que transforma o visual, mas o modismo e a elevadíssima incidência é o que me preocupa. Se as pessoas pensassem, cuidariam do próprio interior. É muito melhor estudar, aprender, atualizar-se, envolver-se com novas e velhas gerações, enfim, aprender. O enriquecimento interior possibilita o embelezamento externo. E, melhor, sem perda das referências genéticas. Um feio vai continuar feio após a cirurgia, e somente o sujeito se vê mais bonito (ele/ela e os puxa-sacos que elogiam o novo visual apenas para agradar o amigo ou parente que gastou tanto por nada). Todos estamos familiarizados com o belo e o feio, e acabamos juntando muitas informações sobre as pessoas para qualificá-las de feios ou bonitos. Uma pessoa que bem sabe usar a própria inteligência, essa parecerá sempre bela, sem dúvida.

Mas, infelizmente, acha-se, hoje, muito mais importante que se pareça bonito do que efetivamente mostrar-se belo. As pessoas que dão prioridade às mudanças apenas aparentes sempre serão feios e feias. E, infelizes com a própria existência, depois escolherão migrar-se para outras terras e, já que nada deu certo, praticar seu esporte favorito: falar mal do Brasil.












Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.
E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.




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(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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