segunda-feira, 15 de junho de 2009

Espécie Mulherana

Em toda espécie animal superior o sexo que melhor a tipifica é o feminino. Ele é essencial para a sua preservação e, por partenogênese, sozinho, é capaz de garantir-lhe a perpetuação. O masculino entra como acessório, útil para garantir a variabilidade genética, sem dúvida fator importantíssimo para o sucesso evolutivo, mas não essencial para a existência da espécie. Nos vegetais esse fato é ainda mais notável, já que o hermafroditismo das angiospermas permite caracterizar o indivíduo vegetal como feminino, sendo os órgãos masculinos da flor (estames) meros apêndices.

Uma das conseqüências disto é que os machos, entre eles o homem, vivem em função das fêmeas, que existem por si próprias. Assim eles precisam sempre fazerem-se aceitos por elas para que seus genes possam perpetuar-se na prole. A natureza é toda regida pela tirania do gen que, de modo egoísta, pretende espalhar-se na população de uma espécie. À fêmea cabe a função de avaliar a qualidade do pretendente e aquiescer no sexo com ele, se julgá-lo suficientemente bom. Assim as fêmeas são as guardiãs da qualidade genética da espécie não deixando que os exemplares menos aptos espalhem seus genes fracos. A espécie humana, de modo inconsciente, também participa deste jogo da natureza, mesmo quando possa parecer que é o sexo masculino o dominante. Em verdade até nas culturas mais machistas e patriarcais os homens vivem para suas mulheres, trabalham para suas famílias e fazem a guerra para defender sua companheira e sua prole ou para conquistar outras mulheres, evitando a endogenia. Mas tudo gira sempre em torno da mulher. Assim o nome da espécie, que na língua portuguesa coincide com o nome de seu exemplar masculino, devia ser "mulherana" e não, "humana".

Observa-se que, na história, a maior parte das grandes obras foi, e ainda é, realização de indivíduos do sexo masculino. Isso vale para a literatura, a música, a poesia, a pintura, a escultura, as obras arquitetônicas, as conquistas militares, as descobertas científicas, as grandes invenções e quase tudo de criativo já produzido por seres "mulheranos" (do sexo masculino, no caso). O motivo é simples: não que as mulheres seja menos capazes que os homens mas que estes precisam impressionar as mulheres com seus feitos para provar a elas que possuem bons genes. E nisso empenham o máximo de suas energias e capacidades. Todo feito glorioso, artístico, político, militar, científico, esportivo, qualquer um que um homem realize, ele o faz com o pensamento voltado para alguma mulher. Mesmo o arrebatamento místico e religioso possui um componente erótico sublimado, às vezes até, na devoção à Virgem Maria. As mulheres não precisam impressionar os homens para ter aquele que desejam. Basta serem seletivas e escolher o mais conveniente.

A lição a tirar destas considerações é que, tomando consciência deste fato fundamental, homens e mulheres possam ter um melhor entendimento recíproco e consigam viver mais harmonicamente e não como seres de planetas diferentes. E que a aceitação desta verdade coloque o homem em seu devido lugar, deixando que as mulheres realizem-se completamente como pessoas de pleno direito e não como sombras de seus homens que em verdade são, eles sim, as sombras de suas mulheres.

2 comentários:

  1. Que leitura agradável, meu amigo! Muto grata pela colaboração.
    Abraço

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  2. Ernesto, sou fã dos seus textos e este é mais um deles que diz muito e é muito gostoso de ler. Parabéns.

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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