quarta-feira, 22 de julho de 2009

Adeus a Capitu

Adeus a Capitu

Ela me olha do Infinito junto com os queridos que de lá nos espreitam. Olhos de cão azul, como os de Garcia Marques...um cão com plumas ou sem plumas como João Cabral escreveu...um cão andaluz como o de Buñuel..não, olhos de dama, como aquelas que já não existem, pois as mulheres atuais não têm olhos, apenas peitos, bundas, mas ela não é uma mulher, é um cão. Quando a buscamos, debaixo de uma bruta chuva, ela destacou-se da ninhada que se encolhia debaixo do banco do jardim, numa caixinha de papel, por seu olhar de piedade. Eram quatro, e um garoto que, como nós, se comovera com seus ganidos, levou um. Fiquei com três, mas perdi um deles logo na primeira noite. Ficaram dois: Camões e Capitu.

Capitu era elegante, esguia, pelo característico da ascendência waimaraner que logo revelou, suas patas, cruzadas numa posição de eterno retrato para pintores habilidosos, eram finas e compridas. Mas seus olhos eram profundos. Olhos de analista. Sentia que ela me devassava, quando a olhava pela janela, penetrando nos meus olhos e avançando perigosamente até as regiões que eu sempre cuidadosamente protegera dos que me conheciam. O irmão era vulgar, saíra à ascendência cabocla, brincalhão, irreverente. Ela, uma lady. Acredito que, no mundo dos cães, fosse talhada a rainha e ali, naquele jardim, num dia de tempestade, uma fada malvada a houvesse atirado para que viesse ajudar-me a descobrir os mistérios da vida pelo olhar dos animais. O clichê diz que o cão é o maior amigo do homem. Amigo tem uma raiz linguística fascinante que identifica a palavra com o amor, outra palavra interessante, que tem uma parte de delícia, prazer e malícia e outra de dor. Um parente disse, incautamente, que “cachorro também é gente”. Acho que não soube formular exatamente o seu conceito: cachorro não é gente, tem as prerrogativas de gente porque se coloca ao nosso lado, mas tem algo mais, que só se revela quando olhamos para ele e enxergamos a busca de nós mesmos. Seus olhos, nesse momento revelam-nos o que somos: queridos ou abominados. Cachorro é espelho. Nele podemos ver-nos com a nudez da verdade, se é que ela existe. O que via, nos olhos de Capitu, era comoção, era resignação de quem busca e sabe que nunca vai encontrar porque o mistério é o limite que nos foi imposto. Ontem tive que dizer adeus a Capitu. Ela se foi. E eu não me encontro em Camões e acho que nunca mais terei para onde olhar e ver-me tão bem refletida como em suas pupilas tão lindas de cor tão indefinível, tão indefinível como é o mistério da vida e da morte.

Elenir Burrone

6 comentários:

  1. Parabéns pelo bonito texto, Elenir!
    Sou também apaixonada pelos animais, principalmente pelos cachorros tão fiéis e tão amigos. Capitu é um doce!
    Beijo, querida,
    da Maria Lúcia

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  2. Texto inteligente, com propostas nas entrelinhas, espaços para os devaneios. Fiquei emocionada, querida. Muito grata.
    Um carinho especial.

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  3. Amigo tem uma raiz linguística fascinante que identifica a palavra com o amor, outra palavra interessante, que tem uma parte de delícia, prazer e malícia e outra de dor. Um parente disse, incautamente, que “cachorro também é gente”. Acho que não soube formular exatamente o seu conceito: cachorro não é gente, tem as prerrogativas de gente porque se coloca ao nosso lado, mas tem algo mais, que só se revela quando olhamos para ele e enxergamos a busca de nós mesmos. Seus olhos, nesse momento revelam-nos o que somos: queridos ou abominados. Cachorro é espelho. Nele podemos ver-nos com a nudez da verdade, se é que ela existe.

    amiga Elenir engasguei no parágrafo acima
    és fenomenal minha querida Escritora,
    tua crônica é de ranger os dentes bjs agradecidos com olhos em mar

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  4. Gente, que maravilha de texto.
    Que maravilha mesmo.
    Abraço,
    Andrea Pio

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  5. Prezada professora Elenir Burrone,

    gostaria de um contato, um e-mail.
    Atencionsamente,
    Lucila, sua ex-aluna e sempre admiradora!

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  6. Faltou o meu e-mail: lucilafiorini@hotmail.com

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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