quinta-feira, 6 de agosto de 2009

O NADA IMPENETRÁVEL

“O amor é um demônio poderoso”. Essa frase, tirada do Banquete, de Platão, pode ter inspirado o título de um dos livros de Garcia Márquez, “Do amor e outros demônios”. Diz mais sobre o amor do que muitos tratados. Diz sobre a natureza divina do amor que nos ensina o intenso, nos insufla vida e nos faz querer a eternidade. Quando amamos, inventamos filigranas para dar conforto ao amor. O corpo tem o gosto de amor, a alma tem o cheiro do amor. Ficamos impregnados de amor. Qualquer tarefa, a mais insignificante, tem vibração, quer ser compartilhada. Nós nos consagramos com prazer a esse doce desequilíbrio, essa embriaguez de fogo. Se é fogo, purifica.
Mas amar, amar de verdade, é amar bem. E não se pode amar bem quando se ama sozinho. Amar com amor não correspondido é amar mal. Carol Gilligan, no livro O Nascimento do Prazer, fala desse amor quebrado: “amar significa conhecer, significa abrir os portões. O amor não correspondido não faz sentido porque não existe ligação com a outra pessoa. Como o amor pode ser amor e deixar o outro indiferente?
Pois é. O amor não correspondido é feito de aridez, de infertilidade, só produz o isolamento irremediável. Peca contra o instinto humano mais básico: o instinto gregário. Gera apenas a ruptura com o real. Por maior que seja, não se consegue entendê-lo, e, aliás, quanto maior, mais incompreensível. A incompreensão conduz à perda de sentido, porque “a compreensão é criadora de sentido.”(Celso Lafer)
Criador e criativo é o amor correspondido, que nos torna submersos no querer, na vontade, não de se completar no outro, mas de completar-se para o outro. O amor não correspondido leva o amante ao nada. É um amor sem aderência, que resvala, que faz ricochete no impenetrável. O amante não distingue Eros de Tânatos. Nem menosprezo de idealização. Parece um pouco com Narciso, abandonado ao fantasma si mesmo.
Na verdade, há uma grande confusão de sentidos. As palavras ficam inservíveis, porque quando partem do amante, em seu exílio não encontram pouso, não encontram asilo. Palavras sem rumo, banidas.
Enquanto no amor correspondido, a intensidade é desejada, no amor não correspondido, há uma recusa de toda intensidade. Ela se esgarça. Enquanto o amor correspondido liberta o nosso ser mais puro, o amor não correspondido nos empareda. O amor não correspondido é um muro erguido por nós mesmos, uma vedação. Como a parede do poema de Octavio Paz, erguida durante metade da vida entre a luz e o ser, que deverá removê-la na outra metade da vida. É um amor errado na raiz. Quem ama errado pode passar o resto da vida desamando. Enquanto o amor correspondido nos aumenta a auto-estima, o amor não correspondido dissolve em nós o respeito pelo que somos e o nosso amor-próprio.
Amar é bom, mas é melhor saber amar bem. Amar mal é não amar. É não saber amar. É correr o risco de ficar a vida toda cantarolando velhas cantigas de infância: “vou lavar a cabeça até tirar esse homem do meu cabelo”.

Carmem Vasconcelos

(Contribuição enviada por email)

3 comentários:

  1. simplesmente...maravilhoso! como ecoa na alma , chego a sentir dor...
    lindo! Parabens
    abçs terno
    marcia

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  2. Oi, vim conhecer seu blog e desejar bom fds
    bjss

    aguardo sua visita :)

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  3. -Enquanto o amor correspondido liberta o nosso ser mais puro, o amor não correspondido nos empareda. O amor não correspondido é um muro erguido por nós mesmos, uma vedação. ... É um amor errado na raiz. Quem ama errado pode passar o resto da vida desamando. Enquanto o amor correspondido nos aumenta a auto-estima, o amor não correspondido dissolve em nós o respeito pelo que somos e o nosso amor-próprio.-

    belas palavras querida Carmem, mas há ainda quem não deixam-se amar e mesmo que estejam sendo correspondidas não estão abertas ao que o outro dá, o desejo quer desejar , abrços pela excelente participação neste espaço adorável que nosa Luciana oferece
    virgínia

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"A crônica é um gênero que apresenta dupla filiação, já que o tempo e o espaço curtos permitem o tratamento literário a temas jornalísticos. Tem do jornal a concisão e a pressa e da literatura, a magia e a poeticidade que recriam o cotidiano."

(Maria Lúcia da Cunha Victorio de Oliveira Andrade)
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