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sábado, 21 de novembro de 2009

Todas as cores do mar


Camilo Mota



Soube, através de um amigo, que outro amigo o questionara do porquê de eu ter me mudado para Saquarema. O que eu vira nessa cidade, tão pacata, tão à beira do Oceano Atlântico? A água, o mar, o céu, o sol e suas cores, aqui, parecem ter me cativado de uma maneira diferente de outras terras. O sol nasce manso pela manhã, e mais tarde se põe em cores variadas além das montanhas, refletindo um adeus iluminado nas ondulações da lagoa... ele diz em seu quase silêncio de luz que a vida é enorme quando contemplamos a nossa pequenez. E também as pessoas com seu jeito solar, quente, de falar amigo. Alguma coisa mineira, de antanho, me faz olhar esse mar com admiração.

E não a mim apenas isso tudo é cativante. Pois que o professor Latuf Isaías Mucci foi mais além e derramou em versos tudo o que sente acerca desta terra ainda admirável, com suas ondas, surfistas, cores feitas em molduras de gente. Mineiro como eu, veio ele ter em Saquarema o encontro mítico e real. Assim como Manuel Bandeira exaltava uma Pasárgada para onde poderia se refugiar e encontrar o ápice da vida em seu máximo prazer, também Latuf o faz, mas num sentido concreto: ele não busca a terra mítica, pois que já encontrou a terra real de seus sonhos. Em “Águas de Saquarema” (Saquarema, Tupy Comunicações, 2009), o poeta revela um amor tal pela região que o acolheu que, à maneira dos românticos em relação a suas amadas, recolhe em versos as sensações e sentimentos que norteiam sua vida sempre em direção à coisa amada. Torna-se, camonianamente, o amante na coisa amada? “Fora de Saquarema / Sou / peixe com mágoa / pássaro sem paz / ave avessa / exilado poético / asilado ilhado / (...) Fora de Saquarema / Nenhum zen me segura”, revela o poeta em sua “Canção do Idílio”, como um Gonçalves Dias pós-moderno a exaltar a falta que lhe faz sua amada pátria, cujos sabiás fazem verdadeiros ninhos na alma. E reforça sua relação com a terra, firmando raiz: “Não me vou mais embora daqui, / nem que me arrastem pelos cabelos / que já perdi há muito na cidade” (“Radicalmente”).

A proposta de Latuf poderia cair no lugar comum. Afinal, fazer um livro com uma temática de grande exaltação e paixão por um local em particular é um desafio. Mas aqui revela-se um mistério, que faz parte da alma do poeta e também de Saquarema. Há vibrações tais nessa terra em que a natureza se expressa de forma tão dinâmica, que ela própria se mostra constantemente em oferenda para a inspiração de cantos de amor, como os cantados por Latuf. E ele faz jus a esse chamado. Tal qual o marinheiro que se deixa inebriar pelo canto da Iara, Latuf navega nos cabelos de Iemanjá, surfa as ondas, e mostra-nos uma leitura extremamente lírica e zen do mar, um dos principais personagens do livro. “Os meus velhos olhos / nem se cansam de sonhar / estas ondas antigas / vagando em cantigas, danças densas” (“O mar, o mar”). O poeta não cai no lugar comum. Sua “face líquida” vai se moldando a cada novo encontro com sua amada. Antes, apela à simplicidade para dizer de seu amor, de sua valorização da vida, das pessoas, do afeto. É isso: Saquarema é um grande afeto na vida do poeta. E ele, qual um girassol caeiriano, se volta para o brilho dessa luz que se lhe revela a cada dia de uma maneira nova.

Há que se ler o livro de Latuf como quem saboreia as ondas, ou como quem sente a tessitura de uma folha de orquídea ou, ainda, como quem chupa uma suculenta manga em pleno verão. Seus versos em “Águas de Saquarema” são leves, para serem levados pelo vento fresco, pelo hálito de palavras ditas com amor, simplesmente com amor.


Camilo Mota é natural de São João Nepomuceno-MG (1965), reside em Saquarema desde 2003. É editor do Jornal Poiésis (www.jornalpoiesis.com), membro titular da Academia Brasileira de Poesia, e membro honorífico da International Writers and Artists Association (IWA).

sábado, 10 de outubro de 2009

De pessoas e guarda-chuvas



Camilo Mota*


Na década de 1950, Rubem Braga se admirava da imutabilidade do guarda-chuva através dos tempos. O objeto simples, funcional, negro, continua firme em sua trajetória século vinte e um adentro. Acho que foi essa frente fria, essa chuva ora miúda ora grave a dizer lá fora que a vida é tão vasta e dinâmica, que me fez notar essa nostalgia das coisas que não mudam. A chuva, a bem dizer, deixa as pessoas monótonas e caseiras. Até minha cadela passa o dia suspirando, não agüentando ver mais tanta água que desce do céu. A música da chuva também não mudou. Varia de tom, mas permanece fiel a seu escudeiro, nosso protetor que até em dias de vento forte ainda nos livra pelo menos a cabeça de se molhar...


“Tira essa roupa molhada, menino. Vai resfriar”. Dizia a mãe com uma sabedoria que não sei se existe mais. Certeiro era tomar em seguida um banho quente. Agasalhar-se e quem sabe tomar uma sopinha de fubá com alho, um chazinho... O guarda-chuva fica lá fora, como a vigiar as águas. Só entra em casa depois, seco, quando não mais precisamos dele, e em sua vida de sombras se esconde de nós até o próximo temporal ou garoa. Deve ser por isso que ele não muda. Está livre de nossos desafios tecnológicos que não nos permitem fixar os olhos no instante congelado de uma flor desabrochando à beira do caminho cercado de asfalto, automóveis e gente, muita gente, dependendo de onde se ande, de onde se more. Aparelhos celulares, computadores, automóveis... chips cada vez mais minúsculos... cartões de memória, telas de LCD... Cada coisa que vem e que passa e que num instante nem existe mais. Mas a chuva, a flor, o guarda-chuva, esses permanecem firmes a nos lembrar que habitamos a terra que tudo nos dá e que tudo nos tira.


A nostalgia sempre vem nos tirar do sério e dizer que o tempo passa, mas que algumas coisas permanecem conosco, como tatuagens vivas. Como as músicas que minha mãe me ensinava quando criança. “Se esta rua, se esta rua fosse minha...”. Acho que foi meu primeiro encontro com a poesia. “O anel que tu me deste era vidro e se quebrou, e o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou”... o verso de repente ecoa numa canção entoada por Dani Lasalvia, gravado num CD de 2007, assim tão perto de mim, de meu tempo de hoje. Ainda tem gente cantando isso, meu Deus! Há mães ainda cantando assim, semeando poesia no caminho de seus filhos? Certamente, sim, pois os guarda-chuvas, que são apenas guarda-chuvas, conseguem resistir, que dirá então desses espíritos dos sons que são a raiz de nossas artes!


O cheiro do bolinho de chuva misturado com açúcar e canela. A meia e o chinelo de dedo. A camisa fugindo por debaixo do casaco. Adeus, vaidades. Está chovendo, enfim. É dia de ficar em casa, escrever uma crônica, beber um leite com chocolate quente ao lado da mulher, assistir a um filme, comer pipoca, dizer que se ama, que a natureza é generosa, que temos saudade do sol e que somos imutáveis em nossa essência de seres humanos, ovos luminosos como dizia Castaneda num livro que deve ter sido lido também num dia chuvoso...


*Camilo Mota é natural de São João Nepomuceno-MG (1965), reside em Saquarema-RJ, onde edita o Jornal Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte. É membro titular da Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni.