Mnemósine, a deusa da Memória, era filha de Urano e de Gaia. Foi consorte de Júpiter, com quem teve nove filhas, as Musas da poesia, do canto, da dança, do teatro... O papel da memória é despertar lembranças pelas quais, segundo Platão, “a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal”. O que o homem mais teme com a morte é ser esquecido, varrido da memória dos seus. Para garantir que sejam lembrados, os homens constituem família e procriam filhos que sejam portadores de sua memória genética. Ou produzem obras literárias, artísticas, artesanais, que o imortalizem. As artes e a ciência, por sua perenidade, são a resposta possível ao esquecimento, ao olvido – a dor que mais dói.
Das artes modernas, o cinema com seu fluxo de lembranças, permite a qualquer pessoa o trânsito franco entre o passado histórico e seu passado humano. No Tríptico A Morte de Sergei Mikhailovitch Eisenstein, de Vinícius de Moraes, ele volta à sua paixão adolescente pelo cinema, homenageando o diretor russo de "O Encouraçado Potenkim", também o teórico da montagem, ao qual o poeta faz referência: "O cinema é infinito - não se mede./ Não tem passado nem futuro Cada/ Imagem só existe interligada/ À que a antecedeu e à que a sucede".
Cinema japonês é lento; imagine um filme japonês que trata da vida após a morte. Os mortos são recebidos por guias numa espécie de ‘estação’ ou pousada; seu papel é ajudá-los a vasculhar suas lembranças e fixar um único momento de suas vidas que elas carregarão por toda a eternidade. Os guias se valem de filmes e videotapes que a relembrar o tal momento que eles imortalizarão. A idéia se baseia de novo em Platão, para quem a alma tem que passar por Lachesis (o passado), por Cloto (o presente) e por Átropos, o futuro. Em um ‘anime’ japonês Kaze no Na wa Amunejia (O Vento Chamado Amnésia, 1990), direção de Kazuo Yamazaki, todos na Terra perdem a memória e voltam a um estado primitivo, exceto um jovem, que fazia pesquisas para aumento da capacidade do cérebro. Ele, então, parte em busca de pessoas que ainda tenham lembranças.
Para Pierre Louys, a memória não se vincula exclusivamente ao passado, mas a um devir, um processo dinâmico, pelo qual a memória humana é um processo cognitivo. O neurocientista argentino, Ivan Izquierdo, acha que a leitura é o meio primordial de se preservar a memória. “Não tem nada que chegue perto. Lendo, você exercita a memória visual, a memória verbal, a memória de outras línguas que você porventura conheça, a memória de sinônimos, a memória de imagens. Você lê a palavra árvore e passam infinitas imagens de árvores em sua cabeça. A leitura é a que evoca mais tipos, mais formas de memória. Ler muito e ter bons níveis de escolaridade também ajudam a prevenir ou minorar os sintomas do mal de Alzheimer. Para aqueles que não têm vista para ler, ouvir alguém contar uma história é ótimo para a memória. Famosos escritores cegos fizeram isso e funcionou muito bem, como o argentino Jorge Luis Borges e o inglês John Milton”.
Cada indivíduo em particular acredita que sua vida deixará marcas indeléveis de sua personalidade. Mas para a Natureza, deixaremos apenas átomos de nossa passagem, em grãos de areia, nas espumas das ondas, no pó do calcáreo. Eu me planto de novo para crescer como a relva que eu amo. Se de novo me quiserdes encontrar, buscai-me debaixo das solas dos vossos sapatos. Deixando de encontrar-me ao primeiro momento, conservai a coragem: em algum ponto eu hei de estar a esperar por vós - Walt Whitman
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domingo, 5 de julho de 2009
sexta-feira, 19 de junho de 2009
No meio do caminho
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Tinha uma pedra. Sísifo foi o primeiro Rolling Stone. Morro acima, morro abaixo, ele e sua pedra. Prometeu e seu rochedo. Penedia. Sílica, carbonato, substâncias milenarmente inertes. Ficam bem no leito dos rios: seixos. E nas montanhas de Minas. Bolas de gude em bolso de criança. Projétil fatal na testa do irmão de Caim. Na atiradeira que derruba o gigante. A pedra filosofal é fundamental. Porto da pedra. Pedra azul. Turmalina. Mármore bege da Bahia. Ou de Carrara. Parla, disse Michelangelo à pedra. Rocha, calhau, sílex. Magma. Ígneas. Basalto, granito, vulcânico. Plutônicas. Xisto, ardósia, quartzito. As pedras são perpétuas. Lápides. Miracema, pa-ra-le-le-pí-pe-do. Icaraí, São Tomé. Berilos. Magnetita, dolomita, feldzpato. Preciosas: águas marinhas, ametista, esmeralda, rubi, safira, topázio imperial. Uma jóia é para sempre, mas os diamantes são eternos. Consciência do cristal. Noites de cristal. Cristalina. Bacará. Murano. Cerâmica, porcelana. Pedra de sal. Pedra-pomes. Pedra de amolar. Pedra-sabão. Pedra-de-toque. No meio dos rins tinha uma pedra. Pedregal. A vida é pedreira. Atire a primeira pedra, Iaiá. Descendemos de pedras de alta linhagem: silício, cascalho, brita. Calcáreo, argila. Ossos calcinados, pedra de cal. Temos a idade da pedra e somos poeira de estrelas. Poeiras cintilantes e mortas. Mas há humanos muros em vida. Corações de pedra. Monolitos. Máscaras pétreas. Rostos crispados e envelhecidos pela dureza. Já antevistos por Emily Dickinson: “ Um rosto sem amor, de graça desprovido. Um rosto duro e ruim, rosto bem sucedido. Rosto junto do qual a própria pedra fria, desde o primeiro encontro à vontade estaria, assim como quem topa um velho conhecido” ...
/ tekka /
Tinha uma pedra. Sísifo foi o primeiro Rolling Stone. Morro acima, morro abaixo, ele e sua pedra. Prometeu e seu rochedo. Penedia. Sílica, carbonato, substâncias milenarmente inertes. Ficam bem no leito dos rios: seixos. E nas montanhas de Minas. Bolas de gude em bolso de criança. Projétil fatal na testa do irmão de Caim. Na atiradeira que derruba o gigante. A pedra filosofal é fundamental. Porto da pedra. Pedra azul. Turmalina. Mármore bege da Bahia. Ou de Carrara. Parla, disse Michelangelo à pedra. Rocha, calhau, sílex. Magma. Ígneas. Basalto, granito, vulcânico. Plutônicas. Xisto, ardósia, quartzito. As pedras são perpétuas. Lápides. Miracema, pa-ra-le-le-pí-pe-do. Icaraí, São Tomé. Berilos. Magnetita, dolomita, feldzpato. Preciosas: águas marinhas, ametista, esmeralda, rubi, safira, topázio imperial. Uma jóia é para sempre, mas os diamantes são eternos. Consciência do cristal. Noites de cristal. Cristalina. Bacará. Murano. Cerâmica, porcelana. Pedra de sal. Pedra-pomes. Pedra de amolar. Pedra-sabão. Pedra-de-toque. No meio dos rins tinha uma pedra. Pedregal. A vida é pedreira. Atire a primeira pedra, Iaiá. Descendemos de pedras de alta linhagem: silício, cascalho, brita. Calcáreo, argila. Ossos calcinados, pedra de cal. Temos a idade da pedra e somos poeira de estrelas. Poeiras cintilantes e mortas. Mas há humanos muros em vida. Corações de pedra. Monolitos. Máscaras pétreas. Rostos crispados e envelhecidos pela dureza. Já antevistos por Emily Dickinson: “ Um rosto sem amor, de graça desprovido. Um rosto duro e ruim, rosto bem sucedido. Rosto junto do qual a própria pedra fria, desde o primeiro encontro à vontade estaria, assim como quem topa um velho conhecido” ...
/ tekka /
sexta-feira, 12 de junho de 2009
AMORES LÍQUIDOS
A palavra “romântico” tornou-se obsoleta e detestável. Foge-se dela como o diabo da cruz. Tem um antiquado cheiro de alfazema, lenço de cambraia, alcova... Foi CDA quem criou a famosa QUADRILHA: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém.
Sofrer por amor – trocando em miúdos – é pagar mico. Amor micou, ficou anacrônico e precisa de muito incentivo do comércio, que entra com as flores, chocolates, anéis e outros mimos para manter o ‘clima’. A realidade crua – e nua! – é que amor ficou reduzido à expressão mais simples e imediata do desejo, que é mercurial, cambiante e fugidio. Não é só la donna que é móbile, os envolvidos na ciranda estão sempre avaliando a próxima conquista que, pela novidade, já se antecipa como mais excitante e mais prazerosa.
Laços do casamento são corrediços, deslisam ou derivam facilmente; ou estrangulam. Regina Navarro em “Cama na Varanda” explica os fundamentos do “poliamor” - “ uma opção ou modo de vida que defende a possibilidade prática e sustentável de se estar envolvido de modo responsável em várias relações íntimas simultaneamente”, que sempre existiu mas se escancarou com a Internet. Ninguém é fiel por natureza - só os torcedores do Coríntians... Amores agora se chamam “relacionamentos” e confrontam as crenças monogâmicas, o que beneficiaria até as crianças: aquelas que têm mais pais e mais mães correm menos risco de se sentirem abandonadas.
Para Roland Barthes, "Desacreditada pela opinião moderna, a sentimentalidade do amor deve ser assumida pelo sujeito amoroso como uma transgressão forte que o deixa sozinho e exposto; por uma reviravolta dos valores, é esta sentimentalidade que constitui, hoje em dia, a obscenidade do amor." (in Fragmentos de Um Discurso Amoroso). O amor quer perpetuar o desejo, mas o desejo não aceita os grilhões do amor. E haja sofrer! Como sair do impasse, se é que se pode sair?
Zygmunt Bauman em seu “Amor Líquido”, que trata da fragilidade dos laços humanos, afirma que “a definição romântica do amor como ‘até que a morte nos separe’ está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas do parentesco às quais costumava servir e de onde extraía seu vigor e sua valorização”. Mais: “O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo é um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável”.
No filme “A Quase Verdade”, Anne é casada com Thomas, que se sente atraído por Caroline, mulher de Marc, primeiro marido de Anne, que se interessa por Vincent, que ama Lucas... Amor não admite mais cláusulas pétreas, tá mais pra caixa 2 ou dispositivo transitório. Rosas duram uma manhã. Amores hoje duram uma noite, uma semana, um verão, três dias de carnaval. Em seu começo já está seu fim.
Amores são águas passando, barquinhos de papel na enxurrada. Regatos, córregos, riachos, aspirando aos sete mares. Cascata pura! Amores são espumas que recuam. São cascas de nozes brincando de caravelas. São rápidas e pesadas chuvas de verão. Sereno da madrugada. Amores são aqueles rios temporários que sulcam o semi-árido do coração: coisa líquida e incerta.
/ tekka /
Sofrer por amor – trocando em miúdos – é pagar mico. Amor micou, ficou anacrônico e precisa de muito incentivo do comércio, que entra com as flores, chocolates, anéis e outros mimos para manter o ‘clima’. A realidade crua – e nua! – é que amor ficou reduzido à expressão mais simples e imediata do desejo, que é mercurial, cambiante e fugidio. Não é só la donna que é móbile, os envolvidos na ciranda estão sempre avaliando a próxima conquista que, pela novidade, já se antecipa como mais excitante e mais prazerosa.
Laços do casamento são corrediços, deslisam ou derivam facilmente; ou estrangulam. Regina Navarro em “Cama na Varanda” explica os fundamentos do “poliamor” - “ uma opção ou modo de vida que defende a possibilidade prática e sustentável de se estar envolvido de modo responsável em várias relações íntimas simultaneamente”, que sempre existiu mas se escancarou com a Internet. Ninguém é fiel por natureza - só os torcedores do Coríntians... Amores agora se chamam “relacionamentos” e confrontam as crenças monogâmicas, o que beneficiaria até as crianças: aquelas que têm mais pais e mais mães correm menos risco de se sentirem abandonadas.
Para Roland Barthes, "Desacreditada pela opinião moderna, a sentimentalidade do amor deve ser assumida pelo sujeito amoroso como uma transgressão forte que o deixa sozinho e exposto; por uma reviravolta dos valores, é esta sentimentalidade que constitui, hoje em dia, a obscenidade do amor." (in Fragmentos de Um Discurso Amoroso). O amor quer perpetuar o desejo, mas o desejo não aceita os grilhões do amor. E haja sofrer! Como sair do impasse, se é que se pode sair?
Zygmunt Bauman em seu “Amor Líquido”, que trata da fragilidade dos laços humanos, afirma que “a definição romântica do amor como ‘até que a morte nos separe’ está decididamente fora de moda, tendo deixado para trás seu tempo de vida útil em função da radical alteração das estruturas do parentesco às quais costumava servir e de onde extraía seu vigor e sua valorização”. Mais: “O amor é uma rede lançada sobre a eternidade, o desejo é um estratagema para livrar-se da faina de tecer redes. O amor é uma hipoteca baseada num futuro incerto e inescrutável”.
No filme “A Quase Verdade”, Anne é casada com Thomas, que se sente atraído por Caroline, mulher de Marc, primeiro marido de Anne, que se interessa por Vincent, que ama Lucas... Amor não admite mais cláusulas pétreas, tá mais pra caixa 2 ou dispositivo transitório. Rosas duram uma manhã. Amores hoje duram uma noite, uma semana, um verão, três dias de carnaval. Em seu começo já está seu fim.
Amores são águas passando, barquinhos de papel na enxurrada. Regatos, córregos, riachos, aspirando aos sete mares. Cascata pura! Amores são espumas que recuam. São cascas de nozes brincando de caravelas. São rápidas e pesadas chuvas de verão. Sereno da madrugada. Amores são aqueles rios temporários que sulcam o semi-árido do coração: coisa líquida e incerta.
/ tekka /
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