quinta-feira, 18 de junho de 2009
Des-Encontros? (Parte II)
Chegamos em Campinas por volta das 18 horas, seguindo diretamente para a exposição "O Caderno Rosa de Hilda Hilst". Fomos recebidos gentilmente por Cristiano Diniz, amigo e braço direito durante a pesquisa e montagem da exposição. Coincidência e sorte: encontramos o Prof. Dr. Eric Sabinson, que orienta atualmente Leandro Silva de Oliveira em seu projeto "Clausura e angústia na dramaturgia de Hilda Hilst". O professor Eric (o duplo hilstiano nos perseguindo...) conversa descontraído conosco. Ficamos os três encantados com a postura do professor: dinâmico e atencioso, Eric orientou-nos, explicando um pouco sobre o funcionamento da pós-graduação no IEL (Instituto de Estudos da Linguagem da UNICAMP). Seguimos os três hilstianos para a palestra "A experiência do corpo", ministrada pelo Prof. Dr. Jorge Coli no Espaço Cultural da CPFL de Campinas. Brilhante, o crítico da arte percorre a passagem do século XVIII para o XIX, chegando até o XXI, apresentando, em telão, reproduções de obras universais que vão sendo interpretadas em seu contexto histórico. Entre os muitos temas tratados, Coli enfatizou que é impossível introduzir a perfeição no mundo, como queriam os nazistas. Os nazistas queriam tornar perfeito um mundo que é imperfeito, desvalorizando as diferenças e a diversidade. E conclui: “o mestre do perfeito é o imperfeito”... estamos diante de nossos limites e fragilidades – idéia que o professor utiliza para encerrar a conferência e iniciar um debate. Coli toca numa questão fundamental para a nossa experiência contemporânea do corpo: somos frágeis e imperfeitos – o que é sempre bom lembrar, especialmente nessas épocas de bulimia e anorexia entre adolescentes.
No feriado do dia 26, Geruza, Sergio e eu trabalhamos o dia todo: revisão do projeto de mestrado do Sergio, revisão da defesa de qualificação da Geruza e discussão de um tema para seu projeto de doutorado. Passamos o dia lendo e discutindo a obra de Hilda Hilst, a poesia, as artes em geral. Lendo o mestrado da Geruza e ao mesmo tempo Marcel Duchamp ou O Castelo da Pureza, de Octavio Paz, e seguindo o desejo de Geruza de representar visualmente os movimentos da obra hilstiana, tenho um insight, que se confirma na conferência do professor Coli. Por que não investigar possíveis diálogos entre a obra hilstiana e as artes plásticas? O movimento e a multiplicidade, por exemplo, são características marcantes tanto na obra de Duchamp quanto de Hilda Hilst. Como lembrou Maria Rosa, em discussão posterior, analisar também as diferenças é essencial nesse caso, já que os artistas em questão elegeram materialidades diferentes para realizarem seus trabalhos: o desenho e a pintura (Duchamp); a palavra e a sonoridade da língua (Hilda Hilst). Mas vale lembrar que Duchamp utiliza a palavra para realizar seus projetos e dar títulos a suas obras e que Hilda Hilst também praticou o desenho, principalmente em seus manuscritos e, em alguns momentos, a pintura. Diálogos intersemióticos!
Por e-mail, Maria Rosa marca nova data para a defesa da Geruza: 2 de junho pela manhã, coincidindo gentilmente com a data da reunião do Laboratório do Manuscrito Literário, que acontece sempre na primeira quinta-feira do mês às 14h30 na FFLCH-USP, sob coordenação do Prof. Dr. Philippe Willemart, amigo e orientador há tantos anos. Convido a Geruza para me acompanhar. Philippe, no intervalo da reunião, conversa conosco e demonstra interesse em ler a dissertação de mestrado da Geruza, “A (meta)física poética em Hilda Hilst”. A metafísica não está além da física; na obra de Hilda Hilst, encontra-se na física e na materialidade do poema. Philippe conta-nos que o filósofo francês Condillac, no século XVIII, defendia que a metafísica se revela na sensualidade, ou melhor, através dos processos sensoriais. Para Condillac, intelecto e sensações se entrelaçam na construção do conhecimento. Nesse mesmo sentido, Geruza mostra em seu trabalho que Hilda Hilst nos coloca diante do pensar-sentir.
Para Geruza Zelnys de Almeida e Sergio Portela: “Guardo-vos, Iluminadas / Recendentes manhãs tão irreias no hoje / Como fazer nascer girassóis do topázio / E dos rubis, romãs.” (Hilda Hilst, versos de Amavisse).
Professora Dra. Cristiane Grando
Diretora do Centro Cultural Brasil - República Dominicana
Professora Convidada na Universidad Autónoma de Santo Domingo - UASD
(Colaboração enviada por email)
quarta-feira, 17 de junho de 2009
Des-Encontros?
Des-Encontros?
Cristiane Grando
Per-seguidora da obra de Hilda Hilst, recebo frequentemente e-mails de seus admiradores e de muitos estudiosos. Enquanto não conheço pessoalmente quem dialoga comigo por internet, confundo nomes, cidades, tema do projeto, universidade. Tento gravar essas informações mínimas, mas, como tenho boa memória visual, só memorizo esses dados básicos, sem confundi-los, quando conheço pessoalmente cada um dos pesquisadores. Há alguns meses, talvez quase um ano, recebo um e-mail de uma moça contando-me de seu desejo de realizar um projeto de mestrado sobre a poesia de Hilda Hilst. Seu nome: Geruza. Recebeu minhas palavras de incentivo como resposta a um primeiro contato. Continuamos nos falando por e-mail.
18 de março de 2005 foi uma noite especial. Acontecia, no SESC-Pinheiros, em São Paulo, o terceiro encontro do evento Palavra Viva: Hilda Hilst, organizado por Beatriz Azevedo e Sabrina Greve. Para mim, uma noite deslumbrante. Conheci pessoalmente a atriz Iara Jamra e a professora Eliane Robert Moraes, cujos trabalhos me seduziam mesmo antes de conhecê-las. Juntas, tecemos uma noite sobre O caderno rosa de Lori Lamby; entre as obras de Hilda Hilst, a que parece gerar maior polêmica. (Poucos leitores percebem a genialidade d’O caderno rosa: chocados com a linguagem erótica, bloqueados num nível superficial de entendimento, não se permitem ler o texto com um olhar mais profundo. Mas vale lembrar que há leitores que enxergam muito além: o crítico Jorge Coli, por exemplo, considera Lori uma personagem “inesquecível” – “nestes tempos de diabolização do sexo e da sacralização da infância, Lori Lamby é uma bênção!”; o jornalista Everaldo Fioravante valoriza a complexidade da linguagem e das críticas que permeia essa obra de Hilda Hilst. Fecho parênteses deixando para o leitor a possível curiosidade de ler O caderno rosa de Lori Lamby e o desejo de buscar compreendê-lo em seu contexto.) No final do debate com Iara Jamra, Eliane Robert e o público, num gesto informal, algumas pessoas interessadas na obra hilstiana subiram ao palco para conversar conosco. Transbordando de alegria e de uma luz especial que nos envolveu naquela noite, recebi o amigo até então virtual, o advogado Pedro Motta; um grupo do Mackenzie que iniciava um Trabalho de Conclusão de Curso sobre Hilda Hilst no curso de Jornalismo; minha família – tio Quime, tia Rose, os primos-atores Renata Flaiban e Fabiano Assis, a Vanda, a Paulinha, o Vinícius. Todos muito empolgados com o debate sobre O caderno rosa. Outra presença marcante naquela noite foi uma estudante de mestrado da PUC–São Paulo, que se apresentou como Ana Paula, falou-me um pouco de seu projeto sobre a obra de Hilda Hilst e me disse que tinha uma colega, também da PUC, que fazia mestrado sobre a poesia hilstiana: Geruza. Ah, a Geruza? – exclamei toda contente. A gente troca e-mails! Você pode levar um livro de presente pra ela? Naquela noite presenteei algumas pessoas com o meu livro de poemas Caminantes.
Em março de 2005, Geruza solicita por e-mail um encontro no Centro de Documentação Cultural “Alexandre Eulalio” (CEDAE-IEL-UNICAMP), onde se conserva grande parte dos manuscritos hilstianos. O encontro aconteceu particularmente na exposição O Caderno Rosa de Hilda Hilst, da qual fui curadora. Depois de alguns minutos de conversa, pergunto: Você recebeu meu livro? Ela não entende nada. Explico-lhe que conheci uma colega sua, que fez algumas disciplinas de mestrado... Geruza me diz que não freqüenta a PUC e que está cursando as últimas disciplinas da graduação em Letras na cidade de Americana. Tenho certeza que havia enviado um livro para a Geruza... sim, esse era o nome. Fico besta, como diria Hilda Hilst.
Em abril, recebo um convite da Prof.a Dr.a Maria Rosa Duarte de Oliveira, da PUC-São Paulo, para participar de uma banca de qualificação de mestrado sobre a poesia de Hilda Hilst, ao lado da Prof.a Dr.aVera Bastazin. Com todo o prazer, aceito o convite. Poucos dias depois, recebo um e-mail da Geruza, feliz da vida porque aceitei participar de sua banca. Eis que me é oferecida a última peça do quebra-cabeça: existia de fato outra Geruza estudiosa da obra de Hilda Hilst! A Geruza de Americana, logo em seguida, recebeu um e-mail meu, contando a anedota. Morremos de rir, por e-mail! Um nome tão raro duplicado: duas Geruzas! Até parece dialogar-se com o duplo hilstiano. O duplo que se faz uno. Dois projetos de pesquisa. Múltiplos projetos e um só desejo: o de comunicar-se com o outro. Nos versos de Hilda Hilst, o duplo e o uno ganham múltiplas formas: “Fui pássaro e onça/ Criança e mulher.”...pássaro-criança, onça-mulher; “Montado sobre as vacas/ Meu duplo e eu.”; “Sonhei que te cavalgava,leão-rei.”; “Em vida, morte, te sei”; “Juntas. Tu e eu. / Duas adagas / Cortando o mesmo céu. / Doiscascos / Sofrendo as águas. // E as mesmas perguntas. // Juntas. Duas naves / Números / Dois rumos / À procura de um deus. // E as mesmas perguntas / No sempre / No pasmoso instante. // Ah, duas gargantas / Dois gritos / O mesmo urro / De vida, morte. // Dois cortes. / Duas façanhas. / E uma só pessoa.” – Hilda Hilst (versos da obra Da morte. Odes mínimas).
Texto escrito numa manhã de sexta-feira, 13 de maio de 2005, e revisado algumas vezes antes de ser lido na defesa de qualificação da Geruza da PUC. Crônica dedicada à Geruza Martins, Geruza Zelnys de Almeida, Ana Paula, Maria Rosa Duarte de Oliveira e Vera Bastazin.
(Contribuição enviada por email)