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terça-feira, 14 de dezembro de 2010

CLARICE, QUEM TE DISSE?
                                                        Regina Makarem

Você de repente não estranha de ser você?
- Clarice Lispector

        
         Para além da leitura, a pergunta de Clarice é soprada no meu rosto, janela aberta de chofre, a ventaria de cada palavra vai penetrando até o desconforto dos lençóis amarfanhados e, mais adiante, da louça empilhada suja na pia de torneira que pinga, que pinga e espera... seria preciso que se passasse muito, todo o tempo do mundo doméstico pra que esses pingos inundassem a pia e limpassem tudo, derramando-se pelos meus olhos secos que nunca choram...
         O vento de cada palavra esparge a poeira das minhas capas-personas tão usadas, e o sol mansinho desta manhã que não raia em mim, pinta e ilumina o pó que era apenas mofo de sepultura, aberta e vazia, à espera... e rodopiam as palavras claras e zombeteiras. Palavras exatas. Clarice, quem te disse de mim?... das vidas passadas compondo vestes sobrepostas, caprichosa pintura e brilho falso, até não alcançar mais a pequenina essência que um dia se nomeou “Regina”.
         Quantas vezes percebi, às ocultas de mim, que não estava ali onde me exibia, a falar coisas em que nem pensara, a surpreender-me: eu? O choque. Um susto.Poucas vezes me diverti, embora ridícula em ser sem ali estar, num inútil exercício de humanidade. Ninguém se importa com a bondade que se machuca para não ferir. Quem saberia da dor por trás do sorriso de batom?...
Como foi que Clarice descobriu antes que eu fosse Eu? Com que olhos entrou pelo sumidouro da fechadura e fez esse rombo no chão que julguei pisar?... “O chão que ela pisa” não será o mesmo chão, que os pés já reconhecem o caminho seguro para ir a nenhum lugar, e tocam, sem hoje nem jamais, o esplendoroso espaço do Não Ser. Porque ser muitas é o resumo da minha almejada verdade: sou ninguém.
É a glória e reconhecimento. Prêmio. Posso me desvencilhar de todas que desejei vir a ser, em tantas falhas do viver. Não preciso mais. Não sou. Não quero. Calo-me. Despojo-me de meus restos para regurgitar os pedacinhos e desbabujo-me. Oca e nova.
Clarice concedeu-me uma licença de mim para, quem sabe, num dia que me amanheça, olhar no espelho quebrado e reconstituir as mil faces de um ser tão verdadeiro que cause em si mesmo o espanto de existir.
Em 03.01.2006

sábado, 20 de junho de 2009

O HOMEM E SEU FILHO

Sábado, 13/06/2009

O homem e seu filho acocorados, separando camarões. Os grandes formam o lote menor. Camarão seco. O homem mais ainda. O sol tórrido. A pele crestada que nem pergaminho compondo mapas da vida sofrida na lida só ida, sem pausa, que ninguém pediu pra percorrer. Mapa do tesouro. Do camarão. Seco. O sol. Neste sol, nesta vida de arremedo sem medo, pra quê?... o medo?... Será que finalmente chegou o verão? Em julho dá pra ganhar mais com os camarões da região... Região de duas estações, cidade de poucas opções pra quem vive de vender camarão. Pra quem não vive, também. Tem gente que não vive, mas finge bem. Que nem aquelas pessoas do ônibus. De Mosqueiro a Belém o bodum do camarão quase visível em espirais olorosas... Vontade de vomitar com o misto do primeiro trago ao fedor indefinido, pavoroso.
- Credo! Que pitiú é este?! Que gente porca!...
Algumas pessoas, naquele ônibus, fediam mais. Os cheiros até se confundiam. A moça suava e disfarçava. Será que a inhaca vinha de lá de dentro das suas vergonhas... “A gente sua...” Cheiros que se confundem. Perfume sem valor, nem precisa pagar. O dia trouxe o sol com vontade de brilhar e revelar o que todos tentamos esconder com Boticários ou Alfazemas da vida... Quase todos, colhidos de surpresa, revelavam o vencimento precoce de seus protetores axilares, íntimos, recônditos. Ou nem. Mãos segurando na barra. E fediam. Nem sentiam. A gente se acostuma a tudo nesta vida. Principalmente com (o) dores. E indiferença diante da dor que cutuca e até parece arroto quando preso. Comida pouca, barriga de vento do menino que aprende o ofício de misturar camarão grande aos muitos pequeninos que devem ficar escondidinhos... Aprendendo o ofício de enganar pra melhor levar a vida de ciladas e logros. Quanto mais esperto e atento, menos chance de escorregar no limo das palavras cuspidas de tudo que é lado. Será que a moça de tênis de marca que vem ali não vai querer comprar?... “- Mas quando, já...” O sol, a fome, a pressa de chegar pra comer o churrasco nosso de cada sábado, “porque hoje é sábado”. E eu nem gosto assim de churrasco, mas como. Eu como... eu como... eu como... eu como... A gente se acostuma a tudo na vida. E o que é bom, vira hábito.
O homem seco e seu filho aprendiz de enganar, bem que iam gostar, mais do que eu, de comer churrasco hoje.
“E o povo aqui sempre pobre...

”Regina Makarem - Belém (PA)

(Colaboração enviada por email.)