Para encarnar Sidharta Gautama no filme O Pequeno Buda, o ator Keanu Reeves encarou uma dieta rigorosa, comendo apenas laranjas e perdendo muitos quilos em poucos dias. Quem sabe Keanu se tenha inspirado em seu personagem, o Bodhisatva (o que chegará a ser Buda), que ficou imóvel sob uma figueira, na posição das pernas cruzadas e costas retas, a posição do lótus, até atingir a iluminação. Humano esforço de Keanu, humano empenho de Sidharta, importa menos o que fizeram e mais que tenham feito. Importa terem desejado, a despeito de ser o budismo a doutrina do não querer. E, no entanto... Haveria um querer mais intenso do que esse, de tornar-se Buda?
A possibilidade de realizar através do esforço é um dos nossos melhores dons. Nossa pulsão de vida se abebera dessa fonte. Graças à capacidade de buscar, exercitamos a superação e a superação nos impulsiona a crescer. Para chegar a qualquer lugar, é preciso alma, ânimo. Lutar pelas nossas vontades e ter vontade de lutar. Alimentar nossa íntima humanidade com cada grande e pequeno sucesso. E não perder energia carpindo fracassos.
Também não dá para ficar sangrando energia na busca do impossível. O rei sumério Gilgamesh, depois de mil sacrifícios pela flor da eterna juventude, a viu arrebatada de suas mãos e engolida por uma serpente. As cobras aprenderam a trocar de pele e renovar-se e ele aprendeu a inutilidade de se lutar por aquilo que não se pode ter.
Mas, como distinguir o possível do impossível? Não há exatidão; seja porque quando queremos muito uma coisa, nossa emoção costuma nos convencer de que essa coisa é possível; seja porque o possível e o impossível costumam mesmo emaranhar-se. Penso no budismo de novo. Uma de suas principais palavras é soltar-se. Experimentemos o sabor dessa palavra. Reinventemos os nossos quereres, eles podem ser flexíveis, realizar-se de mil modos. Não precisamos ser rígidos. Façamos... Mas com prazer.
“Para cada coisa há um momento debaixo do sol”. Há tempo para tudo, inclusive para deixar-se. Ficar quieto, fruir a correnteza. Uma vez um amigo me falou da lição da onda, talvez tirada de uma parábola oriental. Se a gente vai contra a onda, ela vem contra nós com a mesma força. Com a nossa força. No ocidente, sentenciou Isaac Newton: “a toda ação corresponde uma reação de mesma intensidade e sentido oposto”. Vale para corpo, mente e espírito: é bom estarmos atentos para não voltarmos nosso esforço contra nós mesmos.
O esforço revela a necessidade do descanso e o descanso revela a importância do esforço. O ócio (para os antigos romanos era “tempo vago”, “retiro”, “repouso”) nos ensina a perseverar (Sêneca). E toda coisa sobre a terra existe pelo seu contrário: a luz pela escuridão, a eternidade pelo instante, a ação pela contemplação, a fala pelo silêncio, o sim pelo não. Por isso as contradições (Deus as abençoe) nos fazem ser gente. Diante delas, podemos sim, vez ou outra, cruzar os braços, se assim nos convier. Ou, como Sidharta, cruzar as pernas, soltar os braços. Fechar os olhos. Ficar na posição do lótus, a dos estados alternativos de pensamento e intuição. Pela fusão dos contrários, não pela sua separação, descortinar-se-á, quem sabe, o caminho do meio, a harmonia da temperança.
Carmem Vasconcelos
(Contribuição enviada por email)
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domingo, 23 de agosto de 2009
quinta-feira, 6 de agosto de 2009
O NADA IMPENETRÁVEL
“O amor é um demônio poderoso”. Essa frase, tirada do Banquete, de Platão, pode ter inspirado o título de um dos livros de Garcia Márquez, “Do amor e outros demônios”. Diz mais sobre o amor do que muitos tratados. Diz sobre a natureza divina do amor que nos ensina o intenso, nos insufla vida e nos faz querer a eternidade. Quando amamos, inventamos filigranas para dar conforto ao amor. O corpo tem o gosto de amor, a alma tem o cheiro do amor. Ficamos impregnados de amor. Qualquer tarefa, a mais insignificante, tem vibração, quer ser compartilhada. Nós nos consagramos com prazer a esse doce desequilíbrio, essa embriaguez de fogo. Se é fogo, purifica.
Mas amar, amar de verdade, é amar bem. E não se pode amar bem quando se ama sozinho. Amar com amor não correspondido é amar mal. Carol Gilligan, no livro O Nascimento do Prazer, fala desse amor quebrado: “amar significa conhecer, significa abrir os portões. O amor não correspondido não faz sentido porque não existe ligação com a outra pessoa. Como o amor pode ser amor e deixar o outro indiferente?
Pois é. O amor não correspondido é feito de aridez, de infertilidade, só produz o isolamento irremediável. Peca contra o instinto humano mais básico: o instinto gregário. Gera apenas a ruptura com o real. Por maior que seja, não se consegue entendê-lo, e, aliás, quanto maior, mais incompreensível. A incompreensão conduz à perda de sentido, porque “a compreensão é criadora de sentido.”(Celso Lafer)
Criador e criativo é o amor correspondido, que nos torna submersos no querer, na vontade, não de se completar no outro, mas de completar-se para o outro. O amor não correspondido leva o amante ao nada. É um amor sem aderência, que resvala, que faz ricochete no impenetrável. O amante não distingue Eros de Tânatos. Nem menosprezo de idealização. Parece um pouco com Narciso, abandonado ao fantasma si mesmo.
Na verdade, há uma grande confusão de sentidos. As palavras ficam inservíveis, porque quando partem do amante, em seu exílio não encontram pouso, não encontram asilo. Palavras sem rumo, banidas.
Enquanto no amor correspondido, a intensidade é desejada, no amor não correspondido, há uma recusa de toda intensidade. Ela se esgarça. Enquanto o amor correspondido liberta o nosso ser mais puro, o amor não correspondido nos empareda. O amor não correspondido é um muro erguido por nós mesmos, uma vedação. Como a parede do poema de Octavio Paz, erguida durante metade da vida entre a luz e o ser, que deverá removê-la na outra metade da vida. É um amor errado na raiz. Quem ama errado pode passar o resto da vida desamando. Enquanto o amor correspondido nos aumenta a auto-estima, o amor não correspondido dissolve em nós o respeito pelo que somos e o nosso amor-próprio.
Amar é bom, mas é melhor saber amar bem. Amar mal é não amar. É não saber amar. É correr o risco de ficar a vida toda cantarolando velhas cantigas de infância: “vou lavar a cabeça até tirar esse homem do meu cabelo”.
Carmem Vasconcelos
(Contribuição enviada por email)
Mas amar, amar de verdade, é amar bem. E não se pode amar bem quando se ama sozinho. Amar com amor não correspondido é amar mal. Carol Gilligan, no livro O Nascimento do Prazer, fala desse amor quebrado: “amar significa conhecer, significa abrir os portões. O amor não correspondido não faz sentido porque não existe ligação com a outra pessoa. Como o amor pode ser amor e deixar o outro indiferente?
Pois é. O amor não correspondido é feito de aridez, de infertilidade, só produz o isolamento irremediável. Peca contra o instinto humano mais básico: o instinto gregário. Gera apenas a ruptura com o real. Por maior que seja, não se consegue entendê-lo, e, aliás, quanto maior, mais incompreensível. A incompreensão conduz à perda de sentido, porque “a compreensão é criadora de sentido.”(Celso Lafer)
Criador e criativo é o amor correspondido, que nos torna submersos no querer, na vontade, não de se completar no outro, mas de completar-se para o outro. O amor não correspondido leva o amante ao nada. É um amor sem aderência, que resvala, que faz ricochete no impenetrável. O amante não distingue Eros de Tânatos. Nem menosprezo de idealização. Parece um pouco com Narciso, abandonado ao fantasma si mesmo.
Na verdade, há uma grande confusão de sentidos. As palavras ficam inservíveis, porque quando partem do amante, em seu exílio não encontram pouso, não encontram asilo. Palavras sem rumo, banidas.
Enquanto no amor correspondido, a intensidade é desejada, no amor não correspondido, há uma recusa de toda intensidade. Ela se esgarça. Enquanto o amor correspondido liberta o nosso ser mais puro, o amor não correspondido nos empareda. O amor não correspondido é um muro erguido por nós mesmos, uma vedação. Como a parede do poema de Octavio Paz, erguida durante metade da vida entre a luz e o ser, que deverá removê-la na outra metade da vida. É um amor errado na raiz. Quem ama errado pode passar o resto da vida desamando. Enquanto o amor correspondido nos aumenta a auto-estima, o amor não correspondido dissolve em nós o respeito pelo que somos e o nosso amor-próprio.
Amar é bom, mas é melhor saber amar bem. Amar mal é não amar. É não saber amar. É correr o risco de ficar a vida toda cantarolando velhas cantigas de infância: “vou lavar a cabeça até tirar esse homem do meu cabelo”.
Carmem Vasconcelos
(Contribuição enviada por email)
segunda-feira, 6 de julho de 2009
PORQUE DELAS É O REINO DOS CÉUS
Carmen Vasconcelos
Há lugares no Brasil - país do futuro - onde a natureza faz mudar o rumo do espírito. São vivências indizíveis, impactos sensoriais além da beleza, esta sim, comunicável. Cantada e decantada. Às vezes, chegar a esses lugares, porém, é um ritual de passagem. Passagem por rodovias deploráveis.
O caos está fincado no chão. As estradas estouram com as chuvas e, mesmo as mais transitadas, têm extensos trechos deixados ao abandono. Pior acontece com as vias marginais, com as rodovias que se estendem ao interior do país. Você está indo e, súbito, a estrada começa a sumir. Vai sumindo, sumindo... E some mesmo. É uma angústia viajar por esses caminhos, só compensada pelo desejo de respirar uns tais destinos. Contudo, as curvas do chão ferido reservam outras angústias.
E elas surgem aos bandos na estrada acidentada. O asfalto carcomido quase impede os carros de prosseguir. Quase não há caminho para quem trafega por ali. Haverá caminho para as crianças que jogam areia dentro dos buracos da estrada, em troca de uma dádiva qualquer, jogada dos carros obrigados à marcha lenta?
Elas vêm portando suas pás foscas, nas mãos pequeninas foscas. Sua roupa infestada de poeira. Fosca. Seu rosto fosco. Sua vida fosca.
Governar é reparar estradas, agora que estão construídas, é urgente, preocupam-se os ocupantes dos carros. Alguém precisa avisar aos governos. É. Mas, os caminhos esburacados dessas crianças, haveremos de repará-los?
Chegam tão perto que, mesmo engatinhando, os carros estão a ponto de feri-las. Ali passam ônibus, caminhões, e há o risco maior com as motocicletas, mais afoitas, zunindo de arrojo, desenhando zigues-zagues entre os buracos. Piora quando voltam as chuvas, os carros patinam sem controle pelo atoleiro, como barcos à deriva num rio de lama.
Essas crianças, aluvião nas margens da estrada, já nasceram feridas pela falta. Tudo lhes é tão insuficiente, tão pouco desde sempre, que os riscos, expostos sem pudor, são a sua alma, o seu hábito, o seu agora. E para elas há somente agora. Não se pode pensar em depois quando tudo é tão premente. Não se pensa em escola, jardins, brinquedos, traquinagens. Nem no quanto há relatividade na palavra supérfluo. Nem no absoluto contido na palavra abandono. “Palavras, palavras, palavras”... Palavras são partículas. A vida é volátil, mas pesa muito. Um peso enorme no vazio: a vida, partículas pendendo, partículas chocando-se. Não, como pensar em literatura ou teorias quânticas, com o pêndulo da fome no vácuo da barriga?
São quilômetros e quilômetros de estradas, a cena a se repetir, como se um cruel diretor de cinema a ordenasse centenas de vezes. Não cobrirão os buracos das estradas suas parcas pás de areia. Ficarão descobertos, como descoberta ficará a vulnerabilidade dessas crianças. Tudo combinado, tudo no ritmo da conspiração cósmica: os carros passando, apesar das dificuldades. As crianças ficando, com seus buracos, sua esperança movediça, sua inocência enlameada. Fincando-se, como as feridas do chão. Atadas ao seu caminho sem rumo, emboscadas pelo seu agora, inundadas pela impossibilidade do futuro.
Assim como a experiência com a natureza é muito mais do que desfrutar do belo, governar também não é só reparar estradas, não é só tapar buracos no chão. Governar é curar as feridas dessas crianças e prevenir outras feridas. Alguém precisa dizer isso aos governantes e aos que se pretendem governantes, mas quem o dirá? Será que as urnas, com sua costumeira indolência, esses entes por tantas vezes tão automáticos e sem autonomia, ousarão dizê-lo?
(Contribuição enviada por email)
sexta-feira, 26 de junho de 2009
A MULHER DAS GRANDES COISAS
Quando se recria a imagem do homem, por que repetir os erros de Deus?
Arundhati Roy
Arundhati Roy
Arundhati Roy é uma mulher indiana de 39 anos e beleza mansa. Cabelos negros, longos, um olhar que se encomprida, sobrancelhas escuras, boca farta. Sorri como quem pastoreia almas... Leve. Sua imagem convida a ouvi-la, é daquelas pessoas que intuímos raras. A fala é pausada, e ela é rodeada pela própria suavidade, a suavidade do Ganges noturno. Mas é capaz de enfrentar represas. Represas mesmo. Militante de direitos do meio ambiente, Roy foi condenada em 2002 a uma pena simbólica de prisão (um dia) e uma multa de cerca de 41 dólares, por protestar contra a construção de uma enorme represa no vale de Narmanda, criticando a autorização concedida pelo Supremo Tribunal da Índia.
Arundhati Roy é escritora. Publicou o Romance “O Deus das Pequenas Coisas”, e trabalhou em cinema como designer de produção e roteirista. Hoje, diz não saber se voltará a escrever romances, porque se dedica em tempo integral à militância social. De há muito, a luta pelos direitos da mulher, pela paz, pelo meio ambiente e por outros direitos humanos tornou-se sua grande devoção. Roy esteve no Brasil em 2003 para o Fórum Social Mundial, em Porto Alegre. Este ano, fez o discurso de abertura do mesmo Fórum, em Mumbai, Índia.
A Índia é um país cindido. Contraste é uma palavra cujo significado não enlaça as diferenças, as contradições, a diversificação. Dentro desse país extenso, há intensidades jazendo, há uma Índia soberana e uma Índia subjugada; uma Índia de quietude e uma Índia de fúria; uma Índia sagrada, uma Índia profana e outra sacrílega. A Índia que se enfeia, adornando-se com o trabalho escravo infantil, e outra, a Índia dos belos tapetes, tecidos com mãos indefesas das crianças; uma Índia dos horrores do genocídio e outra do Taj Mahal, para adoçar o espírito de satisfação. Há uma Índia de castas, que separa seres humanos tocáveis de intocáveis, e há uma Índia livre, a Índia de Arundhati Roy.
Enquanto no seu país, Roy foi condenada por defender direitos fundamentais do homem, em maio passado a França lhe entregou o prêmio da Academia Universal das Culturas, outorgado pelo governo francês a pessoas que, com sua obra, tenham contribuído para a luta contra a intolerância, o racismo, ou a discriminação das mulheres. É de se comemorar. Merecida resposta à Suprema Corte indiana, que a condenou pelo crime de desacato, porque “a liberdade da palavra está submetida a restrições razoáveis”
Mas quem escreveu “O Deus das Pequenas Coisas” não poderia fazer nenhuma restrição à liberdade das palavras. No romance, as palavras não se contentam em jazer, elas levantam-se de seus leitos de tinta, despem-se dos seus significados habituais para erguer um altar à liberdade. Liberdade de ir, vir, correr. Liberdade de contorcer-se. E de amar, de desobedecer a “leis que determinam quem deve ser amado, e como. E quanto”. “O Deus das Pequenas Coisas” é a história de três gerações de uma família de Kerala, de dois gêmeos que, no interior da Índia, aprendem o silêncio pendente “no ar como uma perda secreta”, as tradições, os preconceitos, a hipocrisia, a violência de seu país, “presos do lado de fora da própria história e incapazes de retornar sobre os próprios passos porque as pegadas tinham sido apagadas”. Dois gêmeos aprendendo dores. Mas é também a história de sua mãe, Ammu, mulher luminosa amando um homem luminoso. Um homem tocável, um corpo sentido na pele, corpo de sins, ainda que as leis impusessem nãos. Mas leis às vezes são coisas pequenas. “Só as pequenas coisas são ditas”. As grandes coisas ficam jazendo “para sempre do lado de dentro”.
Nem todas as grandes coisas jazem para sempre do lado de dentro. Em sua militância, Roy vive a escrever artigos cheios de coragem e vivacidade contra o desrespeito aos direitos humanos no mundo. Muitos deles traduzidos para o português e acessíveis pela internet. “O Deus das Pequenas Coisas” foi publicado no Brasil pela Companhia das Letras. Arundhati Roy diz e faz grandes coisas. Uma mulher luminosa, uma pessoa pela qual vale a pena acreditar na humanidade.
Carmen Vasconcelos
(Contribuição enviada por email.)
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