Este blog é um espaço onde autores, membros da extinta Comunidade Discutindo Literatura, do Orkut, publicaram crônicas. Com a extinção da Comunidade o blog não está mais ativo para novas publicações.
Apesar de curta, a vida deve ser repleta de sonhos e de sensibilidade para ganhar significado. Deve ter cantigas, risos, rumores, despertamentos. Também danças, fogueiras acesas, mesas postas, campo lavrado e casa limpa. Cada dia deve cumprir as promessas da aurora. Há de ter algum caminho, como nos escreveu Mário de Andrade, para nos arrancar do peito as angústias e devolver a brisa, o frescor, a esperança. Drummond, em seu poema O enterrado vivo, escreveu: "sempre dentro de mim meu inimigo". Em Confidência do itabirano também disse: "E o hábito de sofrer, que tanto me diverte é doce herança." Parece que nossos dramas são produzidos ou consentidos por nós mesmos. Pôr o sonho no navio e deixá-lo naufragar, como pontuou Cecília Meireles, é entregar-se às contigências, fugir das responsabilidades, cruzar os braços, enevoar a visão. Dante Milano em seu poema Sombra no ar, fala-nos a respeito da eterna procura humana. Visconde de Taunay vaticinou que "mil coisas imprevistas nos esperam nos muitos meandros da existência". As nossas expectativas se avolumam. Reconhecemos a necessidade de sonhar e de mover o destino dos barcos e das velas. Que nosso mundo interior não se escureça, que o desânimo não se faça muralha ou fosso de víboras. É preciso certas manobras para ganhar força e dar à vida sentido e gosto.
Jardim deriva do persa antigo pairidaeza, de paraíso. Jardim é uma tentativa de resgatar o paraíso perdido. Quem não quer a oportunidade de criar ou recriar seu jardim? Quem nunca experimentou o medo de jamais ter o seu paraíso? Aproveito o passeio pelo jardim na companhia do Jardineiro. Meus passos no jardim são cuidadosos, meus olhares aguçados, meus ouvidos atentos à Sua voz . Ele me diz que para criar um jardim há que se levar em conta seu uso, o terreno disponível, a estética desejada, as estações do ano e o clima. Conhecer as plantas, os processos de semeadura. Além disso, realizar diferentes trabalhos de cuidado e proteção das plantas que compõem a área ajardinada. Preparar o solo, arejar a terra, enriquecer com adubos e fertilizantes para então iniciar o plantio. Depois regadura, poda, tratamento... Perguntei sobre as escolhas certas já que esses plantios jardinísticos são extremamente diversificados e desempenham numerosas funções na estrutura do jardim. Ele disse que um jardim é construído após um projeto. Na História humana muitos povos projetaram seus jardins. Pensei sobre o meu jardim. Ele adiantou a fala. Há plantas como as folhagens que emprestam ao jardim toda a motivação decorrente do seu colorido, da sua textura ou da sua faculdade de emanar perfumes. Outras, como os arbustos servem para formar limitações especiais. Lembrei-me de uma obra de Van Gogh rosas dentro de um pote verde, rosas com pétalas entumescidas de todas as cores, desabrochando em labirintos lapidadas pelo pincel. Meu olhar, bem desamarrado sobre o jardim quis os mistérios da semente. O Jardineiro sorriu pedindo calma. E me contou que há sementes que se acham sem proteção pois o fruto dessas plantas é constituído de carpelos que não se fecham, outras ficam protegidas no interior do fruto, formado de carpelos que se fecham. Disse que há semente fértil, outras estéreis. E que para haver germinação são indispensáveis certas condições, umas próprias da semente e outras do ambiente. Faz parte das condições próprias da semente a integridade (possuir os órgãos essenciais); a vitalidade (estar viva e respirando); e maturidade (ter o embrião completamente desenvolvido e com reservas nutritivas acumuladas). E faz parte das condições próprias do ambiente a composição química apropriada do solo; umidade adequada; arejamento; luminosidade e temperaturas adequadas. Fiquei interessada no assunto. Ele me disse que há semente dormente, aquela que embora viável, não germina mesmo em condições favoráveis do ambiente. A causa pode ser física ou fisiológica. A dormência física pode ser provocada pelos envoltórios duros e impenetráveis à água e, em algumas plantas, até ao oxigênio. Muitas sementes só conseguem germinar depois de demorada ação de microrganismo do solo e de outros agentes do ambiente que enfraquecem suficientemente seus envoltórios, a fim de permitir a entrada de água. Como há semelhanças entre nós e as sementes! Que envoltórios duros estão nos impedindo? Na viração do dia, o Jardineiro convida-nos à reflexão, à experimentação de um viver pleno. Viver= ter vida, estar com vida, existir. Também significa: Perpetuar, gozar a vida sabendo aproveitá-la, habitar/residir/morar, sustento/alimentação, dedicação, conviver, forma de existir.É possível ao homem preservar sua centralidade e sair de sua própria centralidade para participar com os outros seres. Ser e não-ser, é a decisão tomada a cada instante. Estas questões levam ao tratamento de quatro temas básicos da vida humana, que podemos denominar pressupostos básicos da existência. A saber: a morte, a liberdade, o isolamento existencial e a carência de sentido da vida. Os alicerces da existência às vezes estão cercados por duros envoltórios.
O Éden, o jardim de Deus, lugar onde Deus “plantou” o homem, tem abundância, tem fontes. Fonte fala de águas que correm. Água: alimento, frescor, dinamismo, vibração, plenitude, purificação. A porta da fonte deve estar continuamente aberta em nosso alma. Nosso jardim particular, nosso jardim comum, necessita abarcar a dimensão da Fonte das Águas Vivas. Que amor nos move em direção a nós mesmos, ao outro, a Deus? Perdoamos realmente? Desistimos facilmente da pessoas pelas suas falhas? Há um registro que me chama atenção no livro Bíblico de Oséias, capítulo onze, versículo oito: “Como te deixaria, ó Efraim?” Essas palavras de amor são dirigidas em tempos de apostasia de Efraim. Deus atraía seu filho pelo perdão, pelo amor abundante, frutífero. Deus não desiste de nós. Mas nós desistimos de nós mesmos, desistimos de viver, desistimos das pessoas ao avistarmos suas falhas. Um dia de grande importância para os judeus é o Yom Kippur, que é o dia do perdão. Somos seres relacionais, formamos alianças de afetividade, de intimidade, alimentamos expectativas várias. Essas relações nos trazem sorrisos, felicidades, como também sofrimentos emocionais, frustrações. Molduras quebradas, botões que não se rompem na profusão de pétalas sonhadas. Manhãs com cheiro de desilusão. A semente parecia boa, a terra parecia pronta. O sol, a água, tudo na dosagem pedida; todavia, a flor não veio, não veio o milagre esperado. Algo aconteceu fora do nosso controle. O outro é uma surpresa. A surpresa sou eu. Provocamos e/ou sofremos feridas. Nosso jardim não é perfeito. Nossa humanidade é impactante. E mesmo desejosos por mudança, sofremos constrangimentos. Se buscamos a reconciliação, a generosidade, a tolerância, o perdão, nem sempre somos bem recebidos. Para cada estágio de restauração, por vezes virá um nível de ataque: escárnio, conspiração, ameaças, astúcias, acusações, intimidações, sutilezas... Quantos erros cometidos! E quantas consequências! Este processo: erro, reconhecimento do erro, arrependimento, confissão, mudança, pode ser doloroso, mas tem algo de libertador que vale a pena experimentar. Assim como é necessário enxergar as razões do outro, analisar as circunstâncias que o envolveram, para liberar o perdão. Conhecer as fragilidades, abrir-se em pétalas de humildade, saber-se em processo, em fazer-se constante, em semeadura, oferecer redenção, possibilidade de cura, de reencontros, tudo isso, esse olhar de lucidez para si e para o outro, abre portas de cárceres, constrói pontes, chegadas, nascimentos. Há que ser valente, hábil, cheio de fé para resistir, para não desistir, para lidar com imperfeições, as nossas, as dos outros. O dia que está por vir traz um novo desafio, um novo chamado, vale viver para gozá-lo.
Tivesse coragem mudaria o rumo, seria a mulher virtuosa de Provérbios, cumpriria meus votos, não iria vistoriar a volta do pé de ninguém, nem iria rodar a baiana quando pisassem no meu calo, usaria mais eufemismos e a quem me pedisse a capa eu daria, mas eu não dou minha cara a tapa e sempre tenho algo a falar em qualquer reunião, é chato sempre ter algo a falar, mais chato ainda é nunca ter nada a ser dito. Gosto de boas intenções, tenho tantas boas intenções, se fosse planta e vingasse daria um jardim imenso, infelizmente muitos planos se perdem, meu curso de fotografia sempre adiado, um rosário de decisões para viver amanhã, tempo perdido com inutilidades. Pessoas fora do seu estado normal são divertidas, eu fico assim se me obrigam a engolir sapos, se convivo por muito tempo com gente cheia de pose, ou com gente com cara de enterro, pior ainda se for com gente paroleira que desaba-se em perguntas cretinas sobre o peso, a careca, o casamento que ainda não aconteceu, a gravidez um pouco demorada, o divórcio, a morte de algum familiar ou qualquer outra perguntinha cercada de veneno. Incrível como pessoas podem se especializar em inconveniências, a lista seria numerosa, não vale a pena desfiá-la, melhor puxar outros fios, novelos cheios de cores, como minha paixão por cachoeiras, margaridas e lírios do campo, histórias lidas de trás para frente, poemas, tardes contemplativas em algum café, chá de capim limão, rede, boas risadas com os amigos, um fio de conversa que dura uma noite inteira e não se acaba, uma taça de vinho, um sarau, um recadinho na secretária eletrônica, alguns luxos em forma de abraços, massagens, toques nos cabelos, um aproveitamento verdadeiro dessa vida, que se traduz em confiança. Se alguém confia em mim, pronto, sou um cão fiel. Falta de respeito eu não admito, chutar cachorro morto não faço, gosto de brigar com quem esteja em pé, mas tem quem bata e depois se agache, isso me dá uma raiva! Ainda bem que passa logo que não vou virar um saco de amargura, não eu que aprecio cores fortes, que dos embates da vida e da velhice não tenho medo, só quero mais que viver, quero existir, existir a contento.
Ao cair da tarde a praça de Itaperuna enche-se de crianças, jovens, homens e mulheres, o movimento é intenso. Vale a pena olhar o céu, sentir os ares, ouvir o sino da igreja e ver os homens, anciãos dessa terra, passeando na praça. Eles são altivos, conservam as calças de tergal, o suéter, o relógio de bolso. Boinas ou chapéus de boiadeiro na cabeça. Têm um ar de sabedoria na fronte sugada pelo tempo. Têm um ar de graça e de virtude. Nossa praça é cenário para o despertar do amor de adolescentes; piruetas de crianças, caminhadas, conversas longas, discussões inflamadas sobre futebol. Ela abriga pássaros. Abriga homens. Nela convivem os tipos mais diversos. Alguns arriscam acenos, promessas de uma visita, flertes e sorrisos. Foi em Itaperuna, solo brasileiro dos índios puris, do bandeirante José Lannes, terra com Câmara Republicana antes da Proclamação da República, onde escolhi nascer, nos idos de 1963, e crescer, cercada por pai, poeta e comerciante e mãe, professora, tios e avós apreciadores de valsa e de encontros familiares aos domingos. Nesse tempo precioso aprendíamos com vovô Martiniano cantigas populares, brincadeiras e apreciávamos sua alegria de viver, seus rodopios com as filhas ao som de Vicente Celestino na vitrola. Vovô: uma cigarra aspargindo entusiasmo, jogando purrinha, ouvindo ladainha, apeando teso do cavalo, distribuindo balas para as crianças, distribuindo guaraná Ita, docinho, docinho, antes do almoço. Reminiscências de infância, quem não as têm? Itaperuna, minha pérola negra, meu caminho da pedra preta, tem me dado muitos amores, nessa terra fecunda, três flores brotaram: Sabrina, Gilmar e Gabriel, meus filhos. Essa terra bendita acolheu minha irmã Cristina. Minha história de vida está deitada nesse solo. Aqui estendi raízes, agigantei galhos, flores e frutos. Deitei no chão algumas lágrimas. É aqui, nesse torrão que eu me gasto e me deixo gastar, construindo sonhos, desbravando fronteiras.
Procuramos um lugar aconchegante, uma certa cena, palavras certas, o paraíso perdido, o jardim útero, nosso Éden. Somos seres-expulsos-do paraíso, o vir-à-luz nos parece uma ameaça. Seguimos nossa caminhada agarrados nos paraísos temporários, com medo do crescimento possibilitado pelas perdas. Há uma insatisfação constante. Andamos insatisfeitos com o paraíso que temos. De paraíso em paraíso, constatamos que paraísos terrenos não são perfeitos. Uma palavra, um gesto, uma atitude, um fato alheio a nossa vontade pode desmontar nosso paraíso definitivamente. Impedidos de voltar ao paraíso perdido, seguimos receosos diante das decisões, das escolhas a que somos impelidos. Então, ou optamos pela vida, ou pela morte. A opção pela vida cria condições para a construção do nosso jardim, onde devemos deitar sementes de fé, amor, carinho, amizade, encantamento, preciosas flores para tornar “La vita bella”. Paraísos perdidos devem ser esquecidos, do contrário, seremos Sísifo rolando a pedra e caindo da montanha. Se alguma pétala caiu, se a rosa se recusou a oferecer suas pétalas, o jardineiro “bordacostura” aqui e ali os meandros, as mil sutilezas amorosas do existir ao ver ruindo seu investimento de ideais e esforços. Artur da Távola já afirmou: “O homem (se) constrói o mito da perfeição pela dificuldade de aceitar a inerente imperfeição e incompletude da vida. Quanto mais o ser humano se auscute, será para defrontar-se com a impossibilidade de alguma solução pacificadora, permanentemente perfeita e acabada. Somos um fazer-se sem descanso”.Jardim é lugar onde se cultivam flores e plantas de ornato. Como é prazeroso passear num jardim bem cuidado! Como é agradável ser um jardim regado! Como é triste verificar que algumas pessoas escolhem, teimam em ser deserto! Desertos podem tornar-se jardins fecundos, almas podem ser restauradas. Há possibilidades de mudanças. Gosto das palavras edificar, reedificar, restaurar. Elas são eficazes no combate a certos desertos: medo, insegurança, frustração, autocompaixão, mágoa, crítica, falta de perdão, ódio. Restauração é isso: tomar alguma coisa boa, que sofreu danos e estragos, lançar mão das experiências do passado, até dos fracassos, para trabalhar sua restauração, repará-la até que se torne como ela era originalmente. É quando estamos diante do desafio da remoção de coisas que se acostumaram a conviver conosco. Jardim regado precisa do Jardineiro Salvador, Consolador, Sarador, Regenerador, Restaurador. Posto que a alma humana traz muitas marcas das quais precisa se libertar. O que foi perdido no Jardim do Éden pode ser conseguido mais uma vez em Cristo. Que bênção e que privilégio caminhar diariamente com Deus agora, esperando aquele dia quando poderemos viver eternamente em sua presença, no céu!Enquanto estamos no corpo, vamos cuidar dos nossos jardins.Jardinagem requer esforço, trabalho, método,investimento. Cultivar essas tais flores pede sensibilidade, sabedoria, paciência. Esta semeadura de vida é a decisão de florescer mesmo diante dos percalços, das crises, das nossas tragédias pessoais. Jardins pedem altruísmo, reciprocidade. Jardins são submetidos a pragas, a ervas daninhas, a coaxar de sapos. Edificar jardim requer sabedoria. A Bíblia aconselha não arrancar o joio para não danificar o trigo, deixar que cresçam juntos até a ocasião da ceifa. Tempo a ser respeitado, processo a ser cumprido. Ser jardineiro é também lidar com espinhos, ferir-se às vezes, não é só presenciar nascimentos, florações, aromas. Manhãs e adormeceres no jardim ensinam sobre a beleza de tudo. Há beleza em todas as estações. No outono, folhas secas estalam sua lucidez de ter sido folha tenra, agregada e agora colorir livremente o solo, ainda fazendo barulho.
Desde os primórdios da humanidade, o homem cria seu mundo ficcional, elegendo símbolos para melhor compreensão da existência humana. E o poeta, por vezes, utiliza-se desta simbologia a fim de alcançar maior expressividade na sua fala.
A iconografia do fogo é um tema recorrente na literatura e na fala poética de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Percebe-se em sua fala um espaço textual múltiplo, ou seja, em vários textos (linguístico, mítico, sociológico, histórico etc.) que se deixam ler no enunciado poético.
Revela-se na obra pradiana a influência de outros grandes poetas: Petrarca, Leopardi, Carducci, etc. Esse é um tipo de poesia em que a experiência sentimental é passada por constante e intensa reflexão filosófica, associada a uma criativa transcrição literária num itinerário do destino humano, da experiência amorosa e do mundo espiritual. A evocação da natureza, nos poemas de angústia amorosa ou existencial, é estratégia poética geradora de atmosfera rústica propícia à solitária meditação de cunho filosófico e à produção artística.
“Nascemos motivados pelo ímã,
Pelo impulso, que tanto mais exalta
Quanto mais exalta
Quanto mais se mantém fiel à terra...”
A “safra de sonhos” do poeta se apresenta:
“Embora infante boca do futuro
já posso pronunciar meu Evangelho:
SOMENTE O AMOR INFLAMARÁ O PLANETA!”
“Seja o tom do meu Dó o infra-vermelho”
“Eis que o novo e o emergente não suportam
o ritmo fanhoso do ser-lesma”.
Cantigas, acalantos,sonatas, canção: o poeta-menestrel, Assim, diz o fogo:
Num oceano de luz de brilho ardente
Envolto em turbilhão meu corpo em brasas.
Meu voo é expectativa de alvorada,
Meu canto, o amanhã, que eu já soletro.”
Dizer o fogo. Esta marca contida na poesia pradiana mostra como o poeta reforça a idéia de que é preciso devolver ao homem o fogo da paixão, o amor à vida, apesar das dificuldades. Ele faz uso de antíteses, parecendo confrontar a dor de existir à necessidade de sobreviver às intempéries e demonstrando estar consciente da sua hominidade. Nessa poesia metafísica, a angústia do poeta não é maior que sua fé na vida. O poeta faz uso de epifanias, revelações instantâneas de uma unidade superior entre contrários, de paradoxos neo-barrocos para traduzir seus sentimentos.
“Meu voo audaz de pássaro sem asas
É seta que fustiga o alvo em chamas...”
É constante o movimento até a luz/sol e o retorno aos homens e à sua impactante humanidade. Este movimento cíclico denota busca de transcendência, desejo de imprimir à vida significado.
“Meu fogo forja, lento, os diamantes,
Requeimando, furioso, toda a escória.”
“Esse inquietante rastro incandescente
De onde vem? Para onde vai? E como
Viver com ele em ritmo tão vivo
Que a luz e o som são junto dele tardos?!!
Diz-nos que a vida é um átimo
Que a nossa pequenez supõe enorme?
Ou segreda que o instante se dilata
Nas asas desse Pássaro de Fogo?”
O tempo, Pássaro de fogo, incita o poeta ao Carpe Diem, ao aproveitamento da vida. Já que esta, como afirmou S. Paulo ao escrever aos de Corinto: tempus breveest!, ou seja, “ quão breve é a nossa passagem pela terra!”.
“Ah! Esse momento fugazmente belo
vale e compensa o passo paquidérmico
De nosso andar tão trôpego e impedido,
Quando os distantes da inocência lúdica.”
"Toca a trombeta, quer o crepitar da vida.
Para si e para todos."
“Que eu dance ao forte som incandescente
Da espiralada chama saltitante
E suplante a exaustão do fogo fátuo.”
“Não morras atrelado a essa tão frágil
capenga exalação de fogo tardo,
nem sejas mariposa ensandecida
Brilhando consumida em luz que é finda.”
O termo chama assume simbologias distintas na obra, como no verso:
“Em Chamas me despeço destas Chamas...”
O poeta/sacerdote também aparece como soldado armado de lança, de prontidão à procura da laje em que se acende o fogo. Numa obra onde percebemos os signos /água e fogo como propiciatório da purificação. Poema propondo libertação. Num ciclo vital o poema emerge do meio da sarça ardente. E o poeta, tal qual Moisés no monte Horebe, vê o Divino em uma chama de fogo. O poema é a sarça que não se consome. É esperança e fé.
“Eis o meu corpo:-
Centelha...
Eis o meu sopro:-
Fagulha...
Este meu verbo:-
Bebei-o
...
E ide em paz
Para exercer
o amor...”
É surpreendente a densidade da literatura pradiana: erudita e singela, mística e sensual, poemas de amor, celebração de amigos, diálogo com poetas do passado e do presente, com a Literatura universal e brasileira, parece que intui soluções para este momento histórico que vivemos. Esta é uma poética que propõe falar sobre a energia da criação, da vida e da transformação.
É uma poesia que "queima" de amor, paixão, e que nos impulsiona a ter fé na vida. É a poesia de um homem de 84 anos, de uma formação clássica, mas ao mesmo tempo é uma poesia contemporânea. É a poesia de um poeta que embora extremamente culto, e que faz interlocução com Antonio Machado, Murilo Mendes, Antonio Candido, Pe. Antonio Vieira, Goethe, Wolfgang Amadeus Mozart, Dante Alighiere, Franz Schubert, e também com canções populares.
A poesia de Prado nos impulsiona sempre para a esperança, e para a alegria, ainda que inventada. É uma poesia cheia de ritmo (Sinfonias possíveis), feita por um poeta-compositor, que tem ouvido para música:
“Trago dentro de mim harmonizados
Muitos sons e canções, que não componho,
Tão vibrantes, coesos, concertados
Que enformam a textura de meu sonho.”
O estudo da obra pradiana cria e desenvolve instâncias de reflexão e construção do conhecimento acerca das grandes questões contemporâneas que estão enraizadas na literatura e na filosofia.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
BOECHAT, W. Mitos Arquétipos do Homem contemporâneo. Petrópolis: Vozes, 1995.
BORDIEU, P. O poder simbólico. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
DURAND, G. As estruturas antropológicas do imaginário. São Paulo: Martins Fontes, 1992.
PRADO, A. L. de A. Ciclo das Chamas e outros poemas; prefácio Antônio Candido. - Cotia, SP: Ateliê Editorial: São Paulo: Oficina do Livro, 2005.
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Sarau inaugural com o tema "O Sonho do Poeta", com Alex Dias, Fernanda Almeida Prado, Gabriel Almeida Prado, Irineu de Palmira e Miriam Samorano. Homenagem ao poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado.
14° Festival Internazionale della Poesia 2008 16 giugno 2008 Palazzo Ducale - Genova (Italia) con il poeta Antonio Lazaro de Almeida Prado e l'attrice Patrizia Ercole
“O eu se conhece, sem dúvida, como refletido por toda a realidade objetiva que constituiu ou para a qual contribuiu; portanto, ele se reconhece a partir de uma realidade conceitual.”(LÉVINAS, 2005).
Babel. Ninguém escapa da sensação gauche, um estar deslocado, perdido entre monólogos e alguns silêncios, intervalos e desencontros . Dada a habitualidade dos comportamentos, parece não estar entre as prioridades ouvir e compreender o outro. A caminhada apressada e mecânica nos conduz às conversas superficiais e repetitivas e testemunham nossa incomunicabilidade. Ver e não ver, dizer e não dizer. Entre avanços, recuos e torneamentos, nossos canais perceptivos falham, incapazes de conviver com o pluralizado.
A vida parece por princípio, cindida. Os que sabem e os que não sabem, os que podem e os que não podem, os que têm e os que não têm, o princípio da inalteridade reina mesmo nas pertenças grupais, o que acabou por naturalizar a açăo invisibilisadora .
Esses sujeitos do querer, do saber, ou do poder são bem delineados em Vidas Secas, pela enorme carga humana que a leitura traz:
“Evidentemente as criaturas que se juntavam ali não o viam, mas Fabiano sentia-se rodeado de inimigos, temia envolver-se em questões e acabar mal a noite.” (RAMOS, 1989, p.75). “Comparando-se aos tipos da cidade, Fabiano reconhecia-se inferior. Por isso desconfiava que os outros mangavam dele. Fazia-se carrancudo e evitava conversas. Só lhe falavam com o fim de tirar-lhe qualquer coisa” (RAMOS, 1989, p.76).
Identidades dissolvidas, substituidas pelo retrato estereotipado e classificado, presas no jogo de invisibilidade e visibilidade, privados das relações dialógicas. A gama de especificidades das relações que estabelecemos com o outro aponta para a necessidade de redefinição das possibilidades de escuta, de contato e de interpretação. A identidade se constrói no espelho, no olhar do outro.Vencer barreiras invisíveis, e conquistar relações alteritárias é um desafio contante.
Restituir o olhar, o diálogo, a partilha, é um bom começo para o exercício da responsabilidade ética que se correlaciona com a experiência humana e a ressignificação do existir.
Referências:
LEVINAS, E. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Tradução de Pergentino Stefano Pivato. Petrópolis: Vozes, 2005. RAMOS, Graciliano. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 1989.
Braga nasceu na Inglaterra, mas é brasileiro (registrado no Consulado). Residiu em Itaperuna por muitos anos. Em Itaperuna fundou Cooperativa, Sindicato e Jornal. Fulgura com um artigo no livro “A Terra da Promissão”, da lavra do Major Porphirio Henriques, com publicação no ano de 1956. Participou da história do nosso Município e demonstrou interesse pelo progresso local. Escreveu crônicas sobre fatos importantes ocorridos aqui: a inauguração do Aeroporto, a reparação na concretagem da ponte de cimento, o Hospital Regional, o albergue noturno, etc. Na Fortuna Crítica de Braga Mello constam crônicas, alegorias poéticas, análise crítica, contos e romances. Sobre sua lírica, já disse Jary Henriques: “são escritos cintilantes, eruditos e emocionais que provam a acuidade de uma inteligência viva e cultivada em remígios para mais alta esfera.”. Percebemos a autobiografia na lírica do poeta, reorganizando os espaços da infância dando a eles um caráter poético. Ao privilegiar a memória, o poeta fica à mercê das alegrias e das tristezas. O convívio com a morte surge no poema “Na morte de meu pai”. A experiência estética de Braga Mello revela aspectos do sujeito no mundo através de uma abordagem em que o comentário, a análise e a interpretação brotam dos textos, como se conversasse consigo mesmo, num entressonho, dando vazão ao que leva na alma. São vários os temas que provocaram o homem de Letras: o bate papo das ruas, as reivindicações do povo, o preço do pão, do café, do feijão e do arroz, um fio de prosa cercado por reflexões e fina ironia, como se vê na crônica “Feijão e Arroz”, escrita por ocasião da Campanha moralizadora de preços”, texto publicado no Jornal “O Imparcial”, nos idos de 1954*: “Ou a situação melhora ou, muito breve, estaremos ingerindo pílulas vitamínicas, concentrado e precipitado de gramíneas e leguminosas, e usando da alta sujestão por meio de uma revista de arte culinária. Passem bem, até a próxima semana. O Brasil deveria ser um país essencialmente agrícola, entretanto, nós nascemos para burguês. Comprar- pronto- eis o lema, este orgulho é que nos aniquila o progresso. O petróleo, o ouro, a borracha, tudo a nós pertence, porém, nada nos anima a um investimento, a uma campanha de soerguimento nacional a fim de, ajudados com o que nos dá a terra, erguermo-nos tal qual um gigante ao lado de outras potências. Quem nasce para tostão, não chega a duzentos reis. Assim diziam os antigos. Podemos, no entanto, mudar apenas “reis” para a atual moeda, para adaptarmos aos nossos dias o saudoso pão de tostão que tinha mais ou menos o tamanho do hodierno pão de um cruzeiro.” Ainda não temos um teatro em Itaperuna, Braga. E o Conservatório ainda passa por muitos problemas, mas continua abrilhantando a vida cultural da cidade. Parabéns, Braga Mello! As palavras são seus anzóis, pequenos e imperceptíveis, vão fundo e chegam longe.! Um abraço poético da Academia Itaperunense de Letras.
Referências * Textos de Braguinha publicados na década de 1950 nos Jornais Brasil Novo, A Voz do Povo, O Norte Fluminense, O Imparcial e O Itaperunense.
JORGE MÁRIO DE BRAGA MELLO é ESCRITOR, jornalista e membro Correspondente da ACIL -Academia Itaperunense de Letras.
Como nos aquece a lembrança dos bons momentos que vivemos! As ocasiões festivas, um sol brilhando, a planta enverdecendo, as flores que chegaram, os risos com os amigos, o aconchego com o amado. O fruir das coisas simples da vida. Pequenas aventuras que celebram o existir.Celebrar é abraçar visões líricas, é vislumbrar nascimentos, é ter no olhar a força que ilumina a despeito das circunstâncias. Celebrar é agradecer, é redescobrir o valor das coisas. É entrar no barco e encostar os dedos nas águas do rio- atravessando águas claras ou sombrias. Porque, como disse Paulo Mendes Campos: um dia tem sempre outro dia a esperá-lo, a recompô-lo, a redimi-lo.
“Que marchem!” Marchar fala da atividade insessante, indica luta, coragem, requer idealismo, diligência, perseverança. É um imperativo que aponta para o progresso contínuo, para uma peregrinação saudável e frutífera rumo à liberdade transformadora do olhar. Já Aristóteles ressaltava a primazia da visão sobre os outros sentidos. Santo Agostinho celebrava platonicamente como “o mais espiritual dos sentidos”. Certo é que com o olhar capturamos, cedemos, extraimos, doamos, acolhemos, rejeitamos, permitimos, negamos, negociamos intenções, desejos, fantasias e frustrações.
Com Machado de Assis, quantos de nós não apanhamos o hábito de investigar as pessoas antes de aceitá-las? O Olhar de ressaca de Capitú pode tornar-nos “exímios” leitores de olhares. Desprezar as evidências do olhar não é inteligente. Mas às vezes é imprescindível lançar olhares desarmados, sem os preconceitos que nos foram impostos.O preconceito diminuiu-nos, aviltou-nos, amesquinhou-nos, tolheu nossa liberdade, impediu nosso diálogo com os outros.
Conhecemos a inclinação humana para a negligência, o desânimo, o receio da novidade, a soberba. Esse comportamento nos paraliza, deixa em nossas mãos receituários que pouco nos servem, limita nossas expectativas.Sobre isso já escreveu Mário de Andrade: “o passado é uma lição para se meditar, não para reproduzir” Quando não há liberdade, os conhecimentos são escolhidos e impostos para que os aceitemos e nos moldemos por eles. É a filosofia do conformismo e da passividade.
Apesar das marcas da luta em que pesem algumas desilusões ou desencantos, vale a pena enxergar em profundidade, além das aparências frias das coisas.Ivan Lins e Victor Martins, na letra da música intitulada: DAQUILO QUE EU SEI, disseram: “Não fechei os olhos/não tapei os ouvidos/cheirei, toquei, provei/ ah! eu usei todos os sentidos/só não lavei as mãos/e é por isso que eu me sinto cada vez mais limpo. Agir com liberdade é não ter receios para usar todos os sentidos. É não nos omitirmos. É aguçar nossa capacidade de visão.
Fazer as massas levantarem-se e ver um pouco além de seus estreitos horizontes foi o mister de cientistas como Einstein, estadistas como Lênim, libertadores revolucionários como os latino-americanos Bolívar, Martin, entre tantos outros. Mas nem sempre as pessoas estão preparadas ou dispostas para ver. Estão presas em demasia aos seus valores tradicionais, perdendo, com isso, a perspectiva de julgar com isenção e serenidade outros valores, diferentes dos seus.
Há que se apostar nos sonhos, quebrar certas rotinas, deixar o grão do inesperado brotar, ver com os olhos livres. Ser acrobata, flexível. Aprender a partilhar, regar e colher no tempo oportuno. Não impedir o avanço, a descoberta. Nascer a cada dia para o novo. Criar dentro de si o tempo renovado. Estar um passo a frente. Desamarrar laços inúteis. Expandir o olhar. É preciso deixar os embaraços do medo, dos preconceitos. E brindar ao novo. Expelir olhares frios, rotineiros, mecânicos, formais. Cultivar o respeito as opiniões alheias. Duvidar de tantos paradigmas. Aproveitar as oportunidades. Ousar. Que vantagens auferiremos por trilhar esse caminho? Há um particular tesouro no caminho da liberdade. Só precisamos levantar os olhos e ver.
Manhã de domingo, sol lambendo as calçadas, crianças se lambuzando de churros, jovens, senhoras e senhores habitaram a praça Nilo Peçanha para ver o Circuito de Encontro de Bandas de Música. O homenageado: maestro José Carlos Ligiéro. As cadeiras dispostas pela praça acolhiam componentes das diversas bandas. Os passantes, fascinados, aproximavam-se, cativos daquela beleza. Bandas jovens convivendo com outras bem antigas, experientes. Assuntos variados, oportunidade para abraços saudosos. Alguns lamentaram a pressa do tempo, falaram sobre a infância, outros encontros musicais, das belezas de outras manhãs, de outros dobrados. Saudosos das janelas abertas, sem grades, das cadeiras nas calçadas, das casas cheias. A música seguia acalmando, seduzindo, fazendo vibrar corações endurecidos pelas marcas do cotidiano. E são tantas marcas, perdas, sonhos desfeitos. Num instante, tudo parou. Mambo*. Os corpos se movimentavam, pés, mãos, cabeças, o maestro vibrava e a banda era puro transbordamento. Eu ali, encantada, despedi algumas neblinas. Aquele instante me salvou.
*Apresentação da Banda da Serra, município do ES. Luciana Pessanha Pires
Estar enamorado é franquear portas, emergir, desfazer placidez, destruir certas reminiscências. É ir tateando, ganhando ruas, produzindo metáforas. É legitimar pluralidades. Amar é encantar os rios que correm, retirar os véus que envolvem as emoções, é deixar as almas se entenderem. nada de gestos truncados, poentes enegrecidos, almas desterradas. O amor nos faz renascer.
Quando amamos descobrimos o além do sonho, soletramos estrelas, viramos a chave, somos muito mais que raízes. Somos páginas libertas, semente. Aguçamos asas, rabiscamos oceanos, temos luminosas perspectivas. Estar enamorado é viver, adejar pelo infinito. É fazer brilhar a lua no céu, retirar do seio aromas. É sentir tudo, exprimir harmonias.
Quem ama gosta de nascimentos, de pétalas, é nuvem leve, gosta de ousadias, pesquisa, espreita e esquadrinha o seu amor. Leva o seu coração para a praça e faz dele uma ata romana.
Estar enamorado é apreciar manhãs claras, flautas, sementeiras. É ter a intenção de procurá-las, de percebê-las. É pulsar e se apurar amor.
Algumas manhãs têm olhares familiares, perfumes frescos, sons amenos, têm a expansão das coisas infinitas. Em algumas manhãs, sonhamos tempos, jornadas, madrugadas, luares... Adejamos delírios, mares iluminados, céus abertos. Nessas manhãs, ao olharmos a estrada, divisamos horizontes, calmarias. Em algumas manhãs, falamos de amor, do tempo que cicatriza tudo. Falamos das noites de verão, fabricamos nossas alegrias, cristalizamos as coisas eternas. Captamos canais sutis que pairam no ar. Entramos em sintonia com as coisas e pessoas, percebemos as pistas não-verbais, tudo fala ao nosso redor. Acreditamos que estamos aqui para acrescentar alguma coisa à vida. Nessas manhãs, as rosas tecem seu perfume e explodem seu vigor, majestosas, querendo prolongar sua floração, impedir que seu rendado se encolha, que, murchas, caiam. No tempo de rosa tecendo seu perfume, suspendemos hostilidades, então, brotamos, e o vir-a-ser toma certa vivacidade. É orvalhado, altar pacificado.
(do livro "Sobre tempos e jardins" - Luciana Pessanha Pires)
No princípio era o verbo... e os gestos que marcavam as manifestações de vontade, os atos públicos eram praticados nas portas da cidade e no paço municipal onde se encontravam a administração e a justiça. Nesse tempo, as expressões de vontade eram marcadas por rituais, compostos por palavras, gestos e expressões. A imagem da Ata Romana do tempo da Roma Antiga nos convida a trazer à tona nossa ata particular no centro das intenções: a praça. Paço, pátio, praça... nesse local de encontro deixaremos fluir toda necessidade de integração que há em nós. Segundo o verbo latino Patēo, os atos de expor, abrir e descobrir-se se fazem presentes nesse espaço. Na praça há uma postura ativa perante o mundo. O indivíduo se faz ser visto e adquire uma razão de ser. Ali, com o coração descoberto, desnudo, relacionando-se diretamente com a abóbada celeste e, conseqüentemente, com todas as manifestações climáticas, exposto, acessível, suscetível, o homem pode permitir-se. Permita-se. Traga seu coração para praça e faça dele uma Ata Romana.
Papéis, telefonemas, recados, rotinas cristalizadas, dias nascendo, morrendo, inquietações, murmúrios, crenças, dúvidas, constantemente nos desafiam. Somos submetidos a uma carga tal de exigências que precisamos aprender a conviver com elas pacificamente, dicionarizá-las, rompê-las, transformá-las em combustão, dínamo para poetizar a vida. Nesses momentos precisamos desacelerar, aquietar as batidas do coração, silenciar temores, deitar os fardos. Recomenda-se o diálogo consigo mesmo, sem ruídos que alterem a estrutura do sinal; a entrega à harmonia, à afinação. Como os afinadores de violino, usando o diapasão, ouvidos sensíveis. Ser lapidária de si mesma. Tão bom amanhecer algodoada, liberta bebendo o dia, pousando nossas pétalas em planetas sonhados. Dia de ficar bestando por ai solta, uma pipa dona da linha sem pressa de nada. De delícia em delícia. Aspirando todos os aromas, com riso gauche, com asas imensas. Dia de ver anjos, de falar amenidades, de ignorar teoremas, de ser polida pelo amor, de segurar a fé que às vezes nos escapa, dia de desintoxicação, de deslumbramento, de abrir o peito em abraços, de descobertas, sabores, de alcançar mudança de borboleta.
É manhã, o sol está alto, o mar numa cor esverdeada esbanja alegria. Apesar disso, uma onda mal-humorada me nocauteou. Quem sabe para me despertar... A natureza faz dessas coisas. Um mar de sonhos, um mar de problemas, um mar bem na minha frente. E tanta gente, tantas vozes, tanto silêncio. Um paradoxo. As lembranças sorriem, bailarinas, sobre o mar. O tempo que eu bebi o mar com minha irmã Cristina. A vida é feita dessas circunstâncias, como já disse Machado de Assis: “ dos momentos idos e vividos”. Bem vividos.Todavia, há um intervalo entre as alegrias, são marolas inquietas, um tempo para repensar tudo e se reconstruir. Um marasmo sadio, um tempo para se encaramujar, depois sair do casulo e renascer. Você está encavernado? Não se preocupe! Carregamos, todos, os sulcos profundos de muitas lutas, é natural. É crescimento, é semente que se lança ao solo. Amanhã você troca o espírito angustiado por vestes de louvor, sai do vale e sorri sereno. Há um propósito em tudo, cabe a nós a sabedoria e a serenidade para divisar o que está sendo ensinado. Quando adquirimos essa consciência aprendemos que nossa alegria deve transcender a circunstância. É assim que um ser humano envelhece sem se amargurar. Molho meus pés nas ondas, a água fria, a espuma branca me trazem de volta o sorriso e a doçura. Vale a pena viver. (Luciana Pessanha Pires)
Eu tenho prazer em escrever porque quando escrevo palmilho minhas cavernas, meus ecos. Pacifico meus temores. Suavizo dores. Adormeço medos. Escrever é dissipar nuvens, buscar o outro, fragilizar-se, fortalecer-se. É, ainda, contar épocas, reavaliar os passos, reafirmar idéias, expandir-se. Eu tenho prazer em escrever porque preciso pavimentar os caminhos, abrir vias secundárias, transitar, ajustando-me ao meu próprio tempo.Escrevo porque preciso cunhar definições para as coisas. Recuar no tempo. Avançar no tempo. Ser mirante, ser beiral. Dormir abrigando sonhos. Quando escrevo, dou lugar às emoções, decifro olhares e desejos desassossegados. Escrevo para oferecer trilhas, tramas e rumores de liberdade. Eu tenho prazer em escrever porque quando escrevo capto ruídos, segredos, desvarios... Devoro silêncios. Grito, canto, sofro. Jogo pedra nos telhados dos homens. Coloco a alma no barco, o barco na cena. O mar inteiro em uma linha. Escrevo porque preciso espargir luz, criar horizontes, ouvir sinos. Tocar músicas suaves. Cantar crenças adormecidas.Tenho prazer em escrever porque gosto de simular situações, experiências, criar elos, desmitificar regras, Hospedar paisagens de todos os tipos. Iluminar labirintos. Escrevo para expressar atrações , encantamentos, olhares, sorrisos. Nossas buscas, nossos discursos, nossos sonhos. Escrever é cercar-se de tudo que é luz. É pousar animosidade sobre as coisas e pessoas. É estender virtudes pelo “sertão-vida”.Escrever é migrar sobre oceanos, é varar ondas, é procurar nascentes, auroras. É antecipar florações. È legislar o amanhã.
(2º lugar no concurso “Prazer de Escrever” promovido pela editora Litteris em 1997)
Eu vi o mundo na palavra homem, anônimo, homúnculo, menos que número, povoando a Terra. Vi ser humano fabricado, nascimento negado, futuro condenado, menino armado nas galas da florescência. Vi nos fragmentos de jornais: gritos, retratos, estatísticas, violência, atentados sanguinolentos, intolerância, resto de pó da miséria humana. Então, eu quis o mundo na palavra verbo: amar, respeitar, unir, harmonizar. E descobri que posso reinventar a história, como disse Drummond: “entre coisas e palavras principalmente entre palavras –circulamos, vivemos, morremos, e palavras somos. A vida é cara, mas não é sentença. Eu e o outro não temos que ser trevas. Podemos ser caçadores de estrelas. De mãos dadas semearemos pelo mundo aquilo que convém ser semeado: diálogos de paz. E trabalharemos pela colheita. Anularemos as palavras desassossegadas: ódio, negligência, abandono, injustiça, culpa. Eu vi o mundo na palavra esperança. Ó abre alas que eu quero passar. Na linha ponho a isca de um sonho. Pesco uma estrelinha.
Onde se apura o amor? Entre taças e cálices, entre gestos, entre dizer e não-dizer é que se apura o amor. Mas o amor também se apura nos intervalos amorosos. Afinal, o amor não vive apenas numa atmosfera da lareira com vinho. Há que se fazer ajustes entre o desejo e o fado. E a tudo o amor reclama, para não ser desamor não suprido. O amor pede orvalho, suspira transparência, quer o rufar dos tambores, um festival de asas ensaiando vôo. O amor quer celebração, alumbramento, dança, música, e dedilha no ardor das cordas seu delito de “amar, desamar, amar”.
Este espaço foi criado para os amantes das letras: poetas, escritores e afins.
O que os membros dizem sobre a comunidade
Essa comunidade é meu cantinho preferido. Aqui me sinto de novo na UFRJ, tal o apredizado de que posso dispor. Aqui me sinto entre amigos. Aqui encontro afeto, calor e respeito. Concordo com tudo que já foi dito. Nós sabemos bem que podemos encontrar nossa Luciana, amorosa, lúcida , atenta, criativa. Aqui tenho feito amizades para cultivar. Para encerrar, posso encontrar sempre belos textos de minhas amigas e de poetas renomados, posso liberar meu lado lúdico. Eloisa
Esta comunidade literária é uma das melhores da internet. Aqui, a gente interage, discute, aprende muito e faz amigos. Saludos. Maria José Limeira.
EBook Parolas ao Sol
Título: Parolas ao Sol - Autora: Virgínia Fulber - "Só se pode pensar e escrever sentado disse Nietzsche, amplio o aforismo ao ato da leitura. O Sentar é o mais importante preparo para iniciar-se na meditação Zen Budista e, para a execução de algumas artes desta filosofia oriental, de sorte que venho oferecer ao leitor alguns momentos que exigem paciência para degustação. Este pequeno Livro Eletrônico preparado com carinho trata-se de uma pequena coletânea de 20 textos em Prosa Poética, Crônicas, Versos e pequeno Conto que visam apenas de alguma forma iniciar um diálogo e aquietar outros... Pois Assim como O homem é um rio turvo. È preciso ser um mar para, sem se toldar, receber um rio turvo; (...)" - Virgínia Fulber. Download: parolasaosol.exe - E-book: formato .html
Envolver o Mundo Em abraço estreito Como se meu peito Com vigor fecundo Fosse todo feito Só para esse efeito De um amor profundo.
Abraçar a Vida Com total ternura Como se de pura Luz impressentida Fosse a tessitura(sem taxa ou usura) por todos fruída.
Construir a Terra Sementeira farta Que o pão reparta Onde não se encerra Onde não se enterra Fruto, ciência ou carta, Como quem se aparta.
Entoar um Canto Alegre, jocundo: Bem, de todo mundo Bem, que não se oculta Bem, que não insulta Bem, que não se enterra Mas que abraça a Terra.
Do Poeta Antônio Lázaro de Almeida Prado Professor Emérito fundador da UNESP (campus de Assis). ............. Contágio - Poesia do desejo (1993)
UM DIA
Umas fatias de pão torradinho, frutas frescas, um café, um cigarro e outra coisa qualquer com uma pitada de ternura.
Um mergulho nas origens, gotas de luz escorrendo em teu sorriso fluidas, como as tuas mãos nos meus cabelos.
Uma música na alma, um passeio descalço pelas alamedas do subúrbio à alegria de um sol abrindo flores.
Um chope, um frango assado, um aceno a um amigo que passa em liberdade e uma conversinha à-toa sobre coisas sem mistério.
Depois, a ilusão de que não há fome no mundo, de que não há criança sem escola, de que nos corações não há malícia, nem vingança feita crime, nem guerra, – a ilusão de que não há falta.
Então, uma caminha macia, um lençol com cheiro de primeira vez, um momento pra sempre em nossos corpos num pedaço de noite e luar pela nossa janela sobre o mar.
E um poema.
Um poema para não deixar que coisas como essas morram assim, simples coisas como coisas, assim, na coisidade de um dia – ainda que feliz.
Pedro Lyra
................ "Autoria"
Por mais que se escoem coisas para a lata do lixo,
clipes, cãibras, suores, restos do dia prolixo,
por mais que a mesa imponha o frio irrevogável do aço,
combatendo o que em mim contenha a linha flexível de um abraço,
sei que um murmúrio clandestino circula entre o rio dos meus ossos:
janelas para um mar-abrigo de marasmos e destroços.
Na linha anônima do verso, aposto no oposto de meu sim,
apago o nome e a memória num Antônio antônimo de mim.
"Todos os ventos", de Antonio Carlos Secchin .......... "A língua em que navego,marinheiro, na proa das vogais e consoantes, é a que me chega em ondas incessantes à praia deste poema aventureiro. É a língua portuguesa, a que primeiro transpôs o abismo e as dores velejantes, no mistério das águas mais distantes, e que agora me banha por inteiro. Língua de sol, espuma e maresia, que a nau dos sonhadores-navegantes atravessa a caminho dos instantes, cruzando o Bojador de cada dia. Ó língua-mar, viajando em todos nós. No teu sal, singra errante a minha voz."
Poeta cearense Adriano Espínola, autor de obras como "Fala Favela", "Taxi/Metrô" e "Beira-Sol". ............. Visão Interior
Pela janela surge a chuva imensa, molhando, estranhamente, o meu sorriso; entra em minha alma, sem pedir licença e me umidece o olhar. Então preciso
é que eu me esconda dentro de mim mesmo, pra das miragens não molhar veredas de um andarilho, que vagueia a esmo sobre desilusões fiéis, mas ledas.
Porém, não é mais a chuva o meu tormento, é mais, é muito mais... É a saudade que, a ver gastar-me instante por momento
e machucando-me por dentro assim, dizer-me vem, num poema, que em verdade, se pouco sou, foi o que quis de mim.
Ah! As miragens da alma nos enganam...
Maurício Cardoso Faria- Professor, membro da Academia Itaperunense de Letras.
Liberte a Palavra
Madrugada desembrulha segredos e dos olhos nascem caminhos.
Luciana ......
A lua que ilumina me acompanha nua ao silêncio mais profundo das entranhas do mar.
Izabel ...... Momentos de seda rasgam a memória pedindo eternidade.
Luciana ....... Suspeito de um beija-flor Que em seu passeio Rouba da flor, em flor Todo o seu amor Com um simples galanteio.
Maria Lucia ...... Abri a cortina e espiei a vida. Tivesse coragem e teria sido personagem, não platéia ordinária.
Elenir ...... Duas achas de madeira um só FOGO a queimar; pensar nisto: uma maneira de aprendermos a amar.
Diógenes .... A sua palavra semente floresce girassol em mim.
Luciana ....... Em minha plena lucidez anseio pela loucura: eu-ele nessa embriaguez de dois em um, um em dois. Uma, una: alma pura.
Patrícia ...... Nas asas do vento escrevi minha última mensagem. Ele se foi tão ligeiro, será que você a recebeu? Seria aquilo um aceno ou apenas uma miragem?
Elenir ........ Contrição
Teces oração aos pés do Cristo unção adoração no vaso de alabastro.
Luciana ..... Momento: pequena parte do tempo a passar veloz; vamos vivê-lo com arte: é a parte do tempo pra nós.
Diógenes .....
Galáxia de léxico, Movido a textos... Procuro silêncio e palavras No meu duplex... Mas perdi o dicionário entre As peças têxteis de látex.
Júlio ..... Na boca o cadeado travas fiando o tempo que não passa.
Luciana .... Lírios ao a(mãe)nhecer
Entre o sono e a vigília, sinto, às vezes, como num sonho, o toque suave de suas mãos - lírios alvos, delicados, exalando ternura -acariciando meu rosto, como se, por encanto, houvesse voltado no tempo, aos belos a(mãe)nheceres de minha infância.
Eloah Borda .... Limites tive muitos imitei os rios absorvi com as margens quando transbordei virei mar mas ainda limites achei.
Eloisa .... O seu sorriso chave ave a que aurora me destina?
Luciana .... Não sei o que é fingimento ou o que é verdade em mim experimento um dia por vez a esfinge que, em mim, se fez.
Ilana ..... São tantos intentos E no entanto Inúteis O santos distantes E os normais Acuados E a música remete Ao domingo Sangrento.
Mônica ..... Esse teu olhar mitiga relâmpagos dissipa toda taciturnidade.
Luciana ...... Palavra
Dança em meus pensamentos Em um momento apenas Das penas o papel alcança E fica assim Esperando Novas leituras Para de novo dançar.
Car_litos ..... Seren(a)idade esta que domina o medo e desfia o amanhã sem pressa.
Luciana .........
Por pensar imagens ideais, desenhou formas confusas do ser em espanto. Queria a redenção escondida em horas, instantes intermináveis de projeção. Vestiu sua miopia para dentro do espelho, ainda conseguindo ver alma pelos cantos. E depois Saiu ao encontro do sublime desejo, sombra doce de si mesmo.
Fabrício ...... Frágil(idade)
A hora lampeja crepita e movimenta os sonhos meu tempo é frágil(idade).
Luciana .... Fricção de ramos, mornas sensações, vento beijando as árvores. Fricção das cores em telas impressionistas Fricção de suspiros, fricções que não digo!
Eloisa ......
É de renda esse amor fresta de luz agulha e linha no meu corpo tramando cores.
Luciana ..... Numa noite enluarada Lá estava Lúcia Deitada na praia Seu corpo repousava ali, E seu espírito pela via lactea.
Maria Lucia .....
E ele se vestiu na macumba na umbanda na quimbanda para forjar o amor
Mas o amor despiu-se de encantos e saiu rua afora para sempre.
Luciana .......
A boca nasce ÁVIDA de vida e leite e sangue avidamente suga o licor da ternura e logo logo canibaliza esse amor.
Tekka .... FOGUEIRA
No enregelante tempo Um oásis de calor Aquece o fogo, A sala fria e sem cor!
Assim também a paixão é flamejante fogueira Aquecendo o peito, Derretendo a geleira!
Acaba-se o inverno No desejo por quem amas! Aquece-se o corpo no calor das chamas.
Lenise ..... Nosso amor Anel de luas errantes Beija estrelas Noite afora.
Luciana ....... Avante colcha de retalho no leito do trilho no chão da calçada no vão da mortalha na cegueira branca no dom da preguiça na beira da praia num ponto esquecido tira transversal logotipo adiante o dormente.
Rogério ..... Teus olhos sopravam promessas palavras-areia que o mar salgava entre mil ventos.
Luciana ..... Esperava palavras espumosas palavras aderentes, diferentes palavras que ficassem não partissem. palavras foram rosas breves perfumosas. Mas fizeram um estardalhaço! Uma explosão: cobriram espaços!
Eloisa .... Fim dos barcos Fim da sua/minha ânsia de navegar Fim da linha.
Luciana ...
Com uma receita de trigo A mulher sentou , pesou , mediu Mexeu , mexeu Bateu Suspirou! O trigo e fermento, com lágrimas banhou Abriu as janelas, Olhou a cidade, surpresa: Tudo de branco se cobria Tudo melado _ Dentro da pia, da tigela, o trigo com fermento sumira. E as lágrimas? Estas, ainda vertia!
Eloisa .... Escuto a voz encantada Dessas mulheres poetas E quietinha no meu canto Desamarro todo o verso
As palavras já libertas Brejeiras, leves, faceiras Brincam soltas na minha frente Com magia e mais encanto Sabedoria é à margem. Premonição no horizonte Pedra, prata e cantoria Passarinho e coração
Eloisa e Luciana E a mineira Maria Lúcia Fazem rima, fazem festa Poesia e emoção.
Cris Alvarez ..... Desordem a haver Estradas desalinhadas palavras desarrumadas Amor de afinidades e repulsões a desfolhar-se na noite.
Luciana .... Pensa na alma como as cordas que vibram e a vida os acordes.
Reinério .... Em movimentos espamódicos a água serpenteia o horizonte. O homem é apenas olhos e medo.
Luciana ...... Açucena oscilante
Oscilante açucena que balança Aos minuanos ventos da palavra Não sabes que oscilantes são os tempos correntes Em que poucos possam imaginar em verdade Ser oscilante açucena Um doce perfume que passa Pigmento ou apaixonados beijos de amor? Oscilante é teu significado Para quem não te sabe flor.
Car- litos ... Deixe o seu amor exposto ao sol das dúvidas enquanto beija e oferta bombas de amêndoas.
Luciana ....
Trovas
"Sugerir sem revelar"... induzir a uma emoção. O Poeta, em seu cantar, tem essa doce Missão!
(Elisabeth Souza Cruz)
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MEDALHA As medalhas com que cobre o seu peito de vaidade mostram que falta a mais nobre: - a medalha da humildade.
(Maurício Cavalheiro)
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Tua amizade guardei com muito amor e afeição. Quando de ti precisei fui buscar no coração.