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domingo, 12 de dezembro de 2010

O Fio de Seda


O que seria um pontinho branco num livro negro?
Talvez um desvio de conduta

O que seria um pontinho negro num livro branco?
O ponto final da escrita

O que seria um ponto final para quem gosta da escrita?
Seria uma frase:
É fim; porém não acabou ainda.

Sonhei com o Stev numa noite destas; agradeci a ele pela preservação das árvores, mas fiz uma ressalva aos tablets; que ele nos inventasse uns óculos que lê-se diretamente nas lentes. E o Stev me recomendou um oculista.

Caso ele aceitasse, trocaria as fontes dos livros por belas imagens, que substituiriam automaticamente qualquer imagem desagradável que tentasse chegar aos meus queridos olhinhos...

Em caso de chuva, raios inconsequentes e simultâneos, para fotografar tão belo episodio.
Em caso de exasperações sociais, fotos e mais fotos de muitas crianças sorrindo.

Em momentos de guerras e crises, imagens da terra vista dos céus de um negro universo, como um ponto branco manchado de azul, de onde não se enxergam as fronteiras, não se distinguem as línguas e os pontos e as virgulas ilusionistas de qualquer texto.

Caso ele aceitasse, e a invenção fizesse sucesso, pediria então uma nova versão:
O sintetizador de ouvidos:
Ao pronúncio de qualquer impropério, ouviria somente:

...

-Cale-se; Toca Mozart ao fundo...


sábado, 20 de junho de 2009

A palavra muda.


Não usaremos de palavreados, muito menos diremos impropérios. O problema não é nosso, como me declarou uma sincera amiga. Problema do morro é problema do morro. Mesmo estando acima de nossas cabeças, baixamos os olhos para os teclados do piano, e buscamos a harmonia da Palavra nenhuma, porém em harmônico silêncio.

Staccato!

Quantas fantasias e carros alegóricos estacionados, quantas cabeças de isopores enormes, de olhos vazios, fitando o vazio. Alguém dará um jeitinho nesse lixo, enquanto nos digladiamos para discutir o formato de cabeças leves e de preferência imunes às intempéries do tempo. Conseguiremos mais uma eternidade de olhos no nada.

Breque!

Utilizaremos pontos, traços e pontinhos, racionaremos os hifens, aboliremos os tremas e evitaremos as palavras polêmicas. O problema continuará não sendo nosso, continuaremos construindo bonecos, mas não abriremos mão de nossa máxima:

Muda!

A palavra (é) muda quando escrita no vento.




Carlos Alberto Veiga Muniz
(Car_Litos Veiga)

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Damas

Ausculto.

O silêncio ensurdecedor da sala só não é maior que a nuvem de pensamentos estratégicos que a ampara, queimando largados como se fossem incensos.

Não me lembro como vim parar aqui. Mas aceito o momento; só preciso de um tempo para me ambientar no processo. Olhos à mesa e vejo cartas e pedras. Não me recordo de nenhum jogo com cartas e pedras.

Um tabuleiro quadriculado sob um pano verde. Peças e fichas, consequentemente. O peão avança para proteger o cavalo que defenderá a dama em mais quatro jogadas. Sentido anti-horário, várias fichas ocupam o centro da mesa. Pasmo, vejo o próximo recuar o cavalo e mais um dobrar a aposta de imediato.

O relógio na mesa é acionado, e o tempo passa a ser descendente. Permanente e eterno, até ouvir um PLIM! E assim perdeu-se um cavalo.

Confiro minhas cartas. Um par de damas na mão, e uma na mesa. Mas a dama na mesa é de pedra e precisa de ajuda mais do que as minhas. Poderia desistir, mas insistir combina com o sonho e arrisco. Aposto tudo sem nem saber o que tenho, ou a que venho.

Cinco jogadores com cartas desistem, dois sem cartas sorriem, e aceitam o ultimato. Sinto-me blefando diante do tabuleiro.

A meu pedido é baixada uma nova dama, já que esta era a próxima cartada.

O segundo sem cartas faz um movimento. Dama envia o bispo, que fica à mercê do próximo jogador, com um simples avanço de seu bem colocado peão.

Três damas nas cartas e uma no tabuleiro. Todos riem e finalmente percebo:

Não importa qual o jogo: não se ganha das damas, apenas jogamos com elas.


Carlos Alberto Veiga Muniz
(Car_Litos Veiga)

domingo, 14 de junho de 2009

Alto do Farol

Assim, como em todas a vezes que o sol se recolhia, o faroleiro se encaminhava à escada caracol. Lembrava-se quando iniciou na profissão, sempre neste mesmo continente; os incontáveis degraus eram para ele como um exército adversário enfrentando sua grande vitalidade e nenhuma paciência em galgá-los um a um.

A missão de vencê-los dia a dia, com saltos vigorosos e largos engolindo de cada vez, dois, três degraus, tornava a escalada mais primordial que seu então secundário intento; o de prover a luz, necessária aos navegantes, como auxiliar e às vezes único sinal do seco horizonte.

No começo, a escada gemia resignadamente, enquanto seu algoz brincava de comemorar solitariamente a diminuição do tempo em que levava para alcançar as lentes do farol. E ali, inerte, degraus sem movimento, tirava a cada passo ascendente, uma centelha da vitalidade do faroleiro. Demorou para que ele se apercebesse da estratégia. Num dia, atribuiu a um passageiro mal-estar o fato de ter demorado mais para alcançar o topo. Com o passar do tempo, teve de antecipar a subida para acender as luzes do farol sem maiores atrasos.

Vigorosos agora eram os degraus daquela espiral escada, que primeiramente lhe tiraram o fôlego, depois enfraqueceram suas articulações, fazendo com que, nos dias mais frios, os pés que saltavam avante e acima, agora precisavam de um passo para subir, e outro para confirmar o sucesso, repetindo este processo, não mais preocupado com os índices, apenas sonhando em chegar.

E a escada transformou-se em serpente.

Como fora tolo, a escada serpente sempre tivera movimento.

Aprendeu então a tratar o presente momento de cada passo.

Cada passo.
Não como se fosse o primeiro,
Nem como se fosse o último,
Não como se fosse o próximo,
Nunca como se fosse o depois nem o antes.
Apreciava então o passo Presente.
O instante.

Imaginou-se louco no dia em que, no meio da subida, sentou-se e conversou com um dos degraus da escada:

“Obrigado, meu amigo, que me suporta por tantos anos. Amanhã, trago tinta azul para reparar seus desgastes. Desculpem-me, a todos, pela falta de atenção em servir-me. Veremos juntos o horizonte de cada passo. Nunca mais solitário horizonte, de um solitário mirante.”

Os degraus continuaram degraus, mas agora ele passeava todos os dias em sua escada rolante, rumo aos céus...


CARLOS ALBERTO VEIGA MUNIZ
(CAR_LITOS VEIGA)

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Corsários Contemporâneos


Não podia ser diferente.

A França sai na frente mais uma vez ao tentar decretar a mais dura das leis antipirataria na Internet. Pela proposta aprovada por Nicolas Sarkozy, os internautas que baixassem conteúdos ilegalmente, receberiam advertência, e em caso de reincidência, seriam banidas da rede. Coerentemente, o tribunal constitucional do país colocou o pé na porta, determinando que somente um juiz possa decidir sobre quais conexões sofrerão a moderna guilhotinada em seus azuis cabos de rede.

Mas afinal, do que trata o ato de baixar conteúdo ilegal?

O conteúdo em questão, trata da propriedade intelectual que sem permissão seja publicado, copiado ou modificado por usuários da Internet. As vítimas são as gravadoras, os estúdios de cinema, produtores de jogos para computador, profissionais, editores de imagens, antivírus, sistemas operacionais, etc...

Ainda que precariamente, nos casos citados a tecnologia ajuda a identificar o infrator. Nos lares, normalmente há uma conta cadastrada em um provedor, utilizada por toda a família. O pai, na calada da noite, dorme. O filho, navega e consome horas e horas baixando o último DVD, filmado horas antes pelo lanterninha do cinema onde ocorrera a primeira exibição (na pirataria do cinema, o lanterninha é sempre o culpado). De manhã, polícia na porta. Quem é levado à guilhotina?

Pela lei, talvez o pai, por ser corresponsável. Com Pai e filho cassados, a mãe pode acessar a Internet, ou o endereço residencial é sumariamente excluído para novas conexões?

Como qualquer iniciativa, esta precisa ser mais elaborada. Espero que não me convidem. Tenho ideias ótimas para identificar individualmente os usuários meliantes, porém desconfio que não seriam popularmente aceitas.

Mas há a pirataria que não se evita. Propriedade intelectual também trata de obras escritas. Toda vez que alguém copia parcial ou completamente um livro, uma revista, um poema, uma crônica, ou qualquer manifestação escrita sem autorização dos autores, está navegando na Internet com tapa-olho de pirata.

Toda vez que você acha uma citação bonitinha, ou um poeminha e o re-escreva em um cartão com flores, sem autorização do autor é crime.
Quando se ilustra um site, com texto sem citar o criador ou a fonte, não dá pena, mas dá pena do autor.

Valores intelectuais só podem ser respeitados por quem adquire valores morais.
Antes de sermos identificados por bancos de dados de provedores, nascemos e recebemos nomes; muitos sortudos recebem educação, e alguns, por intermédio da família, tem nas veias os valores morais, molinhas restritivas que desestimulam clicar nos botões de baixar o que não lhe foi concedido, por vias legais.

Para quem cria, fica o devaneio de receber ao menos um e-mail, solicitando a permissão, ou quiçá uma remunerada proposta ao uso do que é seu por direito.


CARLOS ALBERTO VEIGA MUNIZ
(CAR_LITOS VEIGA)

domingo, 7 de junho de 2009

Escritores com banda larga

E ela se foi.

A minha base, o princípio ativo da matéria onde deitava as minhas criações, havia sido extinta.

Quando irrompeu a tal guerra das telecomunicações, já sabíamos que seria desastrosa. Com uma clicada só, foram deletados todos os endereços da internet; nenhuma página, nenhum link, nenhum endereço de blog foi após este fato re-encontrado, causando inomináveis perdas culturais e patrimoniais. Todos os endereços da internet já não mais existiam, e assim, ficaram perdidos.

De nada adiantaram os backups, cópias dos arquivos das obras publicadas, pois os editores de textos necessitavam de licença eletrônica com senha, somente disponível nos sites dos fabricantes que já não fabricavam mais nada. Os códigos-fontes destes editores também estavam gravados em textos com chaves de autenticação online. Portanto, o acervo digital de todo o planeta estava eliminado.

Para complementar a catástrofe, a lei de preservação emergencial da natureza já com dez anos de vigência, que punia com pena de morte quem fizesse uso qualquer derivado vegetal para a confecção de papéis ou similares, não deixou viva nenhuma obra impressa.

Alguns escritores, arriscando a própria vida, surrupiavam móveis, pisos, vigas desde que feitos de madeira, para produzir papel ilícito, e assim, tentavam perpetuar as suas obras agora nada ecológicas. Porém, como não podiam ser copiadas e replicadas, tornaram-se perecíveis tesouros piratas.

Porém algumas crônicas e poesias permaneciam vivas. Preferencialmente, as mais curtas, pois eram fáceis de guardar na memória. Não foram perdidas as frases de efeito. Os grandes escritores, agora declamavam seus pensamentos em saraus como a Casa das Rosas. Cada apresentação era única, já que não havia quadro de avisos com a data prevista para cada apresentação. Para não perder cada novidade, os frequentadores já não iam mais embora. A Casa virou Recanto, e o Recanto virou Templo.

Esta é a história da Cidade das Rosas, onde a palavra é caneta, e papel é memória.

Aproveitando, declamo um poema sobre pedras se alguém tiver algum sobre prosas poéticas.

Carlos Alberto Veiga Muniz
(Car_Litos Veiga)