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sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Novembro de letras




Luiz de Aquino






Novembro , novembro... Mês do golpe de Deodoro contra seu protetor Pedro II; mês da “intentona” comunista de 1935 (há quem diga que aquele golpe foi um factóide getulista para justificar o plano do Estado Novo), mês da tentativa dos militares da linha-dura contra a posse de Juscelino, em 1955. Para alguns supersticiosos, novembro é “um agosto retardado”. Para mim, mês de bons e maus acontecimentos, mormente se levarmos em conta que o que me parece mau é bom para os que pensam do outro lado do círculo.

Tenho grandes e queridos amigos nascidos em novembro, e isso nos enseja momentos festivos e felizes. Novembro 19, aniversário de Iná (minha prima e primeiro amor quando sequer chegara à adolescência), de Paulo Fernando (irmão escolhido) e de Gisele , linda e cronista. Dia em que a República abriu mão da bandeira que usou por quatro dias e que se tornou símbolo do meu Estado, Goiás. Foi num 19, há quatro anos, que publiquei o meu “As uvas, teus mamilos tenros”, pura poesia erótica.

Infelizmente, dois dias antes, a pianista professora compositora e mulher maravilhosa, a mais importante dentre todas as pessoas nascidas nesta terra mesopotâmia Brasil Central, Belkiss Spenziere, fechou os olhos, negando-nos sua luz. Mas cuidou muito bem, e muito antes, de legar-nos sua arte e seus exemplos de Ser Humano que merece ser referida com iniciais maiúsculas.

Felizmente, há o 18, data de Dona Lousinha, professora-símbolo que há seis décadas é referencial da Educação em Goiás. Claro está que, nos últimos vinte anos, tendo feito por merecer, Dona Lousinha dispensou o giz e as coordenadorias, as diretorias e os horários, mas continuou a ensinar-nos valores de vida, como é da praxe de quem faz jus ao título. Dona Lousinha, este ano, concluiu o seu 89º ano de via, ou seja, já exerce o nonagésimo, no modo como deveríamos contar a idade. A ela, que gerou tantas pessoas encantadoras, o meu beijo de agradecimento. E bem lhe premiou Deus com tais filhos, com quem festejo essa preparação para a fase nonagenária, resumindo-os na pessoa da poetisa Leda(ê) Selma.

E já que me despedi dos fatos tristes, festejo mais aniversários. Meu primo, Antônio Cupertino, e a comadre mui querida Celestina, ambos do dia 13; o poeta, professor, publicitário e doutor em Literatura, Goiamérico Felício, dia 11; meu sobrinho-afim e afilhado em Deus, Rafael Granja, 28; e seu pai Cícero, 22, o mesmo dia da prima e comadre Teresinha Craveiro... Vou parar, porque não tenho cacoete para colunista social e já fico injusto com aqueles a quem não citei. Como não consigo falar nem escrever sem citar minhas paixões, cá estou de volta ao mundo das letras.

Dia 26, meu conterrâneo caldas-novense e irmão de ofício Delermando Vieira tomará posse na Cadeira 26 da Academia Goiana de Letras. O poeta, o mais premiado na história das letras de Goiás, com mais de uma centena de vitórias em diplomas, troféus, medalhas e pecúnia, talentoso e competente, deveria estar na AGL há muitos anos. Mas foi, muitas vezes, “aconselhado” por falsos amigos a adiar sua pretensão em favor de outros, alguns sem os quesitos óbvios para integrar um sodalício de Letras, mas preferidos por seus papéis de realce no meio político e social.

Enfim, o dia de Delermando! Ele é muito bem-vindo à Casa de Colemar.

Ah! Também lá, no casarão da Rua 20 com a Rua 15, na sexta-feira, 27, às 20 horas, farei dobradinha com a jovem e talentosa Lúcia Tormin Mollo. Ela vai lançar seu livro de estréia, “Bazar Oió – A ditadura contra a livraria”. E eu, devo autografar o meu novo livro, “Meia-Ponte do Rosário, Pirenópolis”. Esperamos lá todos os meus leitores, os de livros e os de jornal.











Luiz de Aquino – poetaluizdeaquino@gmail.com – é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Choque de gerações




Luiz de Aquino




Não bastassem os locutores com problemas de pronúncia, esses que dizem “Petobrás” e “Eletobrás”, nem os mais crassos erros de regência (time que “perde do” e “o clube que eu torço”) e de concordância (“houveram falhas na arbitragem”), agora é a vez da ignorância vocabular. Um radialista, enaltecendo a façanha do Atlético Goianiense ante o Ceará (4x1), disse que perder de 5x1 para o Duque de Caxias “mexeu com o brilho do clube goiano”. Engraçado... Vai ver, esse moço chama tralha de traia, mas corrige brio por brilho. Na mesma emissora, minutos antes, repórter político dizia que “ações em conjuntas devem ser tomadas” (além da sofrível construção com gerúndio, o moço inventou a fórmula “em conjuntas”, híbrido de “em conjunto” com “conjuntas”, certamente).

Como todo mundo, sou sujeito a errar. Mas tento acertar. E costumo agradecer, pois gosto que mostrem meus erros. Consulto pessoas como Leda Selma, Nilson Gomes e (agora, um tanto menos) minha sempre professora Ecléa Campos Ferreira. Mas há algo de inusitado entre os novos profissionais: um descaso sistemático para com o conhecimento. Pergunto-me: o que se ensina, o que se aprende, o que se faz nas universidades além de desfilar as formas plásticas (como Geisy Arruda), de agir ao modo talibã (como os colegas dela na Uniban) e de “fritar” o cérebro com drogas lícitas e ilícitas, como a tevê nos mostra com freqüência?

Felizmente, existe uma expressiva maioria de adolescentes e jovens que não se deixam levar pela propaganda nefasta nem pelos “ensinamentos” das letras de músicas de consumo fácil, as que induzem ao álcool e aos “baratos” de outras práticas. Sem dúvida alguma, o primeiro copo e a primeira tragada são portas para a “boiada”que vem depois. É preferível embriagar-se de poesia e música.

Em meio a isso, tirei duas ou três horas da semana, fui a Anápolis visitar amigos a quem devia uma prosa direta. Guiado por Luciene Silva, estive com Mozart Soares e José Cunha. Conversamos sobre vida e vivências, visitamos as pedras e argamassa com que, décadas atrás, construímos nosso hoje para os risos e a felicidade do reencontro. Mozart contou-me de ter presenteado Cunha com aquele DVD de Toquinho (uma peça inestimável!), e este me homenageou com dois cedês montados por ele próprio: duas antologias, uma sobre a saudade, outra do que ele considera o melhor da música do Século XX. Excelentes seleções que eu, chato, restrinjo apenas no tocante a uns poucos cantores. Questão de preferência pessoal. Mas nenhuma restrição às músicas escolhidas.

Ouvindo essas pérolas do cancioneiro universal (com nítido privilégio para a produção brasileira, que reporto dos mais justos), viajo novamente pela Língua Portuguesa. As boas melodias recheiam-se de boas letras, que muitas vezes nos chegam como poemas perfeitos. Confiro, nos meus amigos, as cãs (para os menos informados, cãs são cabelos brancos, e não o feminino de cão) e as rugas, em meio às boas lembranças. Somos remanescentes de um tempo em que arte era algo que precisava ter qualidade, e não um borderô de bilheteria ou venda. Era o tempo em que o artista cuidava da boa finalização de seu produto, em lugar de correr atrás do saldo bancário.

Curiosamente, associo esse passeio ao livro que leio estes dias, “Leila Diniz”, de Joaquim Ferreira dos Santos. A famosa atriz que revolucionou o comportamento brasileiro nas décadas 1960/70 (faleceu em acidente aéreo em 1972, aos 27 anos), veio de um lar ateu, criado por várias mães, distante da mãe biológica, acometida de doença mental. Aos quinze anos, exercia o ensino em pré-escola, calcando sua prática docente nos ensinamentos de A. S. Neil, o revolucionário pedagogo de Summerhill.

Em plenos “anos de chumbo” do reinado de Médici, na dinastia das estrelas generais, Leila praticava a liberdade até onde lhe era possível. E ela foi muito além do que se imaginava. Escapou da cadeia e do ridículo, mas morreu muito jovem.

Os estudantes da Uniban neste final de ano 2009 agiriam de modo diferente se conhecessem algo daquela moça de ideias e práticas libertárias.










Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

A visita do Pastinha




Luiz de Aquino




Os anos correm, céleres. Renovam a natureza, transformam a paisagem, marcam-nos a pele e os pelos, adormecem lembranças. Mas são os anos passantes que depuram-nos os sentidos e os sentimentos, permitindo-nos a maturidade seletiva a que os contemporâneos mais moços chamam de terceira-idade e eu teimo em repetir velhice.

Gosto de ser velho. Os mais velhos que eu censuram-me, dizem que me antecipo ao tempo. Mas já transpus o “cabo das tormentas” dos sessent’anos, ou seja, o IBGE qualifica-me velho, ainda que eu continue a sonhar como se vivesse uma eterna adolescência.

Um amigo da geração anterior, Isócrates de Oliveira, filósofo e diplomata, nativo de Pirenópolis, dizia, a mim e tantos outros, que “não é necessário envelhecer”. Gostei disso. E acrescento que, de fato, não é necessário envelhecer, ainda que os dias se acumulem em anos que se somam e nos roubam a melanina dos cabelos.

Entendo bem o saudoso Isócrates. De fato, é desnecessário envelhecer-se, porque os sonhos não envelhecem. E viver é sonhar, sempre. Quando moços, sonhamos com o futuro; na casa dos “genários”, sonhamos até mesmo com o que já vivemos. Foi assim que, retornando ao lar quando a tarde ia quase a meio, deparei-me com uma notícia e dois documentos: Mauro Jaime, meu velho amigo Pastinha, esteve aqui. Mary Anne tentou me chamar, mas o celular cumpriu o que se espera dele, ou seja, falhou.

Embeveci-me com os caprichos do irmão das noites. Mauro Jaime, que, feito eu, tem os pés na vetusta Meia-Ponte do Rosário (nossa amada Pirenópolis), sabe tanto quanto eu que boêmios não se fazem nem se tornam: nascem. E ambos nascemos boêmios (amantes da noite que jamais faltam ao trabalho quotidiano, ainda que a jornada de ofício comece nas primeiras horas matutinas). Boêmios são pessoas responsáveis e zelosas, apenas gostam da noite.

Mauro Pastinha deixou-me um mimo valiosíssimo: um cartaz de 1987, dando conta de que Anete Teixeira, que me foi companheira e amada naqueles anos em que nos fazíamos realmente adultos, homenageava Elis Regina no quinto ano do passamento da melhor cantora brasileira de todos os tempos. À minha mulher, ele disse, bem ao seu modo faceiro, que receava causar um constrangimento conjugal, trazendo-me lembrança da ex-companheira. Mary Anne disse-lhe que o passado é vida que não se apaga.

Mauro trouxe-me, ainda, outro presente: um DVD com que me agrada um novo amigo, ainda não visto por mim, mas com quem já permutei notícias e informações, o radialista e jornalista José Cunha. O disco, que vou ver já-já, contém um especial de ninguém menos que Toquinho, instrumentista e compositor da fina flor do nosso cancioneiro.

Eu, que vinha de palestras a estudantes da rede municipal de ensino, feliz por intercambiar com as crianças, sou, nesta quinta-feira (5 de novembro) em que escrevo para o domingo, privilegiado com tantos agrados. Lamentei não ter me encontrado com Mauro, mas já me comprometo com ele: vamos renovar o bate-papo, regando-o com goles gelados de boa cerveja.

Como antes. Como sempre. Como gostamos de conversar.











Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.

sábado, 31 de outubro de 2009

O mico na crítica



 


Luiz de Aquino






Esta semana, passeei meu espírito por um Brasil especial, o Brasil das artes. O Brasil das bandas do interior e das escolas fundamentais e médias, com os tradicionais uniformes e a formação militar (as bandas, por algumas décadas, restringiram-se ao ambiente dos quartéis militares).

Em 1967, um moço mal entrado em sua faixa dos vinte anos, cantou num festival: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou / pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Esses versos, acasalados com a melodia num arranjo de metais e percussão, reconduziu a nação brasileira às bandas que, atualmente, tentam (e conseguem, felizmente) ressuscitar pelo Brasil afora. Mas “A Banda”, quando apareceu, sofreu um comentário infeliz de um dos críticos que, na época, constituíam o júri do programa de Flávio Cavalcante. Mister Eco (era o pseudônimo do crítico musical) condenou a música, arrematando com a frase: “Banda não canta. Banda toca!”.

Como se vê, o crítico não aceitava a metáfora. Mas, apesar dele e de sua frase, o Brasil inteiro virou banda e cantou coisas de amor. Éramos uma imensa banda de quase noventa milhões de músicos naqueles anos finais da década em que tudo mudou. Mas existem críticos e Críticos. E separá-los é uma função “crítica” que, nós, os mortais menores, temos de fazer, tornando-nos “críticos de críticos”.

Vejam o que contou o jornalista, professor de Literatura e cronista exemplar Sinésio Dioliveira:
“Outro dia li em um site as críticas de alguém sobre o filme “O curioso caso de Benjamin Button”, dirigido por David Fincher e que tem o ator Brad Pitt vivendo o papel de Benjamim. Tal filme é baseado num conto escrito em 1922 por F. Scott Fitzgerald. A mutamba do crítico comeu feio na parte do nascimento do protagonista da história: Benjamin, que nasceu velho, já com 80 anos de idade. Para esse alguém, “o nascimento fugiu da verossimilhança” 
(da crônica “Filme e livro possuem belezas distintas”, no DM, quinta-feira, 29 de outubro de 2009).

Curiosamente, tanto Mister Eco (em 1967) quanto esse “alguém” que Sinésio citou são pessoas que vivem disso, de criticar. É sua profissão, ou, ao menos, seu ofício diletante (e geralmente somos menos imperfeitos nos nossos ofícios diletantes do que no desempenho das nossas profissões). Alguns desses críticos são professores em salas de aula, ensinando errado.

Todos somos alvos fáceis da crítica. Basta-nos atuar na expor ideias e opiniões para, de imediato, sermos avaliados. Eu, que sou leitor há sessenta anos, (aprendi a ler aos quatro anos e nunca mais parei), seleciono, dentre o que leio, o que me agrada, o que me ensina e o me dá prazer.

Nunca procurei Cervantes, Camões, Castro Alves, Machado, Lins do Rego, Jorge Amado, Moacir Sclyar, Bernardo Élis, Lya Luft, Adélia Prato, Gilberto Mendonça Teles, Afonso Félix, Brasigóis Felício, Maria Helena Chein, Heleno Godoy, Décio Filho ou seja lá quem for dentre os meus preferidos para dizer-lhes o que escrever. Apenas os leio.

Mas há quem me procure para “me orientar”.

Gente, isso ofende. Dói, até! Em lugar de dizer-me o que escrever, essas pessoas deviam, sim, escrever sobre o que gostam. Estranhamente, são as pessoas que querem ler sobre as flores, o amor de olhares, a doçura da resignação religiosa. Rejeitam em mim o cidadão comum, o homem que cobra dos poderes e das instituições o procedimento que atenda àquilo de que a sociedade carece.

Fico mais para Geraldo Vandré. Eu falo das flores, mas mostro o canhão.












Luiz de Aquino é jornalista e escritor (poetaluizdeaquino@gmail.com), membro da Academia Goiana de Letras.



terça-feira, 27 de outubro de 2009

Luiz Fernando Prôa: Pai!


Eu com o poeta Luiz Fernando Prôa,
em evento no Bar-Teliê, Ipanema.


Luiz de Aquino






O homem falando ao Fantástico chamou-me a atenção pela densidade do discurso. Era um pai em desespero, e meus olhos não acolheram a figura, somente meus ouvidos captavam a dor do homem. O dia seguinte, a segunda-feira, anteontem, 26 de outubro, marcou-se pelos comentários. Em todos os lugares, comentava-se do pai que chamou a policia.

Luiz Fernando Prôa é o pai do Bruno. Bruno, 26 anos, é músico. Há anos, depois de tomar gosto pelo álcool, experimentou outras drogas, entre elas as drogas “pesadas”. Consta que, no último sábado, ele matou, por asfixia, Bárbara Shamon Calazans, de 18 anos, sua amiga (ou namorada).

O fato mexeu profundamente comigo. Agradeço a Deus, todos os dias, por ter conseguido criar a Elia Maria, o Léo e o Fernando distantes das drogas e apegados a princípios morais embasados no respeito ao próximo. E todos os dias peço a Deus que mantenha o Lucas na mesma linha de conduta. Amém! Essas frases, ouço-as todos os dias de muitos amigos. E ouço também outros muitos amigos a pedir forças a Deus para que consigam trazer de volta alguma ovelha desgarrada.

Em todos os tempos, sabemos, houve o choque das gerações. Nós, os nascidos nas décadas de 1940 e 1950, pagamos caro por termos reagido com mais vigor. Realizamos a tal “revolução sexual”, com o inestimável apoio científico-tecnológico dos laboratórios farmacêuticos que nos deram a pílula anticoncepcional. Criamos novos ritmos, novas danças, novos costumes e acreditamos nos princípios revolucionários de Educação de Summerhill, rompemos, ao educar nossos filhos, com os limites tradicionais (e nada tínhamos para pôr no lugar). Agora, nossos filhos sentem que é preciso impor limites...

Bem, não é propósito desta tarde, momento de produzir a crônica de quarta-feira, chorar sobre o passado e as falhas. Todos falhamos: pais, amigos, educadores, executivos, operários, artistas, autores de textos e de músicas, médicos, policiais, membros da Justiça e do Ministério Público... Mas falharam mais ainda os governos, em todos os níveis e em todos os mandatos. O imediatismo das campanhas nos anos pares, a busca feérica pelo voto (e, mais ainda, pelas verbas sem saber de onde vêm) vendaram olhos e taparam ouvidos. Mas isso não é Brasil, gente! É mundo. Ou melhor, é Mundo! Esta geração de reis, de primeiros-ministros, de presidentes, de ditadores e até mesmo de religiosos com poder político é a grande culpada. Culpada por omissão.

E, assim, volto a tentar falar no motivo. Não quero buscar, na vida do Luiz Prôa, o momento do erro. O instante da omissão. O instante a mais de sono que possibilitou a fuga de Bruno. Prefiro recordar a emoção do Luiz ante a notícia da gravidez de seu primogênito, o momento em que se soube o sexo do bebê, as lágrimas do pai ante o choro do recém-nascido. Quanta emoção, meu poet’amigo! Quantos planos, quantos versos, quantos projetos de vida! Sei que muitos foram alcançados (afinal, Bruno é artista), mas num dado momento a luz piscou, fez-se um escuro ágil, quase imperceptível, e a escuridão marcou seu ponto. A gente, então, esquece os sonhos e planos. Arregaça as mangas e vai a luta, tenta trazer de volta o que se nos foge, como um pescador insistente a esticar e recolher a linha. Mas filho, meu Luiz Poeta-irmão, não é peixe... Nem sempre a nossa habilidade é vitoriosa. E, num momento de blecaute outra vez, acontece a tragédia.

Há alguns anos, troco informações e versos com Luiz Fernando Prôa. E um dia, há uns dois anos, tivemos um primeiro encontro, um sarau no Bar do Adão, em Botafogo, Rio de Janeiro. Alguém disse meu nome em voz alta, Prôa ouviu e reconheceu-me ali, ao lado. Anunciou-me para um poema e o poeta Cairo Trindade anunciou-me como “um poeta da Academia Goiana de Letras” (Cairo estava surpreso: não viu em mim o protótipo do poeta-acadêmico, sisudo e parnasiano).

Foi só o começo. Luiz Prôa conduziu-me a vários saraus poéticos pelo Rio afora: Santa Tereza, Teatro Gláucio Gil, o Bar-Teliê em Ipanema e ainda aquelas rodas de poesia em torno da estátua de Carlos Drummond de Andrade. Prôa é, de fato, um poeta e um ativista cultural incansável, sempre com a câmera em punho, fotografando e filmando, declamando e arregimentando o “poetariado” brasileiro para os saraus cariocas.

A dor, meu amigo, não é só sua. É nossa. É dos pais e mães que sofrem. É a dor dos pais e mães que perdem filhos por balas perdidas, por ação de ladrões, por efeito das drogas ou pelos acidentes de trânsito. É a dor dos que, como você, perdeu um filho para mais um subproduto da coca. A dor, meu querido Luiz Fernando, é nossa. É dor de poetas que se irmanam com você.

O triste é sabermos que a nossa dor não reduz a sua.










Luiz de Aquino (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O tempo e o tédio








Luiz de Aquino






A tarde levava o sol céu abaixo, lenta e persistente. O homem vinha de um almoço sem-graça, preguiçoso como a própria tarde. Não sorria, não via razão para isso; mas também não estava triste. Vivia, apenas. Esperando o dia que se arrastava para o próprio fim. O homem esperava a noite.

Existe isso de se esperar alguém, ou um outro tempo. A tarde, pensava o homem, não lhe traria nada. O jeito, pois, era esperar a noite.

– A noite é promissora. Alvissareira. A noite, ainda que solitária, é benfazeja. Já o dia, não. O dia é falso de princípios. Traiçoeiro. O dia é o tempo em que chegam as contas a pagar, os entregadores mal-humorados, os telefonemas de negócios. A noite é o tempo da bonança, tempo das mulheres enfeitadas, das boas músicas, das luzes coloridas. A luz do sol é um tédio – pensava o homem.

E assim, desinteressado das horas quentes da tarde sem-graça, saiu de casa. No carro, não ligou o rádio, driblou o tráfego das ruas e alcançou a rodovia. Fazia isso sempre que achava a vida sem atrativos. Ou os momentos em que a vida não lhe dava alegria. Tomou a pista à direita e, menos de um quilômetro depois, retornou e rumou ao norte.

Lembrou que aquele era um hábito antigo, dentre os vários que cultivava. Mas há tempos não o praticava. Viajar aqueles quarenta e dois quilômetros era o que fazia todas as vezes em que se sentia só. Ou seja, todas as vezes em que brigava com a mulher. Meia hora e lá estava ele, ao pé de Silvana, carinhoso e malemolente, cheio de palavras escolhidas e carinhosas. A moça retribuía as falas e carícias, desmanchava-se em dengos e, satisfeito, o sujeito tomara a estrada de volta.

Viveram seis anos assim. Seis anos e quatro filhos. Filhos que ele nunca registrou, alegava a situação de casado, impedido por lei de registrar filhos ultra-leitos. Silvana acreditava. Para ela, ele era um homem sábio, cheio de receitas e leis. Até um dia, porém. É que, certa vez, enquanto ele viajava com a família em férias, curtindo litoral, uma das filhas (eram dois casais) adoeceu.

Silvana costumava acioná-lo nessas ocasiões, e ele sempre cuidava de tudo. Mandava que levasse a criança ao médico, ele chegaria logo, logo, nada faltaria às crianças. Nada, a não ser a existência oficial do pai. O registro. O nome para constar nas carteiras de identidade.

O jeito foi ir ao posto de saúde pública.

A atendente conhecia a moça e as crianças. Sabia de sua história de vida. Pediu cartão, certidão, qualquer coisa assim. E só então soube que aquelas crianças não eram registradas. Silvana explicou que o pai não podia, etc. A moça da recepção fez uma cara de muxoxo. Em seguida, informou a Silvana que desde há muitos anos essa coisa tinha sido revogada, que qualquer pai podia, sim, registrar seus filhos.

Conversas mais, detalhes surpreendentes, orientações várias e Silvana saiu dali decidida. Buscou a Justiça, conseguiu registrar os quatro filhos e sumiu da vida do sujeito. Agora, vítima do marasmo de uma tarde de novembro de sol, lá vai ele. Sabe onde chegar... Vai ver Silvana. Sabe como conquistá-la, reconquistá-la. Certamente, teriam algumas horas de amor. Desta vez, não descuidará. Tomará cuidados para não engravidar a moça outra vez.

Chegou. Consultou tudo em volta. Viu luzes na casa. Chamou. Ninguém atendeu. Insistiu na campainha. Uma vizinha saiu à porta, reconheceu-o e contou, Silvana viajou pela manhã, a luz estava acesa para disfarçar. A moça e as crianças só voltariam daqui e alguns dias.

O homem foi embora. Um anjo chegou primeiro.











Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Goiânia: argamassa, asfalto e livros



Luiz de Aquino






O poeta Guido Dutra, brasiliense de Anápolis, envia-me um apanhado de fotos da Normandia. Não são fotografias comuns, mas flagrantes colhidos nos dias que se seguiram à ocupação, aquele que passou à História como “O Dia D”. O capricho está nas tomadas atuais, focando os mesmos cenários, nos mesmos ângulos das imagens de maio de 1945.

Senti-me triste. É que, nestes 46 anos de presença em Goiânia, cidade que festeja 76 anos de sua Pedra Fundamental (e há 72 anos tornou-se a sede do governo estadual), vi muitos prédios demolidos sem qualquer respeito ao que, no nosso caso, formaria a História visual da cidade. Pedro Wilson, quando prefeito, reconstruiu os jardins da Avenida Goiás, devolvendo a Goiânia uma de suas mais belas imagens. Na década 1970, o coreto da Praça Cívica foi transformado num monstrengo inexplicável, mas o prefeito Rubens Guerra o restaurou, recobrando a forma original. Penal que os vândalos o depredam várias vezes ao ano, e a Prefeitura tenta preservá-lo.

A França buscou restaurar a Normandia, após a Guerra Mundial, respeitando os prédios bombardeados, devolvendo-lhes as condições de habitação e proporcionando, outra vez, um belo visual. Em Goi... Desculpem! No Brasil, essa vontade fica apenas nos corações dos poetas e arquitetos sensíveis, porque existem os que preferem demolir tudo para construir outra vez, modernizando para enriquecer-se. Dói-me ver que uma propriedade do Exército Brasileiro, a casa onde viveu o marechal Cândido Rondom, no Rio (Rua Mata Machado, em frente ao Maracanã) é, agora, um esqueleto totalmente abandonado, quando devia ser um patrimônio histórico.

Se a memória física (patrimonial) não é preservada, a gente briga e se esforça para manter a história das pessoas. Como me empenhei no sentido de fazer valer a memória do contista José J. Veiga, que, vivendo fora de Goiás desde os seus vinte anos, deixou clara a sua vontade de ser lembrado na própria terra. E coube ao SESC de Goiás acolher e preservar seu acervo, a meu pedido. Antes, porém, amigos da desgraça tentaram destruí-lo. Os livros, móveis e objetos, depositados num cômodo de confortável e significativa casa no centro de Goiânia, foram parar no porão, para serem destruídos pela umidade e as traças. O SESC restaurou tudo.

Livros, livros... Já tivemos valiosas livrarias na cidade.Na Rua 4, o Bazar Municipal, da família Scartezini; na Rua 8, a Figueiró, dos Figueiroa; na Rua 2, e depois na Rua 3, a Livraria Brasil Central, depois a Universitária, a Planalto... Mas o Bazar Oió foi, seguramente, o mais emblemático. Era a livraria de Francisca Hermano e Olavo Tormin.

Lá pelo final de 2007, recebi e-mail de uma jovem, Lúcia Tormin Mollo, de Brasília. Neta do casal Francisca e Olavo, a moça concluía Jornalismo e desenvolveu o seu trabalho de conclusão no resgate da história da livraria, a única no Brasil que a famigerada ditadura dos generais linha-dura fechou no Brasil. Lúcia veio a Goiânia várias vezes, visitou escritores e ex-funcionários, ouviu professores e inúmeros amigos de seus avós. O trabalho ficou muito bonito, estimulei-a a publicá-lo, e o livro já está em ponto de lançamento, editado pela competência de Iuri Godinho, da Contato Comunicação.

Enquanto espero o lançamento, sigo minha rotina de escriba e futriqueiro das coisas de letras. Publiquei mais um livro, trabalho na conclusão de outros dois e tenho mais dois em andamento, enquanto sonho mais e mais. E atendo a quem me procura: escolas, veículos de notícia, colegas escritores, professores, curiosos...

Na terça-feira, 20, deste outubro, ou seja, ontem, a TBC, ou, como prefiro dizer, a TV Brasil Central publicou entrevista minha à bonita e ágil Michelle, repórter competente. Falei de escritores e procedimentos literários de uma Goiânia antiga. Antiga? Coisas de sessenta ou cinquenta anos passados, apenas. Goiânia atravessará alguns séculos para ser chamada de antiga. Entrevistas são ocasiões em que o entrevistado fala muito e acaba dizendo pouco. Por exemplo: citei dezenas de grandes escribas desta cidade, mas a edição não tem como publicar tudo. E, fatalmente, posso ter esquecido alguns nomes importantes – tal como posso, nesta crônica, omitir livrarias de peso na vida da cidade –, mas penitencio-me sem culpa. Outros cobrirão minhas falhas.

Nestes dias de festa, a semana em que o 24 de outubro se insere, presto humilde e individual homenagem à cidade que invadi naquele agosto de 1963, com uniforme do Liceu. Beijo seu cenário e seu passado de valorosos construtores, sejam eles de casas e ruas, de educação e finanças.

Ou ainda de poesia, música, pincel e tinta.Livros!








Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.

sábado, 17 de outubro de 2009

Canto de Véspera




Luiz de Aquino




Era o primeiro ano deste século. Cuidava eu dos afazeres, como um livro de contos, outro de poesia, um curso de especialização (nenhuma necessidade... No dizer da professora Maria do Rosário Cassimiro, passamos a vida tentando fazer um bom currículo e, quando o conseguimos, estamos aposentados; era o caso) e outras ocupações talvez desnecessárias.

Dênia Diniz de Freitas presenteou-me com alguns ótimos livros. Entre eles, “Oráculo de Maio”, de Adélia Prado, poetisa mui amada, alma das Alterosas e das boas letras. Livro belíssimo, como tudo de Adélia. Meu tempo de leitura foi de doce torpor: a alegria do aprendizado na poesia mágica de quem nasceu fada. Motivado, escrevi alguns poemas, pensei publicar um livro chamado “Canto de Véspera”, mas limitei-me àqueles poucos poemas que, enfeixados sob esse título, inseri no volume poético “Sarau”, que publiquei em 2003 para festejar o jubileu de prata da minha estréia em livros: “O Cerco”.

Já falei sobre o ofício de escriba de jornal. Escrevemos de véspera e, ao dizermos “hoje” referimo-nos, realmente, ao amanhã. Então, e quando é o caso da crônica, posso esclarecer que o hoje é verdadeiro, e não a data do jornal. Hoje, por exemplo, é 15 de outubro, Dia do Professor. O jornalista Luiz de Aquino, estimulado pelo poeta Luiz de Aquino, naquele 2001, tentou por mais de três meses, todos os dias, entrevistar a poetisa mineira que Carlos Drummond de Andrade mostrou ao mundo. Debalde: ela poetisa-musa não tinha tempo para os da província.

Este, porém, não é o móvel destas linhas. Conto de livros outra vez, porque são eles a minha principal cachaça. Livro é vício, e vício bom. O incômodo são os ácaros. Vivo cercado de livros. Uso-os todos os dias, ainda que não seja naquela cena de alguém a ler. Consulto-os sempre, para matar curiosidades ou subvencionar um texto, ou ainda para orientar-me. Não me bastasse a familiaridade com eles, há os que arranco de mim e espalho até onde os posso enviar. São dezesseis títulos de própria lavra, edições de terceiros e muitas antologias, em prosa e verso. Duas vezes por semana, escrevo crônicas e avolumam-se os originais em memória de computador e recortes de jornais. Aos poucos, transformo-as também em novos livros.

Acabo de festejar trinta e um anos como autor . Comemorei com mais um livro, no mesmo cenário que me acolheu em outubro de 1978: Pirenópolis. Mal o tive pronto, voltei às pesquisas, organizei um novo livro de poemas, a que me dedico estes dias. Aguardo a revisão de outra obra, com textos sobre a Língua. E já cuido de mais dois livros (crônicas outra vez). No plano dos planos, outros dois: um de cunho histórico, em linguajar jornalístico, e o outro, um documentário. Tudo bem, Luciene! Sou sonhador, sim, mas não sei parar. Se paro, durmo; ou fico triste.

Isto que lhes conto, meus leitores, repete os afazeres de 2001. É o meu “modus vivendi”. Certa vez, quis fazer doutorado, mas fui desmotivado por um professor-doutor que não poderia ser outra coisa senão (s)ociólogo. Sim, Rosário Paranhos: há sociólogos e (s)ociólogos, e o demônio que me atendeu na Universidade era desta categoria. Saí de lá aliviado: doutorado para quê? Não preciso mais de currículo, professora Cassimiro!

Mas continuo fazendo textos, em prosa e poemas, sempre cercado de livros vários, e variados. E justo neste hoje, Dia do Professor, no país que dá aos mestres piso salarial de um terço do que se paga ao soldado de polícia, trabalho sobre estes livros e faço pausa para esta crônica domingueira.

É o meu Canto de Véspera...










Eu, velho professor, entre professoras do Liceu.
Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Livros dos outros


 


Luiz de Aquino





Meus amigos, ando de boca torta de tanto falar em livro. Sim, em livro, e não em livros. Ando falando muito no meu mais novo, de crônicas ao redor e no meio de Pirenópolis, minha amada Meia-Ponte (juro que preferiria chamá-la sempre assim, ao modo antigo). Mas resolvi, hoje, engavetar meu umbigo e olhar em torno e para o alto. E é olhando para o alto que me coloco, sempre, no meu lugar: mais embaixo. Ou no “baixo clero”, como me defini, há alguns anos, com relação aos notáveis da Academia Goiana de Letras.

“Baixo clero” é como a imprensa, e os próprios, referem-se aos deputados de menor destaque no Congresso Nacional. Parece-me que o termo não se aplica a senadores, talvez por serem em muito menor número. Na AGL, com apenas quarenta membros, não seria o caso, mormente por se entender que, ao chegar ao sodalício (palavra de pouco uso nas ruas e na mídia, mas muito comum entre academias de letras), o escriba já tem, ao menos em seu meio de ofício, alguma notoriedade por conta de seus méritos literários.

Na prática sabemos que a retórica não equivale ao que o público e a crítica conceituam. E aí há um caso raríssimo de coincidência, críticos e populacho se entendendo. Há poucos anos, o público leitor brasileiro estranhou a eleição de um escritor que, no discreto rigor do consumidor de letras, não reúne qualidades. Antes, esse mesmo público rejeitara a eleição de um empresário jornalista, de um cirurgião famoso e, antes ainda, de alguns políticos de altíssimo coturno (literalmente, para um deles), desde a década de 1930. Mas, fazer o quê? Academias são clubes fechados, com pouquíssimos eleitores. Estes é que escolhem quem quer para chamar de “pares”. Raramente são ímpares...


Láureas à parte, tenho aqui, nas mãos e ante os olhos, alguns livros deliciosamente belos. Não me refiro ao esmero editorial, que acho muito importante também, mas ao sabor, ou seja, ao conteúdo de seus textos. Sim: conteúdo de textos. Porque um livro contém textos, mas textos podem ou não conter qualidade. Estes os têm, sim. Refiro-me a “Minha Perna e Maria”, de Ivair Lima, misto de psicólogo e repórter, meu amigo dileto. Não digo que ele é bom por ser meu amigo, mas podem apostar que por ser bom é que ele é meu amigo. Gosto, sim, de pessoas com qualidades. Qualidades artísticas, mas principalmente qualidades morais (e não me refiro a duvidosas qualidades morais, como as de falsos religiosos; refiro-me a um cidadão de bem e a um escritor primoroso na condução dos fatos imaginários, na construção de personagens marcantes e na feitura de versos contagiantes).


Tenho também estes do arquiteto, professor etc. e tal Elder Rocha Lima: “Apologia das mãos” explora um tema por demais tratado em teatro, poesia, conto, romance e manuais de medicina, mas o poeta do imagético arquitetônico brinda-nos até mesmo com a bênção: “A imposição de mãos é um gesto que praticamos sobre outra pessoa para aliviá-la de algum sofrimento físico...”, e se essa abordagem incomoda a alguns fundamentalistas do cristianismo, pois o autor registra que o ato tem origem na Índia e no Tibete, ele destaca a Bíblia Sagrada, com registros dos evangelistas sobre o modo de Cristo abençoar. Outro livro dele na minha cabeceira é “Utopia - o discurso e a prática”. E, por último, o que mais me chama a atenção para a leitura imediata: “Guia Afetivo da Cidade de Goiás”. Este, além do conteúdo de texto em que o título, por si, recomenda a obra, há ilustrações de bico-de-pena pelo autor, talentoso e competente artista plástico. Uma obra de referência, sem dúvida, e um livro que enriquece qualquer estante e consciência.


Por fim, o “Fuso de prata”, de Alcione Guimarães. É um livro indispensável para os amantes do conto. Do bom conto, aliás. Há contistas de todos os matizes neste país continental. Em cada Estado, os escritores constituem-se num pequeno universo que traduz a alma telúrica, o ambiente social, o “habitat” dos nativos cuja cultura se mescla de boa comida, figurino adequado e letras e artes possíveis. Alcione destaca-se, nas últimas décadas, como das mais expressivas e talentosas artistas dos pincéis e cores. Há poucos anos, surpreendeu-nos com “Zuarte”, um livro de poemas que me convenceu de que um artista tem, sim, duas linguagens (ou mais!). Os poemas e os trabalhos de pintura, no mesmo número, significavam a expressão da autora em duas linguagens. Todos aprendemos muito com ela, naquele livro. E “Fuso de Prata”... Bem, é um belo livro, eivado de passagens poéticas, como nessa pequenina definição do encontro inevitável e forte: “Seus olhos e os meus... nossos olhos... falam. Perdidos em uma lembrança imperceptível como se se conhecessem e se esperassem há longos anos”.


Diante desses livros, lendo-os, parando para deliciar-me de cada frase, fica em mim a eterna pergunta: porque os leitores de Goiás, quando perguntados sobre o que estão lendo, respondem sempre com obras traduzidas e, lá de vez em quando, produzidas nas regiões nacionais de maior expressão econômica?

Os goianos precisam ler mais goianos. E deixar de lado a vergonha besta de admitir que é possível gostar do que fazemos.







Luiz de Aquino é escritor e jornalista (poetaluizdeaquino@gmail.com), membro da Academia Goiana de Letras.