quinta-feira, 4 de junho de 2009

Jack Kerouac e o Haicai Americano

por Chris Herrmann


Jack Kerouac (12.03.1922 - 21.10.1969) foi um romancista americano, escritor, poeta e artista de Lowell, Massachusetts. Juntamente com William S. Burroughs e Allen Ginsberg, ele está entre os mais conhecidos escritores (e amigos) da chamada "Geração Beat".


O trabalho de Kerouac foi muito popular em sua época, mas também causou polêmica. Recebeu poucos elogios da "crítica especializada" durante a vida. O grande reconhecimento veio após a sua morte. Hoje, ele é considerado um importante e influente escritor que inspirou vários outros, incluindo Tom Robbins, Lester Bangs, Richard Brautigan, Johnny Knoxville, Ken Kesey, e escritores do Novo Jornalismo. Kerouac também influenciou músicos como The Beatles, Ben Gibbard, Bob Dylan, Tom Waits, Simon & Garfunkel, Ulf Lundell e Jim Morrison. Os livros mais conhecidos de Kerouac são "On the Road" (consagrado mais tarde como a "bíblia hippie"), "The Darma Bums", Big Sur" e "Visions of Cody".






"O haicai americano não é exatamente como o haicai japonês. O haicai japonês é rigorosamente disciplinado em dezessete sílabas. Porém, uma vez que a estrutura da línguagem é diferente, não creio que os haicais americanos devam preocupar-se com sílabas porque o discurso americano está em constante renovação... expandindo-se no inguajar popular.


Acima de tudo, um Haicai deve ser muito simples e livre de maiores estratagemas poéticos, formar uma imagem e ainda ser arejado e gracioso como uma Pastorella de Vivaldi". (tradução de Chris Herrmann)


Jack Kerouac - 1922-1969

quarta-feira, 3 de junho de 2009

Já que desejas partir...

Já que desejas partir...


Há quanto tempo vivemos aqui, só nós dois e nosso amor, cercados por essas montanhas e pelas rosas que cultivas.

Agora desejas partir, ir para longe de mim, palmilhar outros caminhos, buscar novos horizontes. E eu, que te amo tanto, exatamente por isso não posso impedir-te de partir. Vai, meu amor! E procura ser feliz!

Espero que encontres quem faça bater ainda mais forte teu coração, e que te dê um amor, se isso for possível, ainda maior que o meu.

E depois que partires, e eu sentir saudade da tua voz, ouvirei o murmurar do riacho e será como se ouvisse teu cantar. À noite, quando sentir saudade do teu olhar, verei aquela grande estrela, ali, no Ocidente, e fingirei que vejo no seu brilho a luz que se irradia dos teus olhos.

Quando o vento tocar minha face, fecharei os olhos e imaginarei que são tuas mãos me acariciando do jeito terno que fazes.

Quando sentir falta de tua pele macia, acariciarei as pétalas de tuas rosas, e será como se acariciasse teu corpo aveludado.

Cuidarei de tuas flores, nelas depositarei o amor que te dedico. E ao sentir das rosas o doce aroma, será como se sentisse o teu perfume.

E quando longe de mim estiveres, se desejares voltar pra nossa casa, estarei aqui te esperando com meu amor infinito.

Vai querida! Sê feliz!!!

A VERDADE

O que a verdade significa realmente?

Salvo melhor interpretação, nada mais é que a existência da realidade. Cunha pela exatidão, adicionada com a presença da sinceridade, representada fielmente de algo existente na natureza.

Resume exatamente na presença da autenticidade genuína, onde a sinceridade recai nas qualidades essenciais, expostas pela natureza. É o oposto da falsidade, fraude, calúnia, hipocrisia, engano e traição.

O desconhecimento da originalidade de seus fundamentos de causa, leva por vezes, através da falta de instrução, ao princípio da perda de essência da verdade.

Muitos fatos sociais de direito, até hoje são deveras conflitantes em razão desta situação, podendo mencionar entre outros, o inventário e o condomínio, fato atribuído ao poder de deixar decidir pelo que pensa, sem o verdadeiro teor de causa e efeito.

Claro está que o mais correto para atingir o estágio proposto, seria do ensinamento aliado à educação.

A hipótese mais viável, é que houvesse no período da puberdade, uma instrução básica apresentada por uma terminologia simples, desprovida de palavras técnicas, com vistas ao direito, dever, moral e ética. Salvo melhor interpretação, proporcionaria através do processo de aplicação a médio e longo prazo, radicalização, irrefutável ao ideal, com relação aos atritos e derivados maléficos.

A verdade assim colocada, deixaria de ter conseqüências, tais como a de machucar exclusivamente aos que se julgam donos da verdade, sem contudo, ter a devida noção do verdadeiro propósito de sua eficácia e existência.

Assim exposto, que se dê oportunidade a princípio, implantando deste processo na estrutura social nos currículos escolares, uma vez que, visto de um ângulo ético e moral, virá com certeza, propiciar um avanço social, cultural e educacional de alto teor para o equilíbrio da permanente procura da elevação dentro do estado social que o ser humano convive.

A verdade necessita desta implantação.

AGOSTINHO RODRIGUES
Escritor e Poeta

(Contribuição enviada por email)

terça-feira, 2 de junho de 2009

Tempo de ressignificar

Papéis, telefonemas, recados, rotinas cristalizadas, dias nascendo, morrendo, inquietações, murmúrios, crenças, dúvidas, constantemente nos desafiam. Somos submetidos a uma carga tal de exigências que precisamos aprender a conviver com elas pacificamente, dicionarizá-las, rompê-las, transformá-las em combustão, dínamo para poetizar a vida. Nesses momentos precisamos desacelerar, aquietar as batidas do coração, silenciar temores, deitar os fardos. Recomenda-se o diálogo consigo mesmo, sem ruídos que alterem a estrutura do sinal; a entrega à harmonia, à afinação. Como os afinadores de violino, usando o diapasão, ouvidos sensíveis. Ser lapidária de si mesma.
Tão bom amanhecer algodoada, liberta bebendo o dia, pousando nossas pétalas em planetas sonhados. Dia de ficar bestando por ai solta, uma pipa dona da linha sem pressa de nada. De delícia em delícia. Aspirando todos os aromas, com riso gauche, com asas imensas. Dia de ver anjos, de falar amenidades, de ignorar teoremas, de ser polida pelo amor, de segurar a fé que às vezes nos escapa, dia de desintoxicação, de deslumbramento, de abrir o peito em abraços, de descobertas, sabores, de alcançar mudança de borboleta.

ACIMA DE QUALQUER SUSPEITA


Zilda acordara bem cedo na manhã daquela quinta-feira. Estava um dia nublado, um leve frio. Perfeito para permanecer debaixo das cobertas. Desligou o despertador e olhou para o relógio de pulso colocado sobre o criado, ao lado da cama. Sorriu. Aquela era uma relíquia de família, sua avó repassara-o para sua mãe e agora era de Zilda. Quantas boas lembranças um objeto tão simples pode nos trazer, pensava ela, ainda admirando o relógio. Cinco minutos se passaram. Zilda espreguiçou novamente. Hora de levantar. Lavou o rosto, pegou o relógio e foi para a cozinha tomar café. Como de costume, preparou pão, queijo, presunto e ovo frito, acompanhados de suco de laranja sem açúcar.

– Bom dia, minha filha.
– Bom dia, mãe – cumprimentou satisfeita.

Zilda tinha agora cinqüenta e três anos. Estava quase se aposentando, mas gostava de trabalhar. Levantar todas as manhãs e pegar o ônibus até o prédio do Ministério Público lhe dava uma confortável sensação de utilidade. Fazia a diferença, ela sabia.
Terminado o café foi se trocar. Chegaria mais cedo hoje. Talvez caminhasse um pouco pela praça em frente ao escritório, aproveitando o ar fresco da manhã antes de entrar para o trabalho.
Ainda eram sete e vinte quando a porta se fechou e Zilda ganhou a calçada rumo ao ônibus, distante apenas dois quarteirões de sua casa. Desceu as escadas, caminhou, atravessou a roleta, esperou por um instante até que seu trem chegasse. Entrou. Sentou-se em um dos vários lugares vazios à janela. Ainda se lembrava da gostosa sensação que a visão do relógio lhe causara ao acordar. Sentia-o firme em seu braço e isso, de alguma forma, dava-lhe conforto, segurança.
O ônibus parou, ainda não era a sua estação. Várias pessoas entraram. Um homem veio e se assentou bem ao seu lado. Zilda permaneceu observando a janela. Estava deslumbrada com seus próprios sentimentos. Por reflexo olhou para o braço do relógio. Onde estava o relógio? Sua cabeça girou. Não podia, não havia como desaparecer. Estava ali há um minuto. Zilda levantou os olhos e deu de cara com o homem que se sentara ao seu lado. Ele sorriu satisfeito e virou o rosto para frente. Zilda, ainda sem entender, olhou para o braço do homem. Lá estava... O relógio, no braço do homem, de um desconhecido. Como podia? Como ele fez aquilo?
Furiosa, Zilda tinha de agir rápido ou o perderia para sempre. Em poucos segundos o ônibus alcançaria uma nova estação e o homem desapareceria com seu relógio no pulso, como se fosse dele, como se nada houvesse acontecido. Ela olhou para a bolsa, olhou novamente para o homem. Calmamente, sorriu. Ele sorriu de volta. Zilda Abriu a bolsa e encaixou a mão em seu interior. Com a mão lá dentro, rígida, fazendo como que uma ponta, encostou a bolsa nas constelas do homem e disse num sussurro:

– Passa o relógio ou eu lhe dou um tiro.
– O homem se virou assustado. Seu rosto empalidecera de imediato. Nos olhos via-se o pavor crescendo.
Zilda cutucou com a ponta da “arma” as costelas do homem. Ele precisava de um incentivo, pensava ela.
– Passe logo! – Sussurrou um pouco mais alto.
Ele iria aprender. Não podia simplesmente sentar-se ali e levar um relógio, aquele relógio, impunemente.
O homem arrancou o relógio do pulso e entregou em silêncio para Zilda. Seu constrangimento era notório. O golpe não havia funcionado daquela vez. A velhinha indefesa estava armada.
Mal o ônibus parou na estação o homem se atirou para fora. Zilda ainda pôde ver seus olhos azuis assustados enquanto o ônibus se afastava. Ela sorriu. Acenou para o homem. Aquele ladrão, na certa, pensaria duas vezes antes de aplicar seu golpe novamente, pensava Zilda, feliz por ter tido tanta coragem.
De noite, ainda eufórica, após contar para todos no departamento seu feito incrível. Após ser aplaudida pelas amigas, chegou em casa ansiosa para contar à mãe. Dona Cléia olhava com olhos arregalados a filha eufórica, só conseguindo forças para falar depois de quase cinco minutos de narrativa entusiástica:

– Então, foi isso, mãe. Aquele bandido vai pensar duas vezes antes de furtar o relógio de mais alguém – concluiu Zilda, sentando-se a mesa com uma torrada na mão, cansada de narrar o ocorrido.
– Mas... Minha filha – falou a mãe, com olhos estatelados, – você esqueceu o relógio em cima da geladeira.
Zilda olhou para cima. Lá estava ele. E, em seu braço, havia outro, o relógio roubado.

Felicidade

FELICIDADE
Geisa Gonzaga

Eram seis horas da manhã quando acordei hoje. Levantei-me e fui para a varanda de minha casa, respirar um pouco de ar puro. Olhei para as bandas do Oriente, onde as nuvens, tingindo-se de púrpura, anunciavam o despertar do Sol no seu ciclo eterno e vi que aqui e acolá, no escuro do firmamento, algumas estrelas ainda rutilavam e do lado do Ocidente a Lua Nova já se despedia.

O silêncio que reinava à volta era tão-somente quebrado pelo trinar alegre dos pássaros que, com algazarra, saiam dos seus ninhos em busca de alimento para si e seus filhotes. Borboletas multicores esvoaçavam felizes, se confundindo com as flores também coloridas.

Percebi que as roseiras do jardim tinham seus galhos vergados pelo peso das perfumadas rosas que sustentavam e que as gotículas de orvalho que as cobriam mais pareciam pequenos diamantes que à noite foram ali depositados pelas misteriosas mãos de fadas e duendes. A suave brisa que soprava espargia no ar o perfume dos cravos e angélicas.

Caminhei descalça pelo gramado, úmido pelo sereno da madrugada e, apesar da maravilha que contemplava - renovado milagre da Mãe-Natureza - devagar, algumas lágrimas brotaram dos meus olhos e uma tristeza infinita tomou conta de minha alma.

Elevei meu pensamento ao Criador, indagando: “- Senhor, por que choro? O que a mim me falta? Não tenho tudo que preciso para considerar-me feliz? Não me basta este espetáculo maravilhoso, obra de Suas Divinas Mãos, que se descortina a minha frente?”

Pareceu-me ouvir a resposta: “- Minha filha, a que chamas felicidade? Não será somente no Sol que te aquece, nem no canto dos pássaros, ou na beleza e no perfume das flores, que a encontrarás. Olha para dentro de ti, procura bem, e poderás descobrir que ela está bem aí, guardada no sacrário do teu íntimo”.

Meditei então: Felicidade, sentimento efêmero! Surge de repente e, no momento seguinte já foi embora.

segunda-feira, 1 de junho de 2009

Manhã em Guarapari

É manhã, o sol está alto, o mar numa cor esverdeada esbanja alegria. Apesar disso, uma onda mal-humorada me nocauteou. Quem sabe para me despertar... A natureza faz dessas coisas. Um mar de sonhos, um mar de problemas, um mar bem na minha frente. E tanta gente, tantas vozes, tanto silêncio. Um paradoxo. As lembranças sorriem, bailarinas, sobre o mar. O tempo que eu bebi o mar com minha irmã Cristina.
A vida é feita dessas circunstâncias, como já disse Machado de Assis: “ dos momentos idos e vividos”. Bem vividos.Todavia, há um intervalo entre as alegrias, são marolas inquietas, um tempo para repensar tudo e se reconstruir. Um marasmo sadio, um tempo para se encaramujar, depois sair do casulo e renascer. Você está encavernado? Não se preocupe! Carregamos, todos, os sulcos profundos de muitas lutas, é natural. É crescimento, é semente que se lança ao solo. Amanhã você troca o espírito angustiado por vestes de louvor, sai do vale e sorri sereno.
Há um propósito em tudo, cabe a nós a sabedoria e a serenidade para divisar o que está sendo ensinado. Quando adquirimos essa consciência aprendemos que nossa alegria deve transcender a circunstância. É assim que um ser humano envelhece sem se amargurar. Molho meus pés nas ondas, a água fria, a espuma branca me trazem de volta o sorriso e a doçura. Vale a pena viver.
(Luciana Pessanha Pires)