sábado, 17 de outubro de 2009

Canto de Véspera




Luiz de Aquino




Era o primeiro ano deste século. Cuidava eu dos afazeres, como um livro de contos, outro de poesia, um curso de especialização (nenhuma necessidade... No dizer da professora Maria do Rosário Cassimiro, passamos a vida tentando fazer um bom currículo e, quando o conseguimos, estamos aposentados; era o caso) e outras ocupações talvez desnecessárias.

Dênia Diniz de Freitas presenteou-me com alguns ótimos livros. Entre eles, “Oráculo de Maio”, de Adélia Prado, poetisa mui amada, alma das Alterosas e das boas letras. Livro belíssimo, como tudo de Adélia. Meu tempo de leitura foi de doce torpor: a alegria do aprendizado na poesia mágica de quem nasceu fada. Motivado, escrevi alguns poemas, pensei publicar um livro chamado “Canto de Véspera”, mas limitei-me àqueles poucos poemas que, enfeixados sob esse título, inseri no volume poético “Sarau”, que publiquei em 2003 para festejar o jubileu de prata da minha estréia em livros: “O Cerco”.

Já falei sobre o ofício de escriba de jornal. Escrevemos de véspera e, ao dizermos “hoje” referimo-nos, realmente, ao amanhã. Então, e quando é o caso da crônica, posso esclarecer que o hoje é verdadeiro, e não a data do jornal. Hoje, por exemplo, é 15 de outubro, Dia do Professor. O jornalista Luiz de Aquino, estimulado pelo poeta Luiz de Aquino, naquele 2001, tentou por mais de três meses, todos os dias, entrevistar a poetisa mineira que Carlos Drummond de Andrade mostrou ao mundo. Debalde: ela poetisa-musa não tinha tempo para os da província.

Este, porém, não é o móvel destas linhas. Conto de livros outra vez, porque são eles a minha principal cachaça. Livro é vício, e vício bom. O incômodo são os ácaros. Vivo cercado de livros. Uso-os todos os dias, ainda que não seja naquela cena de alguém a ler. Consulto-os sempre, para matar curiosidades ou subvencionar um texto, ou ainda para orientar-me. Não me bastasse a familiaridade com eles, há os que arranco de mim e espalho até onde os posso enviar. São dezesseis títulos de própria lavra, edições de terceiros e muitas antologias, em prosa e verso. Duas vezes por semana, escrevo crônicas e avolumam-se os originais em memória de computador e recortes de jornais. Aos poucos, transformo-as também em novos livros.

Acabo de festejar trinta e um anos como autor . Comemorei com mais um livro, no mesmo cenário que me acolheu em outubro de 1978: Pirenópolis. Mal o tive pronto, voltei às pesquisas, organizei um novo livro de poemas, a que me dedico estes dias. Aguardo a revisão de outra obra, com textos sobre a Língua. E já cuido de mais dois livros (crônicas outra vez). No plano dos planos, outros dois: um de cunho histórico, em linguajar jornalístico, e o outro, um documentário. Tudo bem, Luciene! Sou sonhador, sim, mas não sei parar. Se paro, durmo; ou fico triste.

Isto que lhes conto, meus leitores, repete os afazeres de 2001. É o meu “modus vivendi”. Certa vez, quis fazer doutorado, mas fui desmotivado por um professor-doutor que não poderia ser outra coisa senão (s)ociólogo. Sim, Rosário Paranhos: há sociólogos e (s)ociólogos, e o demônio que me atendeu na Universidade era desta categoria. Saí de lá aliviado: doutorado para quê? Não preciso mais de currículo, professora Cassimiro!

Mas continuo fazendo textos, em prosa e poemas, sempre cercado de livros vários, e variados. E justo neste hoje, Dia do Professor, no país que dá aos mestres piso salarial de um terço do que se paga ao soldado de polícia, trabalho sobre estes livros e faço pausa para esta crônica domingueira.

É o meu Canto de Véspera...










Eu, velho professor, entre professoras do Liceu.
Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Livros dos outros


 


Luiz de Aquino





Meus amigos, ando de boca torta de tanto falar em livro. Sim, em livro, e não em livros. Ando falando muito no meu mais novo, de crônicas ao redor e no meio de Pirenópolis, minha amada Meia-Ponte (juro que preferiria chamá-la sempre assim, ao modo antigo). Mas resolvi, hoje, engavetar meu umbigo e olhar em torno e para o alto. E é olhando para o alto que me coloco, sempre, no meu lugar: mais embaixo. Ou no “baixo clero”, como me defini, há alguns anos, com relação aos notáveis da Academia Goiana de Letras.

“Baixo clero” é como a imprensa, e os próprios, referem-se aos deputados de menor destaque no Congresso Nacional. Parece-me que o termo não se aplica a senadores, talvez por serem em muito menor número. Na AGL, com apenas quarenta membros, não seria o caso, mormente por se entender que, ao chegar ao sodalício (palavra de pouco uso nas ruas e na mídia, mas muito comum entre academias de letras), o escriba já tem, ao menos em seu meio de ofício, alguma notoriedade por conta de seus méritos literários.

Na prática sabemos que a retórica não equivale ao que o público e a crítica conceituam. E aí há um caso raríssimo de coincidência, críticos e populacho se entendendo. Há poucos anos, o público leitor brasileiro estranhou a eleição de um escritor que, no discreto rigor do consumidor de letras, não reúne qualidades. Antes, esse mesmo público rejeitara a eleição de um empresário jornalista, de um cirurgião famoso e, antes ainda, de alguns políticos de altíssimo coturno (literalmente, para um deles), desde a década de 1930. Mas, fazer o quê? Academias são clubes fechados, com pouquíssimos eleitores. Estes é que escolhem quem quer para chamar de “pares”. Raramente são ímpares...


Láureas à parte, tenho aqui, nas mãos e ante os olhos, alguns livros deliciosamente belos. Não me refiro ao esmero editorial, que acho muito importante também, mas ao sabor, ou seja, ao conteúdo de seus textos. Sim: conteúdo de textos. Porque um livro contém textos, mas textos podem ou não conter qualidade. Estes os têm, sim. Refiro-me a “Minha Perna e Maria”, de Ivair Lima, misto de psicólogo e repórter, meu amigo dileto. Não digo que ele é bom por ser meu amigo, mas podem apostar que por ser bom é que ele é meu amigo. Gosto, sim, de pessoas com qualidades. Qualidades artísticas, mas principalmente qualidades morais (e não me refiro a duvidosas qualidades morais, como as de falsos religiosos; refiro-me a um cidadão de bem e a um escritor primoroso na condução dos fatos imaginários, na construção de personagens marcantes e na feitura de versos contagiantes).


Tenho também estes do arquiteto, professor etc. e tal Elder Rocha Lima: “Apologia das mãos” explora um tema por demais tratado em teatro, poesia, conto, romance e manuais de medicina, mas o poeta do imagético arquitetônico brinda-nos até mesmo com a bênção: “A imposição de mãos é um gesto que praticamos sobre outra pessoa para aliviá-la de algum sofrimento físico...”, e se essa abordagem incomoda a alguns fundamentalistas do cristianismo, pois o autor registra que o ato tem origem na Índia e no Tibete, ele destaca a Bíblia Sagrada, com registros dos evangelistas sobre o modo de Cristo abençoar. Outro livro dele na minha cabeceira é “Utopia - o discurso e a prática”. E, por último, o que mais me chama a atenção para a leitura imediata: “Guia Afetivo da Cidade de Goiás”. Este, além do conteúdo de texto em que o título, por si, recomenda a obra, há ilustrações de bico-de-pena pelo autor, talentoso e competente artista plástico. Uma obra de referência, sem dúvida, e um livro que enriquece qualquer estante e consciência.


Por fim, o “Fuso de prata”, de Alcione Guimarães. É um livro indispensável para os amantes do conto. Do bom conto, aliás. Há contistas de todos os matizes neste país continental. Em cada Estado, os escritores constituem-se num pequeno universo que traduz a alma telúrica, o ambiente social, o “habitat” dos nativos cuja cultura se mescla de boa comida, figurino adequado e letras e artes possíveis. Alcione destaca-se, nas últimas décadas, como das mais expressivas e talentosas artistas dos pincéis e cores. Há poucos anos, surpreendeu-nos com “Zuarte”, um livro de poemas que me convenceu de que um artista tem, sim, duas linguagens (ou mais!). Os poemas e os trabalhos de pintura, no mesmo número, significavam a expressão da autora em duas linguagens. Todos aprendemos muito com ela, naquele livro. E “Fuso de Prata”... Bem, é um belo livro, eivado de passagens poéticas, como nessa pequenina definição do encontro inevitável e forte: “Seus olhos e os meus... nossos olhos... falam. Perdidos em uma lembrança imperceptível como se se conhecessem e se esperassem há longos anos”.


Diante desses livros, lendo-os, parando para deliciar-me de cada frase, fica em mim a eterna pergunta: porque os leitores de Goiás, quando perguntados sobre o que estão lendo, respondem sempre com obras traduzidas e, lá de vez em quando, produzidas nas regiões nacionais de maior expressão econômica?

Os goianos precisam ler mais goianos. E deixar de lado a vergonha besta de admitir que é possível gostar do que fazemos.







Luiz de Aquino é escritor e jornalista (poetaluizdeaquino@gmail.com), membro da Academia Goiana de Letras.







Inteligência ou silicone



Luiz de Aquino





O noticiário, em vários veículos eletrônicos e impressos da mídia brasileira, dão-nos conta de que o Brasil, hoje, é o segundo país do mundo em cirurgias plásticas, perdendo apenas, e obviamente, para os Estados Unidos. Existem páginas na Internet que difundem com otimismo a prática e buscam estimular as pessoas a aumentarem seios e bundas, modificar narizes e pálpebras e outros procedimentos no gênero.

E dá certo! Já são mais de setecentas mil cirurgias ao ano. Silicone se vende em dez suaves prestações no cartão de crédito e o sonho de uma cara ou pernas bonitas justificam o sacrifício na conta do supermercado. Ou a eliminação de itens “dispensáveis”, como os custos com a educação.

Pois é! Nada de escola, porque livros custam caro. Nada de leitura, porque jornais e revistas custam caro. Nada de aprender, porque aprender é chato. Então, vamos fazer um consórcio, ou uma conta de poupança, vender o carro 2003 e comprar um 1997 e pagar a cirurgia. Riscos cirúrgicos? Ah, que bobagem! O doutor Caron foi cassado, condenado etc. e os outros não são como ele.

Nariz adunco é do pai ou da mãe; o “meu”, este ficará fino, arrebitado... Pena que não se faz isso diretamente no DNA. Olhos? A gente muda a cor com lente de contato. Peitos caídos ou pequenos? Silicone neles. Bunda murcha? Silicone de novo. Pernas finas? Silicone. Sulcos na face? Botox. Feito isso, a madame (ou o garanhão, porque tem muito macho cuidando de se transformar também, com cirurgia plástica e depilação a lêiser) se sente estrela! Mas sequer pode sorrir. E, se sorri, fica apenas o som, a expressão facial é a mesma com que a tal (ou o tal) saiu da cirurgia. Na tevê existem muitas (os) a confirmar o que digo.

Enquanto isso, a qualidade da pessoa continua a mesma. O miolo, o conteúdo, o conjunto de informações e processamento é o mesmo de antes, dos tempos do peito caído, do nariz enorme, das pernas finas e da bunda minguada.

Não é radicalismo, gente! Sei que há casos em que é indispensável a cirurgia que transforma o visual, mas o modismo e a elevadíssima incidência é o que me preocupa. Se as pessoas pensassem, cuidariam do próprio interior. É muito melhor estudar, aprender, atualizar-se, envolver-se com novas e velhas gerações, enfim, aprender. O enriquecimento interior possibilita o embelezamento externo. E, melhor, sem perda das referências genéticas. Um feio vai continuar feio após a cirurgia, e somente o sujeito se vê mais bonito (ele/ela e os puxa-sacos que elogiam o novo visual apenas para agradar o amigo ou parente que gastou tanto por nada). Todos estamos familiarizados com o belo e o feio, e acabamos juntando muitas informações sobre as pessoas para qualificá-las de feios ou bonitos. Uma pessoa que bem sabe usar a própria inteligência, essa parecerá sempre bela, sem dúvida.

Mas, infelizmente, acha-se, hoje, muito mais importante que se pareça bonito do que efetivamente mostrar-se belo. As pessoas que dão prioridade às mudanças apenas aparentes sempre serão feios e feias. E, infelizes com a própria existência, depois escolherão migrar-se para outras terras e, já que nada deu certo, praticar seu esporte favorito: falar mal do Brasil.












Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.
E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.




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sábado, 10 de outubro de 2009

De pessoas e guarda-chuvas



Camilo Mota*


Na década de 1950, Rubem Braga se admirava da imutabilidade do guarda-chuva através dos tempos. O objeto simples, funcional, negro, continua firme em sua trajetória século vinte e um adentro. Acho que foi essa frente fria, essa chuva ora miúda ora grave a dizer lá fora que a vida é tão vasta e dinâmica, que me fez notar essa nostalgia das coisas que não mudam. A chuva, a bem dizer, deixa as pessoas monótonas e caseiras. Até minha cadela passa o dia suspirando, não agüentando ver mais tanta água que desce do céu. A música da chuva também não mudou. Varia de tom, mas permanece fiel a seu escudeiro, nosso protetor que até em dias de vento forte ainda nos livra pelo menos a cabeça de se molhar...


“Tira essa roupa molhada, menino. Vai resfriar”. Dizia a mãe com uma sabedoria que não sei se existe mais. Certeiro era tomar em seguida um banho quente. Agasalhar-se e quem sabe tomar uma sopinha de fubá com alho, um chazinho... O guarda-chuva fica lá fora, como a vigiar as águas. Só entra em casa depois, seco, quando não mais precisamos dele, e em sua vida de sombras se esconde de nós até o próximo temporal ou garoa. Deve ser por isso que ele não muda. Está livre de nossos desafios tecnológicos que não nos permitem fixar os olhos no instante congelado de uma flor desabrochando à beira do caminho cercado de asfalto, automóveis e gente, muita gente, dependendo de onde se ande, de onde se more. Aparelhos celulares, computadores, automóveis... chips cada vez mais minúsculos... cartões de memória, telas de LCD... Cada coisa que vem e que passa e que num instante nem existe mais. Mas a chuva, a flor, o guarda-chuva, esses permanecem firmes a nos lembrar que habitamos a terra que tudo nos dá e que tudo nos tira.


A nostalgia sempre vem nos tirar do sério e dizer que o tempo passa, mas que algumas coisas permanecem conosco, como tatuagens vivas. Como as músicas que minha mãe me ensinava quando criança. “Se esta rua, se esta rua fosse minha...”. Acho que foi meu primeiro encontro com a poesia. “O anel que tu me deste era vidro e se quebrou, e o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou”... o verso de repente ecoa numa canção entoada por Dani Lasalvia, gravado num CD de 2007, assim tão perto de mim, de meu tempo de hoje. Ainda tem gente cantando isso, meu Deus! Há mães ainda cantando assim, semeando poesia no caminho de seus filhos? Certamente, sim, pois os guarda-chuvas, que são apenas guarda-chuvas, conseguem resistir, que dirá então desses espíritos dos sons que são a raiz de nossas artes!


O cheiro do bolinho de chuva misturado com açúcar e canela. A meia e o chinelo de dedo. A camisa fugindo por debaixo do casaco. Adeus, vaidades. Está chovendo, enfim. É dia de ficar em casa, escrever uma crônica, beber um leite com chocolate quente ao lado da mulher, assistir a um filme, comer pipoca, dizer que se ama, que a natureza é generosa, que temos saudade do sol e que somos imutáveis em nossa essência de seres humanos, ovos luminosos como dizia Castaneda num livro que deve ter sido lido também num dia chuvoso...


*Camilo Mota é natural de São João Nepomuceno-MG (1965), reside em Saquarema-RJ, onde edita o Jornal Poiésis – Literatura, Pensamento & Arte. É membro titular da Academia Brasileira de Poesia – Casa de Raul de Leoni.

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

A Partida

‘Departures’ ou ‘A Partida’ – título em português – é um filme belo, sensível, e também muito interessante por se tratar da milenar cultura japonesa em lidar com a morte. A peculiar tradição de um país que ao entrar em choques existenciais contemporâneos, leva-nos a refletir sobre uma questão que, para nós ocidentais, é por demais esmagadora: o medo da morte.
Para a maioria das pessoas, esse é um assunto empurrado para o subconsciente e negado na vida cotidiana. No entanto, o filme, com muita sutileza, nos mostra uma outra face da morte que não somente a do apego, da dor e do desespero. Enquanto o personagem Kobayashi age como guardião entre a vida e a morte, aos poucos, vai compreendendo que mesmo em tempos obscuros de pranto e de dor, a beleza pode habitar. E nos momentos que antecedem ‘a partida’, trabalha para que ninguém pense em preto, ninguém pense em luto, ninguém veja o morto como diferente, estranho ou intruso. O morto é apenas o vivo que conclui o trabalho de viver e, com toda dignidade, é primorosamente preparado para sua nova jornada.
Uma nova jornada: é esse o sutil toque de ‘A Partida’. Assim como os filhos seguem seus caminhos quando crescem, os primeiros professores, os grandes amores e até os amigos quando escolhem rumos diferentes. O nosso grande mal é traçar essa barreira de pavor entre mortos e vivos, como se a separação efetiva houvesse realmente entre vida e morte.
A vida emana da vida, o botão se transforma em flor, a criança se torna adulto...a vida não é outra coisa senão a preparação para as tantas partidas.
E no final ficamos menos tristes, menos confusos e menos vulneráveis ao sentirmos que nada precisa morrer no instante da morte. É apenas o deixar fluir da natureza, certos de que em meio às cinzas está a semente do novo que vai nascer.
Maria Lúcia de Almeida

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Pirenópolis, Meia-Ponte, outra vez...


Luiz de Aquino


Dia de recapitular a vida, ou, pelo menos, parte dela…

Para a publicação de hoje, escrevo ontem, é claro! Quero dizer que hoje é quarta-feira, dia 7 de outubro, data em que Pirenópolis foi fundada, em 1727. Então, ontem é o hoje da minha escrita, dia 6 de outubro de 2009, dia em que festejo 31 anos...

Calma, Leda(ê) Selma! Eu, pessoa, tenho 64 anos, desde aquelas vésperas de Primavera, em Caldas Novas, manhã de sábado “et cetera”, como já escrevi em várias versões. Meu aniversário de 31 anos não é virginiano, mas libriano. Foi no 6 de outubro, em 1978, que estreei em livro. Meu “primogênito”, que se chamou “O Cerco e Outros Casos”, veio a lume com revisão, prefácio e discurso inflamado e belíssimo na noite de autógrafos pelo talento do saudoso Professor Gomes Filho.

Quando escrevo aqui Professor em inicial maiúscula, faço-o em louvor a três dispositivos: o primeiro deles, porque a missão do professor reveste-se de um sacerdócio sagrado, daí o meu sentimento de sacralidade ante o termo; o segundo, em respeito ao que dispõe o acordo que tenta unificar a grafia nos países lusófonos, permitindo-nos enaltecer em maiúsculas algumas profissões e ofícios. Por fim, refiro-me a Gomes Filho, o Joaquim, em quem a palavra Professor entrou em lugar do prenome, com justiça e carinho.


Hoje, feriado e festa na vetusta Meia-Ponte do Rosário; ontem, dia 6, momento da minha escrita. E ao escrever, cumpro duplamente o silêncio destes minutos, com o segundo plano funcionando feito auto-homenagem. Se às pessoas comuns isso nada significa, os escribas me compreendem. Os leitores aficionados, estes entendem-me mais nitidamente. Sabem bem que parir um livro dói. É dor de concepção e gestação, alegria, emoção, surpresa, expectativa, encontro. Encontro do ego com o mundo externo. Um parto, mesmo. E quem são os pais e mães que se furtam de festejar os aniversários dos filhos?

Festejar “O Cerco” (que teve segunda edição em 2003, com o nome assim reduzido, para festejar o Jubileu de Prata) é festejar o desvirginamento. Não a quebra de um metafórico hímen, de fora para dentro, mas o rasgar da trava de dentro para fora. É uma imagem legítima, essa: o autor tira de dentro de si para expor ao mundo possível.

Em 1978, tive o amparo do prefeito Altamir Mendonça, que patrocinou parte do meu tímido livro de estreia; agora, tenho o apoio decisivo de Nivaldo Melo e Eli de Sá, prefeito e presidente da Câmara de Pirenópolis. Decisivo, também, foi a atuação do meu primo Luiz Antônio Godinho, eterno apaixonado por coisas de cultura (principalmente quando se trata de Pirenópolis) e do secretário de Cultura, Gedson de Oliveira.

A estes, o meu abraço de gratidão e a minha homenagem simples nestas linhas. Nossa terra, Pirenópolis, merece nosso empenho e nosso sacrifício. Na última segunda-feira, visitei o Centro de Dcomentação (CEDOC) do jornal “O Popular”, onde localizei alguns dos meus primeiros escritos. Lá, encontrei uma crônica louvando meu reencontro com meu pai, o “Véi Raé”, após cinco anos de ausência minha (esse reencontro, na véspera do Natal dos meus 15 anos). Achei também alguns contos meus e, particularmente, um dos meus primeiros textos sobre Pirenópolis: “Tem maromba, ronqueira e banda-de-couro”. Era agosto de 1974.

E foi também entre os colegas de “O Popular” que pincei o Jorge Braga para ilustrar “O Cerco”. Assim, e sem querer, meu livro debutante marcou outros estreantes. Foi o primeiro livro ilustrado por Jorge Braga. E na próxima sexta-feira, depois de amanhã, dia 9 de outubro, o cartunista mais festejado de Goiás receberá, junto comigo, o título de Cidadão Pirenopolino.

Mais um brinde, velho Jorge!



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.

sábado, 3 de outubro de 2009

Livro, palavra que dá medo



Livro, palavra que dá medo




Luiz de Aquino






Há alguns meses, poucos, Batista Custódio produziu um artigo interessante, diferente, questionador. Refiro-me àquele em que o jornalista estranha o fato de a Casa Verde, ou seja, o Palácio das Esmeraldas, não dispor de uma biblioteca. Verdade: a residência oficial do governador de Goiás (e, por longo tempo, também a repartição principal do Poder Executivo) carece de livros.


No citado artigo, o editor-geral do DM buscou envolver os membros da Academia Goiana de Letras e outros escribas literários de Goiás, chamando-os a se movimentarem no sentido de demonstrar ao governador Alcides Rodrigues que ler é muito importante. E que uma biblioteca serviria não só a ele, governador (bem como aos que o sucederem), mas também a seus auxiliares e familiares (enquanto durar o inquilinato na Casa Verde).

O texto despertou discussões. Eu mesmo escrevi sobre ele, e argumentei que um político com boa bagagem de leitura pode vir a ser um homem mais humano, tal como gostaríamos que fossem os mandatários de cargos de realce. Um jornalista amigo contestou-me, recordou que Mussolini e Lênin eram bons leitores, logo os letrados (disse ou insinuou ele) tornam-se sanguinários ditadores. Será? Foi assim o Imperador D. Pedro II? E Juscelino Kubitschek? Deduzi que o colega de ofício, leitor compulsivo, felizmente não é político: viria a ser (em sua própria lógica) um ditadorzinho odiento. Por isso, continuo preferindo políticos com boa leitura. Haja vista, por exemplo, Demóstenes Torres.


Curiosamente, ao ler aquele artigo, entendi que os políticos iriam ignorá-lo, e os intelectuais cuidariam de reagir. Estranhamente, ouvi de alguns intelectuais que um governo não precisa de biblioteca, pois tem assessores etc. e tal... Ah, mas tenho de admitir e confessar: os intelectuais que assim se expressaram já viveram mandatos (uns por voto direto, outros pelo modo “biônico” que caracterizava a “democracia relativa”, assim qualificada pelo “presidente” general Ernesto Geysel).

Pois é... Se é livro, que se jogue fora. Que se pise. Rasgue. Queime.

Uma amiga radialista conta-me que o Ministério da Educação teria emitido um documento a professores de Ensino Fundamental, orientando-os (?) a serem pouco rigorosos quanto a ortografia, regência, concordância e outros itens. Ilustrava dizendo que se o aluno escrever “mensaje”, que o professor considere certo, pois a “mensaje” foi dada. Se isso for verdade, o MEC está nos conduzindo de volta aos ideogramas. Ou às pinturas rupestres.

Em breve, teremos o linguajar esportivo da rádio e da tevê como padrão da Língua. Isso, para não se falar na língua-presa, que se torna coisa oficial. Uma repórter de rádio, comentando as negociações em torno da Celg, citou a estatal federal de energia como “Eletobrás”, em lugar de “Eletrobrás”. E um secretário de Estado também pronuncia assim a mesma palavra.


Faz mal não; eles passaram a “mensaje”. E segundo o escritor ex-político, a política dispensa o bom aprendizado e não quer leitura. De minha parte, insisto no aprendizado, no livro, no bom texto. Rejeito profissionais que não falam corretamente. Sou dos que entendem que quem aprende a Língua, aprende qualquer coisa. E faço valer a antítese.

Com estes argumentos, tenho conclamado personalidades a um debate saudável e sem antagonismos. Quero destacar o valor da informação, do aprendizado, do processamento cerebral dos dados com a finalização no conhecimento. Penso, pois, que o Palácio do Governo deve ter a sua biblioteca (e que seja usada).
Acho que sou bobinho. Ainda acredito que Platão estava certo.











Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


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