segunda-feira, 6 de julho de 2009

UM MÉDICO PERFEITO DA PALAVRA

A Academia Campista de Letras vem nos brindando com apresentações literárias diversificadas, organizadas por uma Comissão de Acadêmicos de elevada expressão cultural (composta por Antônio Nunes, Arlete Parrilha Sendra, Edinalda Maria de Almeida, Everardo Paiva de Andrade, Fernando da Silveira, Joel Ferreira Mello e Renato Marion Martins de Aquino).
Como parte das atividades concernentes às comemorações dos 70 anos da entidade [1939/2009], não poderia deixar de registrar na briosa Revista da ACL, a trajetória de vida do acadêmico Antonio Roberto Fernandes, que dentre tantos outros que já partiram, também brilhou com alta expressão cultural na doce e bela cidade campista a qual me acolheu como filho adotivo.
E, dotado deste espírito de sentimento, não poderia me calar às famílias literárias nacional e internacional diante do meu profundo sentimento com o passamento, dia 20 de novembro de 2008, do amigo, escritor, poeta, ator e compositor Antonio Roberto Fernandes, fidelense de nascimento e campista por adoção. A notícia de sua morte ecoou de forma expressiva no coração dos literatos, amigos e familiares. O prelúdio verdadeiro de sua perda inesquecível. Na medida em que as horas passavam, a nota foi se espalhando entre inconformismo, tristeza e lágrimas.
Na literatura, além dos predicados mencionados, foi um ser humano dotado de elevada grandeza de memorização e de uma inteligência emocionante, principalmente quando declamava de forma talentosa, melodiosa, o que ele tinha o dom de fazer.
Antonio Roberto Fernandes, além de seus magníficos trabalhos realizados, tinha muitos planos em favor do desenvolvimento da cultura, e eu, que quase sempre estava junto a ele, via nas suas palavras e semblante o quanto esses projetos eram importantes, sendo um dos principais a criação da Academia Mirim de Letras de Campos.
Tinha um carinho muito especial pela arte do teatro e pela música. Para quem desconhece, dedilhava suavemente as teclas do acordeon, executando canções de bom gosto.
O que mais dizer? Acredito que necessitaria de dias ou até mesmo de anos para expor o quanto o amigo, médico perfeito da palavra, foi e será para todo o sempre: um grande poeta, um precioso ser humano.
Ele criou um pomar e neste pomar plantou sementes férteis que sem dúvida, não medirão esforços para ver suas obras e desejos realizados.
Descanse em paz, meu amigo!

Agostinho Rodrigues
Escritor - Poeta

(Contribuição enviada por email)

Suavemente Suicida

Vive Le 14 Juillet !!!

O bar, esse ou qualquer um, é um estabelecimento para solitários. Piano que ninguém escuta, palavras que ninguém preta atenção. Um viveiro humano. Cinzeiros cromados, restos de comida e bebida, piolas novas e antigas e projetos de aventuras sentimentais com a duração de uma noite.

Há uma espécie de fatalidade no movimento das nucas marcando o ritmo da noite. Os homens lambem os dentes e as mulheres empinam os peitos. Circulam. Circulamos. O olhar do gueto escorre pelas minhas costas. Levanto-me. Ligeiramente incomodada. Nada tão suave, porém que não me faça desejar uma explosão nuclear em cima do local: suave é a extinção da espécie.

Acho que todo dinossauro sente esse inexplicável langor que nos pega pelo pé nos fins de noite ou nos domingos à tarde. Mais uma dose. Nela se dilui qualquer dúvida, qualquer culpa qualquer ansiedade.

Dois seguranças guardam a entrada. Saio para respirar. Um deles avaliou, com a precisão de uma casa de penhores, a grife das minhas roupas, minha maquilagem lançamento (“Sombras de Inverno”), meus dentes adequadamente polidos, o tamanho e design dos meus saltos alto... e me deixou vomitar em paz.

Lavei o ultraje na pia do toalete e treinei meu sorriso plastificado número dois. Esse sorriso desenvolto me cai bem. Estou fraca da última gripe, deve ter sido isso que acelerou a náusea. Normalmente ela só emplaca depois das duas da manhã, quando as caras em volta estão mais desesperadas.

O próximo passo é o monólogo

Nasci no inicio dos anos sessenta e sou mulher. Tenho quase cinqüenta anos a vida não pode acabar assim: pregando-me somente pequenas peças. Tem que acontecer, espero, ao menos uma catástrofe. Não fujo. Nem mesmo quando corro.

Minhas possibilidades de qualquer coisa realmente nova são muito limitadas. Às vezes acredito que não deve existir uma saída convenientemente digna.

A experiência do estudo e ensino da história me deu conhecimento da aplicação das penas para os que são agarrados por brilhar de mais ou de menos. E a dimensão do punhal de Brutus.

Música garçom, piano... Mudou pra violão

- Por que você diz que ela é uma desajustada?
- Se entope de calmantes e tem medo de acordar amarrada numa fogueira numa praça qualquer, em frente desse bar, na hora dos executivos

Os amigos fazem a história.

Às vezes meu quarto é branco como uma cela de manicômio. Às três horas da manha a vida pode ser bem pior do que ficar aqui escutando esse violão moderninho. Clássicos brasileiros. Daqueles com direito à batucada. A inteligência do bar se anima e bate com os talheres: um sarau...

Continuo a conversar com o vazio fumando o cigarro vagabundo que comprei no fiteiro da frente. Eles (os fiteiros e quiosques) explodem pela cidade, como bolhas de catapora. A classe média sobrevive.

Um ecologista sentou na mesa. Não autorizei. Falou da Amazônia, pulmão do mundo, tartarugas, preservação. Me deu fome. Pedi ao garçom sopa de tartaruga em extinção.Ele levantou irado, dizendo que eu ia acabar inutilmente terrorista, suavemente suicida.Mandei-o preservar os cheira- cola da esquina.Pura demagogia.Detesto os guardadores de carro, os cheira-cola que me arranham o carro e me roubam antenas que não servem para nada. Não dá para se fazer revolução com quem rouba antenas de automóvel. Levassem pelo menos o carro.

Durante os próximos dias vou reduzir minha fala ao mínimo. Vou deixar o telefone fora do gancho e afogar o celular. Só vou sair da toca para os bares. Eles ganham do lexotan habitual, próprio para deprimidos convictos.

Não adianta. Logo vai chegar alguém e ligar o som do carro em volume total. Brega is beaultiful. Nenhuma condição de ir lá reclamar. Em algumas civilizações, bom gosto vale bofetão ou estupro.

Amanha vou tomar umas três garrafas de champagne em jejum. É o dia da queda da bastilha. Vou comemorar meu herói Calabar. De noite , acabarei novamente voltando a esse bar infestado de intelectuais de classe média e falando pro garçom entediado: Vive Le 14 juillet....

Por Madalena Zaccara
Inverno-2009

Revista Mirante - dedicação à literatura desde 1982

Chris Herrmann

Mirante é uma revista literária santista fundada pelo poeta Valdir Alvarenga em 1982, juntamente com Antônio Canuto.
Sem qualquer patrocínio, a revista ficou sete anos sem circular. Retornou graças ao esforço da poeta Claudia Brino, esposa de Alvarenga e coordenadora do Clube de Poetas do Litoral.

Nestes 27 anos, a Mirante publicou poemas de centenas de autores, não só da região, mas também de vários lugares do País. “Já recebemos trabalhos de Brasília, Pernambuco e São Paulo”, afirma Alvarenga. Vinícius de Moraes, Rimbaud, Pablo Neruda e T.S. Eliot, por exemplo, já freqüentaram as páginas da publicação. Da Baixada Santista, destacam-se nomes como Roldão Mendes Rosa, Madô Martins, Narciso de Andrade e Carolina Ramos, entre outros.





Meu poema "Faca afiada" na Mirante 65

domingo, 5 de julho de 2009

PERSISTÊNCIA DA MEMÓRIA

Mnemósine, a deusa da Memória, era filha de Urano e de Gaia. Foi consorte de Júpiter, com quem teve nove filhas, as Musas da poesia, do canto, da dança, do teatro... O papel da memória é despertar lembranças pelas quais, segundo Platão, “a natureza mortal procura, na medida do possível, ser sempre e ficar imortal”. O que o homem mais teme com a morte é ser esquecido, varrido da memória dos seus. Para garantir que sejam lembrados, os homens constituem família e procriam filhos que sejam portadores de sua memória genética. Ou produzem obras literárias, artísticas, artesanais, que o imortalizem. As artes e a ciência, por sua perenidade, são a resposta possível ao esquecimento, ao olvido – a dor que mais dói.

Das artes modernas, o cinema com seu fluxo de lembranças, permite a qualquer pessoa o trânsito franco entre o passado histórico e seu passado humano. No Tríptico A Morte de Sergei Mikhailovitch Eisenstein, de Vinícius de Moraes, ele volta à sua paixão adolescente pelo cinema, homenageando o diretor russo de "O Encouraçado Potenkim", também o teórico da montagem, ao qual o poeta faz referência: "O cinema é infinito - não se mede./ Não tem passado nem futuro Cada/ Imagem só existe interligada/ À que a antecedeu e à que a sucede".

Cinema japonês é lento; imagine um filme japonês que trata da vida após a morte. Os mortos são recebidos por guias numa espécie de ‘estação’ ou pousada; seu papel é ajudá-los a vasculhar suas lembranças e fixar um único momento de suas vidas que elas carregarão por toda a eternidade. Os guias se valem de filmes e videotapes que a relembrar o tal momento que eles imortalizarão. A idéia se baseia de novo em Platão, para quem a alma tem que passar por Lachesis (o passado), por Cloto (o presente) e por Átropos, o futuro. Em um ‘anime’ japonês Kaze no Na wa Amunejia (O Vento Chamado Amnésia, 1990), direção de Kazuo Yamazaki, todos na Terra perdem a memória e voltam a um estado primitivo, exceto um jovem, que fazia pesquisas para aumento da capacidade do cérebro. Ele, então, parte em busca de pessoas que ainda tenham lembranças.

Para Pierre Louys, a memória não se vincula exclusivamente ao passado, mas a um devir, um processo dinâmico, pelo qual a memória humana é um processo cognitivo. O neurocientista argentino, Ivan Izquierdo, acha que a leitura é o meio primordial de se preservar a memória. “Não tem nada que chegue perto. Lendo, você exercita a memória visual, a memória verbal, a memória de outras línguas que você porventura conheça, a memória de sinônimos, a memória de imagens. Você lê a palavra árvore e passam infinitas imagens de árvores em sua cabeça. A leitura é a que evoca mais tipos, mais formas de memória. Ler muito e ter bons níveis de escolaridade também ajudam a prevenir ou minorar os sintomas do mal de Alzheimer. Para aqueles que não têm vista para ler, ouvir alguém contar uma história é ótimo para a memória. Famosos escritores cegos fizeram isso e funcionou muito bem, como o argentino Jorge Luis Borges e o inglês John Milton”.

Cada indivíduo em particular acredita que sua vida deixará marcas indeléveis de sua personalidade. Mas para a Natureza, deixaremos apenas átomos de nossa passagem, em grãos de areia, nas espumas das ondas, no pó do calcáreo. Eu me planto de novo para crescer como a relva que eu amo. Se de novo me quiserdes encontrar, buscai-me debaixo das solas dos vossos sapatos. Deixando de encontrar-me ao primeiro momento, conservai a coragem: em algum ponto eu hei de estar a esperar por vós - Walt Whitman

tekka

SÃO, SÃO PAULO MEU AMOR...

Avenida Paulista.

O verso de Tom Zé saiu assim... sem querer da minha boca.
Essa música, lembro ainda, venceu o IV Festival da Record, da MPB, em 1968, e era muito cantada nas rádios e programas de televisão, um sucesso naquela época.
Na continuação dos versos o músico faz alusão a infelicidade, mas o sonoro refrão que furtivamente cantarolei, apareceu num repente, nestes primeiros dias de julho, ao me deparar instalada na Avenida Paulista, no coração de São Paulo.

Sem dúvida, é a maior cidade brasileira, com quase 11 milhões de habitantes, a maior das Américas e do Hemisfério Sul, não só em tamanho e população, mas na grandiosidade de sua economia, da sua política e do movimento cultural que ali é disseminado.
E eu vivendo alguns dos seus bons momentos, do seu dia-a-dia.

Pareceu-me que eu era apenas um pontinho no meio da multidão, no centro nervoso dessa grande capital. E no meu caso, da Cultura.
Não estava nervosa, mas sim feliz. Em poucas horas vai acontecer o evento da minha comunidade “Poemas à Flor da Pele”, oriunda do Site de Relacionamento Mundial - o Orkut-, na Casa das Rosas, na avenida Paulista gente!?

Lembro ainda a música de Tom Zé, de que “somos um povo infeliz, bombardeado de felicidade”, viajei na cena do sonho e em pleno paraíso, fui bombardeada de felicidade, aconchegada nos seus braços, fervilhada de calor, de versos e rimas à flor da pele. Que infelicidade que nada...

Avenida paulista

Parece uma lista

Não pára de crescer

Pro alto e gente pra todo lado

E apenas uma turista

Por onde tem andado

Tem sorrisos pra dar e vender...


Hospedada na casa de uma acreana, a Dora, que há muito mora em São Paulo e nessa bela avenida, me proporcionou momentos pra eu me sentir como se estivesse em casa.
Ela e Lúcia, gentilmente me aguardaram no aeroporto, em Guarulhos. Adorei o passeio de carro até a grande avenida, onde pude rever São Paulo, depois de mais de uma década, as cenas ampliaram-se, tem povo pra todo o canto, as ruas cresceram, as elevadas se multiplicaram e percebi que o lugar tomou proporções estratosféricas.
A sensação de pequenez de sempre, me acompanhou por todo trajeto.
Ao chegar acalorada, abri malas abarrotadas de livros e de roupas grossas, quando que lá fora respirava-se um ar de mais de 20°. Segurei, naquele dia quente, os impulsos de ganhar a rua e fazer parte daquela paisagem.
Ao cruzar suas calçadas, com passos firmes saudei-a e transpirei emoção seguida pelos movimentos dos carros, do povo que ia-e-vinha desfilando em suas alas, numa cadência bonita de vida.
Tudo isso encharcou de excitação meu corpo e alma de poeta. Os olhos seguiam e encontraram beleza em tudo que via.Tudo se completava.
Tomei essa rua como minha.
Os grandes prédios, as largas avenidas, as diferentes raças, tudo uma grande redescoberta, eu mais uma vez tão pequena!...Mas já fazendo parte das ondas de seus movimentos.



Casa das Rosas

E nesse séquito cheguei ao lugar mais conhecido do mundo, pelos caminhos da avenida mais famosa, no número 37.
Ela tem uma construção antiga, localizada próxima ao portão, cercada de belos jardins bem aparados, numa casa de altos e baixos, cheia de salões e escadarias - segundo o que li, segue estilos da arte renascença e francesa, de Luís XV, de uma influência greco-romana, ou seja neoclássica-.



Mas, nada disso tem tanto valor como saber do trabalho que é feito no espaço Haroldo de Campos de Poesia e Literatura, reinaugurado em 2004.
Sem preconceitos e totalmente democrático, abre portas para eventos culturais: lançamento de livros, saraus, recitais, peças de teatro entre outras apresentações.




Visitei suas salas, até senti o perfume de rosas brancas que delicadamente caíam sobre nossas cabeças...
Tomei um cafezinho no Café que fica ao lado do prédio, com amigos, que já se aglomeravam para o encontro, a Lucinha, Jorge, Viviane, Fátima, Kedma, Mell e Verluci.
Os bate-papos correram soltos, a energia era muita e entre muitos abraços respirei aqueles ares imponentes, desde que o sol brilhava sobre ela, até o momento em que suas luzes se acenderam: aí era ela quem brilhava.
Foi lindo!

Estava em estado de graça, pela importância de tantos fatores reunidos, num só momento, um lugar especial, celebrando com velhos amigos e conhecendo tantos outros pessoalmente, estes que não mais fazem parte do meu imaginário na internet, agora são reais.
Que dia especial!

Na verdade poderíamos estar até num barracão, mas só o fato de ser na Paulista, no lugar onde os seus responsáveis fazem tudo para promover a arte e a cultura, penso que já é o suficiente.
Graças a essa política nosso evento, tão bem coordenado por lindas mulheres, pessoas da melhor qualidade, Dora Dimolitsas e Lúcia Gönczy, abençoadas por Frederico Barbosa, Diretor da Casa, o inesquecível dia 1º de julho, de 2009, às 19 horas, ficará gravado pra sempre em suas paredes e nas nossas memórias.

Deixamos ecos de arte, de poesia, de música, aliados à alegria e amizade de todos que por ali passaram e que por momentos tivemos o privilégio de receber.
Tudo foi de uma beleza ímpar e se os donos da casa não informassem que já estava na hora de fechar, ninguém ia embora.
O encontro foi até 22h30min, uma hora além do previsto, prestigiado por poetas e escritores, músicos, performistas e artistas que emprestaram seus talentos a essa comemoração de 3 anos de criação da Poemas à Flor da Pele.
O sucesso, atribuo a dedicação dos que coordenaram e àqueles que participaram com o seu melhor, mesmo que por breves momentos, deixaram nos nossos corações a marca da beleza da poesia, nas mais diversas manifestações.
Sucesso mesmo, só por ter acontecido nessa mágica Casa das Rosas, no memorável espaço Haroldo de Campos, na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, no Brasil, no planeta terra.


São, São Paulo meu amor... Obrigada!


Ultima Despedida


Ninguém soube jamais se foi por saudade ou apenas solidão que fez com que ela voltasse àquela casa. O fato é que depois da separação, o inquieto coração começou a vacilar entre recordações de felicidade e tristeza. Mas foi pelos mandos do coração que, ao invés de seguir caminho reto, parou diante da casa vazia. Queria ver de perto como é que se portam as coisas sem os seus donos, ou quem sabe encontrar algum sinal das presenças que dali se foram. Seguindo o eco das vozes ressoando como dantes, iniciou sua trajetória pela porta dos fundos e chegou até ao quintal. A goiabeira e o limoeiro ainda brilhavam na calmaria de um por do sol, mesmo sem os olhares que antes lhes davam vida. Os frutos que eventualmente caiam com alarde, naquele instante desprendiam-se com certa elegância numa solene despedida. Os pássaros, barulhentos ao se aninharem, fizeram silêncio para não incomodar especial momento de recordações. E ela, envolta na memória e nas lembranças que o tempo embalou, ainda podia ver e ouvir o cachorro latindo e fazendo festa.
Depois, feito sonâmbula, percorreu salas e quartos, selando os espaços, confundindo ausências e saudades. Buscando preencher lacunas, banalidades do cotidiano que fotografias não captaram, algo que aparentemente não teve importância, mas que deixou rastros pelo ar. Um além do espelho onde a intimidade, feito dona da casa, instalou. Um restrito mundo de palavras ditas, de sonhos misturados, de sentimentos falsos e demais verdadeiros, de carências bem e mal resolvidas. Com inquietante indagação foi abrindo portas como quem descobre cenas, recuando o tempo, indo e voltando ao sabor de suas recordações. O coração aberto em ferida, parecia decidido morrer aos poucos com a ação de tantas lembranças.
No entanto, a casa que não é gente e nem sente emoção, continuou majestosa e clara, vazia e indiferente ao passado e aos conturbados fantasmas da mulher. Junto ao vento varreu para sempre palavras e sentimentos daqueles que partiram em revoada. Numa total irreverência, deu a ela a real dimensão de sua fragilidade, revelando, através de um fúnebre silêncio, que o caminho que um dia ela percorrera, ali mesmo, se esgotara. E que os ecos, imagens e lembranças não expressaram senão a ela mesma, dando vazão a seus sentimentos mais secretos de mágoa, tristeza e solidão.
Os homens com seus revezes passam e as coisas permanecem, foi essa a derradeira mensagem da casa, lembrando que da vida nada se leva. E pela porta da frente, finalmente, ela também passou, decidida a transformar todas as suas dores, prantos e saudades em motivos de canto e de poesia, pois o sabor da vida é encontrado na possibilidade de sua reinvenção.
E tudo o que era parede, muro e sigilo, tudo o que era branco e silencioso, para sempre também se calou.

Maria Lúcia de Almeida

JOGOS

ELA: morena; 1,60; magra; cabelos longos; olhos castanhos; sempre cheirosa, carinhosa...

ELE: Claro; 1,75; 65kg, olhos castanhos; pensador...

A primeira vez foi na casa dele, no segundo encontro. Haviam combinado de ir a uma Cervejaria, mas no meio do caminho veio o convite:

─ Tenho vinho em casa! É caminho... O que acha?

─ Pode ser...

Ela concordou. Por que não? “Já estavam ali, de mãos dadas, os dois querendo... O bar, mero pretexto. ─ sabiam ambos.

Subiram.

Ela pediu banheiro. Ele abriu o vinho. Trouxe a música. O clima estava feito. Mal saiu do banheiro e os dois se atracaram, jogando-se na cama, com as taças cheias de vinho e desejo. SEXO. Agora era só o que importava. O mundo se dissolvia em cheiros, toques, suspiros, sabores dos corpos em ebulição. Entre um gozo e outro, um gole no vinho, um trago no fumo. Corpos nus, exaustos... As mãos deslizavam dos seios às pernas... Ela, de costas, provocava com os quadris. “Onde está a camisinha?” E tudo recomeça. A noite não terminaria antes das duas da tarde.

Uma semana se passou.

“Não gosto de camisinha”, reclama ele.

“Sem camisinha não dá!”, responde ela.

Curvas convidativas o hipnotizam. “Não vale a pena brigar por isso agora. Quero mais”...

Mais tarde ele insiste. O cheiro do sexo enlouquece.

─ Sem camisinha não ─ persiste ela.

─ Por que não? Com camisinha é que não dá! ─ Ele sentencia.

─ Não dá ─ ela insiste.

─ Então não dá! Não confio em mulheres que não transam sem camisinha! ─ diz ele, dando a última cartada.

Silêncio.

A música termina.

─ Por que não confia em quem não transa sem camisinha? ─ ela questiona, triste, afetada.

─ Você sabe por que ─ responde ele, testando.

─ Me diz!

─ Não preciso. Você é inteligente o bastante para entender.

Ele coloca um filme. Ascende outro cigarro.

Ela, nua na cama, atravessa as paredes com seu olhar. Por onde andaria sua mente agora?

Uma hora de silêncio preenchido pela TV. O que dizer?

Ela levanta. Veste-se.

Ele finge não ver.

─ O que está fazendo? ─ pergunta ele, em tom ocasional.

─ Vou embora! Já que não confia em mim, vou embora! ─ responde ela, tímida.

─ Sabe que não é isso. Sabe bem... Se não quer sem camisinha é porque não confia em mim! Tem medo de pegar alguma doença? Ou...

─ Ou o quê?

..

─ Ou é você que está doente?

Ela chora.

Ele sente o calafrio cortar a espinha, arrepiar os pêlos do braço. Ela tinha alguma doença!

...

─ Eu não sou confiável?! ─ ela pergunta.

Seus olhos viam outra paisagem agora. Não se poderia dizer se dizia o que dizia para ele ou para uma platéia invisível de fantasmas que assombravam sua alma.

─ Eu não sou confiável... ─ repetiu .... ─ Você sabe o que é herpes?

─ Não ─ ele respondeu, aflito (Era bom demais para ser verdade. Tinha que ter alguma coisa).

─ Você não sabe o que é confiar numa pessoa. No primeiro namorado. E depois descobrir que ele te passou isso. Não sabe o quanto sofri. Depois disso, meus relacionamentos sempre terminam neste ponto. “Na camisinha”. Eu não sou confiável! ─ repete ela, transtornada.

Ele observa. No escuro, só as silhuetas podem ser vistas. O rosto dela, em meio às sombras e os delírios do álcool se metarfoseava em formas assombrosas.

─ Eu gosto de sexo ─ Ela disse.

─ E quem não gosta? ─ Ele responde, constrangido. (O que estou fazendo aqui ─ pensa.) ─ O que isso causa?

─ Dor! Muita dor. ─ Ela responde, ente dentes, entre lágrimas, raiva e dor. ─ Sabe aquelas feridas que algumas pessoas têm na boca? É isso, só que aqui! Feridas, bolhas. Doe, coça!

Silêncio.

─ Por que me contou?

─ Normalmente, desapareço. Esse é o comportamento padrão. Quando chega a este ponto eu simplesmente vou embora e você nunca mais sabe de mim. Mas eu gostei de você. Gostei desde o primeiro dia...

Carência...

─ Te amo! ─ Diz ela.

─ Desculpe! ─ Ele responde.

─ Acharia justo se não contasse? Eu seria mais confiável?

─ Eu quis jogar! Quando se está em uma roleta russa sabe-se o risco que corre. Eu quis arriscar. Seria justo se me contaminasse. O risco era de nós dois. Também posso ter alguma coisa. Por que não? Hoje eu não sei, mas há anos não faço exames. Posso ter! É o risco que escolhemos correr. Faz parte do jogo.

─ Eu não faria isso com ninguém.

─ É por isso que todo mundo transa sem camisinha.

─ Parece que tenho uma estrela na testa.

.

. ─ Preciso pensar ─ Ele diz, rezando para que ela se vá. Que o pesadelo acabe logo.

Não vou ser herói. Nunca gostei dela tanto assim... ─ Ele pensa, enquanto fecha a porta do elevador.

O jogo não pode parar!



AUTOR: Sávio Damato