sexta-feira, 6 de novembro de 2009

MOEDA CORRENTE: PERSPECTIVA

        A entrada de um novo ano sempre traz muitas esperanças para os brasileiros. Não é à toa que se diz que o brasileiro tem como profissão a esperança. Do mês de janeiro até meado do ano, o brasileiro vai vivendo, não apenas com o que o presente lhe dá, mas com o que o futuro poderá lhe trazer.


        Entretanto, como o hoje é sempre presente e o amanhã nunca deixará de ser o futuro, o brasileiro vai suportando a vida com o que o salário lhe permite comprar, mas não perde a esperança. Afinal, o ritual de passagem de ano alimenta sempre a sua alma, com esse, que é o seu alimento principal: a esperança.


        O salário não importa! Hoje ele corresponde a mais de cem dólares e no futuro pode valer 200. O que importa realmente é a nossa moeda corrente: perspectiva. A perspectiva de dias melhores, que certamente virão no futuro. Os noticiários da televisão trazem notícias ruins todos os dias, mas para o profissional da esperança os noticiários não têm nenhum valor, pois somente trazem notícias do passado e como diz o cancioneiro, amanhã, vai ser outro dia.


        O brasileiro sonha um dia poder entrar no supermercado, encher o carrinho de compras e chegar ao caixa, enfiar a mão num saco cheio de perspectivas e pagar. Qual foi o valor das compras? 20 perspectivas! ...E isso ele tem de sobra. Seria o dia mais feliz de sua vida, uma vez que a fartura da mesa traria um semblante diferente no rosto da mulher e dos filhos, já fartos de tanta miséria.


        Mas quando passa o meio do ano, começa uma nova fase da vida. Aquele ano que está para terminar não lhe oferece mais o combustível, matéria-prima da moeda corrente em seu mundo de miséria: a esperança. Então, ele começa a se virar como pode e passa a cunhar a sua moeda com a esperança de um novo ano que se aproxima.


        Assim, o brasileiro já começa o ano devendo. Devendo esperança para si mesmo. Mas vem a passagem de ano e todas as dívidas de esperanças são pagas, pois uma nova carga chega com todos os abraços e desejos dos parentes e amigos e novas moedas de perspectivas são cunhadas para serem usadas no ano novo que está começando.


        Triste será o dia que o brasileiro acordar e procurar no armário algum alimento para os filhos e não encontrar. Olhar para a mulher e ver que uma lágrima lhe escorre do rosto e feito uma tromba d’água vem arrastando todos os fios de esperança que ainda restavam naquele semblante e ao enfiar a mão no bolso não encontrar a sua moeda real, mas apenas a certeza de que lhe restam, praticamente, 25 dias para que um novo salário lhe seja pago.


        Esta é a triste realidade. Taí!... a realidade deveria ser o Real desse mundo de fantasias no qual o brasileiro vive cunhando as suas perspectivas com a esperança do dia-a-dia. A realidade corrói o valor da perspectiva e deixa a esperança mais escassa e por consequência, deixa também o brasileiro mais pobre a cada dia que passa. Mas o que passa é passado e o passado, nesse caso, não importa. O que importa é o futuro, e é lá que existe a esperança, o nosso precioso metal, com o qual cunhamos as nossas perspectivas que nos permitem viver a realidade do hoje.


Então, só nos resta desejar muitas esperanças para o ano novo que já se aproxima.


Ivanaldo Xavier  -  e-mail: jidx@hotmail.com



sábado, 31 de outubro de 2009

O mico na crítica



 


Luiz de Aquino






Esta semana, passeei meu espírito por um Brasil especial, o Brasil das artes. O Brasil das bandas do interior e das escolas fundamentais e médias, com os tradicionais uniformes e a formação militar (as bandas, por algumas décadas, restringiram-se ao ambiente dos quartéis militares).

Em 1967, um moço mal entrado em sua faixa dos vinte anos, cantou num festival: “Estava à toa na vida, o meu amor me chamou / pra ver a banda passar, cantando coisas de amor”. Esses versos, acasalados com a melodia num arranjo de metais e percussão, reconduziu a nação brasileira às bandas que, atualmente, tentam (e conseguem, felizmente) ressuscitar pelo Brasil afora. Mas “A Banda”, quando apareceu, sofreu um comentário infeliz de um dos críticos que, na época, constituíam o júri do programa de Flávio Cavalcante. Mister Eco (era o pseudônimo do crítico musical) condenou a música, arrematando com a frase: “Banda não canta. Banda toca!”.

Como se vê, o crítico não aceitava a metáfora. Mas, apesar dele e de sua frase, o Brasil inteiro virou banda e cantou coisas de amor. Éramos uma imensa banda de quase noventa milhões de músicos naqueles anos finais da década em que tudo mudou. Mas existem críticos e Críticos. E separá-los é uma função “crítica” que, nós, os mortais menores, temos de fazer, tornando-nos “críticos de críticos”.

Vejam o que contou o jornalista, professor de Literatura e cronista exemplar Sinésio Dioliveira:
“Outro dia li em um site as críticas de alguém sobre o filme “O curioso caso de Benjamin Button”, dirigido por David Fincher e que tem o ator Brad Pitt vivendo o papel de Benjamim. Tal filme é baseado num conto escrito em 1922 por F. Scott Fitzgerald. A mutamba do crítico comeu feio na parte do nascimento do protagonista da história: Benjamin, que nasceu velho, já com 80 anos de idade. Para esse alguém, “o nascimento fugiu da verossimilhança” 
(da crônica “Filme e livro possuem belezas distintas”, no DM, quinta-feira, 29 de outubro de 2009).

Curiosamente, tanto Mister Eco (em 1967) quanto esse “alguém” que Sinésio citou são pessoas que vivem disso, de criticar. É sua profissão, ou, ao menos, seu ofício diletante (e geralmente somos menos imperfeitos nos nossos ofícios diletantes do que no desempenho das nossas profissões). Alguns desses críticos são professores em salas de aula, ensinando errado.

Todos somos alvos fáceis da crítica. Basta-nos atuar na expor ideias e opiniões para, de imediato, sermos avaliados. Eu, que sou leitor há sessenta anos, (aprendi a ler aos quatro anos e nunca mais parei), seleciono, dentre o que leio, o que me agrada, o que me ensina e o me dá prazer.

Nunca procurei Cervantes, Camões, Castro Alves, Machado, Lins do Rego, Jorge Amado, Moacir Sclyar, Bernardo Élis, Lya Luft, Adélia Prato, Gilberto Mendonça Teles, Afonso Félix, Brasigóis Felício, Maria Helena Chein, Heleno Godoy, Décio Filho ou seja lá quem for dentre os meus preferidos para dizer-lhes o que escrever. Apenas os leio.

Mas há quem me procure para “me orientar”.

Gente, isso ofende. Dói, até! Em lugar de dizer-me o que escrever, essas pessoas deviam, sim, escrever sobre o que gostam. Estranhamente, são as pessoas que querem ler sobre as flores, o amor de olhares, a doçura da resignação religiosa. Rejeitam em mim o cidadão comum, o homem que cobra dos poderes e das instituições o procedimento que atenda àquilo de que a sociedade carece.

Fico mais para Geraldo Vandré. Eu falo das flores, mas mostro o canhão.












Luiz de Aquino é jornalista e escritor (poetaluizdeaquino@gmail.com), membro da Academia Goiana de Letras.



terça-feira, 27 de outubro de 2009

Luiz Fernando Prôa: Pai!


Eu com o poeta Luiz Fernando Prôa,
em evento no Bar-Teliê, Ipanema.


Luiz de Aquino






O homem falando ao Fantástico chamou-me a atenção pela densidade do discurso. Era um pai em desespero, e meus olhos não acolheram a figura, somente meus ouvidos captavam a dor do homem. O dia seguinte, a segunda-feira, anteontem, 26 de outubro, marcou-se pelos comentários. Em todos os lugares, comentava-se do pai que chamou a policia.

Luiz Fernando Prôa é o pai do Bruno. Bruno, 26 anos, é músico. Há anos, depois de tomar gosto pelo álcool, experimentou outras drogas, entre elas as drogas “pesadas”. Consta que, no último sábado, ele matou, por asfixia, Bárbara Shamon Calazans, de 18 anos, sua amiga (ou namorada).

O fato mexeu profundamente comigo. Agradeço a Deus, todos os dias, por ter conseguido criar a Elia Maria, o Léo e o Fernando distantes das drogas e apegados a princípios morais embasados no respeito ao próximo. E todos os dias peço a Deus que mantenha o Lucas na mesma linha de conduta. Amém! Essas frases, ouço-as todos os dias de muitos amigos. E ouço também outros muitos amigos a pedir forças a Deus para que consigam trazer de volta alguma ovelha desgarrada.

Em todos os tempos, sabemos, houve o choque das gerações. Nós, os nascidos nas décadas de 1940 e 1950, pagamos caro por termos reagido com mais vigor. Realizamos a tal “revolução sexual”, com o inestimável apoio científico-tecnológico dos laboratórios farmacêuticos que nos deram a pílula anticoncepcional. Criamos novos ritmos, novas danças, novos costumes e acreditamos nos princípios revolucionários de Educação de Summerhill, rompemos, ao educar nossos filhos, com os limites tradicionais (e nada tínhamos para pôr no lugar). Agora, nossos filhos sentem que é preciso impor limites...

Bem, não é propósito desta tarde, momento de produzir a crônica de quarta-feira, chorar sobre o passado e as falhas. Todos falhamos: pais, amigos, educadores, executivos, operários, artistas, autores de textos e de músicas, médicos, policiais, membros da Justiça e do Ministério Público... Mas falharam mais ainda os governos, em todos os níveis e em todos os mandatos. O imediatismo das campanhas nos anos pares, a busca feérica pelo voto (e, mais ainda, pelas verbas sem saber de onde vêm) vendaram olhos e taparam ouvidos. Mas isso não é Brasil, gente! É mundo. Ou melhor, é Mundo! Esta geração de reis, de primeiros-ministros, de presidentes, de ditadores e até mesmo de religiosos com poder político é a grande culpada. Culpada por omissão.

E, assim, volto a tentar falar no motivo. Não quero buscar, na vida do Luiz Prôa, o momento do erro. O instante da omissão. O instante a mais de sono que possibilitou a fuga de Bruno. Prefiro recordar a emoção do Luiz ante a notícia da gravidez de seu primogênito, o momento em que se soube o sexo do bebê, as lágrimas do pai ante o choro do recém-nascido. Quanta emoção, meu poet’amigo! Quantos planos, quantos versos, quantos projetos de vida! Sei que muitos foram alcançados (afinal, Bruno é artista), mas num dado momento a luz piscou, fez-se um escuro ágil, quase imperceptível, e a escuridão marcou seu ponto. A gente, então, esquece os sonhos e planos. Arregaça as mangas e vai a luta, tenta trazer de volta o que se nos foge, como um pescador insistente a esticar e recolher a linha. Mas filho, meu Luiz Poeta-irmão, não é peixe... Nem sempre a nossa habilidade é vitoriosa. E, num momento de blecaute outra vez, acontece a tragédia.

Há alguns anos, troco informações e versos com Luiz Fernando Prôa. E um dia, há uns dois anos, tivemos um primeiro encontro, um sarau no Bar do Adão, em Botafogo, Rio de Janeiro. Alguém disse meu nome em voz alta, Prôa ouviu e reconheceu-me ali, ao lado. Anunciou-me para um poema e o poeta Cairo Trindade anunciou-me como “um poeta da Academia Goiana de Letras” (Cairo estava surpreso: não viu em mim o protótipo do poeta-acadêmico, sisudo e parnasiano).

Foi só o começo. Luiz Prôa conduziu-me a vários saraus poéticos pelo Rio afora: Santa Tereza, Teatro Gláucio Gil, o Bar-Teliê em Ipanema e ainda aquelas rodas de poesia em torno da estátua de Carlos Drummond de Andrade. Prôa é, de fato, um poeta e um ativista cultural incansável, sempre com a câmera em punho, fotografando e filmando, declamando e arregimentando o “poetariado” brasileiro para os saraus cariocas.

A dor, meu amigo, não é só sua. É nossa. É dos pais e mães que sofrem. É a dor dos pais e mães que perdem filhos por balas perdidas, por ação de ladrões, por efeito das drogas ou pelos acidentes de trânsito. É a dor dos que, como você, perdeu um filho para mais um subproduto da coca. A dor, meu querido Luiz Fernando, é nossa. É dor de poetas que se irmanam com você.

O triste é sabermos que a nossa dor não reduz a sua.










Luiz de Aquino (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

domingo, 25 de outubro de 2009

Negociações


* além mar virgínia

Chronos, como pedir-te que amplies e dê-me, algumas horas a mais, Para que as quero ? Ora que pergunta implicante, creio não sou a única reclamante ... Ah! Diz-me que gasto-te levianamente . Estás certo, mas ouça meu argumento ; Sirvo a algumas atividades, entre estas à Poesia, o trabalho que me dá sustento, também sou filho, irmão, pai , jardineiro, amigo... Sabes, como não somos deuses, e vivemos entre humanos e para tanto tem-se que retribuir atenções, pescar outras, abrir o peito e, aí a coisa pega, ao abri-lo perdemos noção e tuas filhas horas, netos minutos, bisnetos segundos, nem todos eles dão conta do tanto que a mente e coração correm e, vão longe pois transforma-se em asas, nadadeiras, hélices e por aí afora, levando-nos à reminiscências e universos íntimos de proporções inimagináveis. Ah! Imaginas, então compreendes que para viver intensamente o sentido e decifrar o enigma de estar vivo, necessitamos de algum empréstimo. Estou com algum crédito, ou continuo em débito ? Devo recorrer a algum súdito ou representante ? Outro problema que exige algum adicional, porque apresentar-me diante a algum outro requer maquiagem, palavra concisa, correta, o que neste momento me falta...E por falar em momento esta conversa já engoliu alguns. Negociar, negociar...Estou bem cansada de fazê-lo e, com isso ocupo-me ante aos homens e exige, creia-me, bem mais delicadeza do ante a ti ...Empunharei alguma retórica que já esqueci onde guardei, em outra ocasião. Acontece frequentemente de esquecer onde coloco letra, papéis pouco utilizados. Desleixo, não meu senhor, cuidado ! Sim um equívoco, mas justifico; Sem viajar, no cofre não coloco, escondo entre livros, sob o tapete, numa gaveta e, como são tantos os esconderijos, como saber o que ia na mente num momento de estupidez e medo de que alguém revistasse os cômodos em busca das tais preciosidades...Desisto , o telefone já tocou quatro vezes, não atendi por estar contigo, o sol saiu, a campanhinha tocou, uma mensagem nova de E mail requer urgência e, ademais a música acabou...Não foi desta vez que surtiu bom resultado esta tentativa insólita de sensibilizar-te. Em futuro próximo encontro, prometo, virei mais bem preparada e, quem sabe com uma Poesia seduza-te, e me dês sem hesitar, um par de horas para ter com àqueles que me solicitam; deixei-os na sala de espera a algumas semanas , ou seriam meses...Decididamente, já era de meu conhecimento, que quando setembro chega, o ano engata a quinta marcha, os sinais de atenção desrespeita, ganha pista e decola feito supersônico ou algum jato ainda mais veloz ...

Nota- lembrando que a palavra crônica origina-se de Chronos
imagem Chronos -fonte internet - desconheço autoria da obra

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

O tempo e o tédio








Luiz de Aquino






A tarde levava o sol céu abaixo, lenta e persistente. O homem vinha de um almoço sem-graça, preguiçoso como a própria tarde. Não sorria, não via razão para isso; mas também não estava triste. Vivia, apenas. Esperando o dia que se arrastava para o próprio fim. O homem esperava a noite.

Existe isso de se esperar alguém, ou um outro tempo. A tarde, pensava o homem, não lhe traria nada. O jeito, pois, era esperar a noite.

– A noite é promissora. Alvissareira. A noite, ainda que solitária, é benfazeja. Já o dia, não. O dia é falso de princípios. Traiçoeiro. O dia é o tempo em que chegam as contas a pagar, os entregadores mal-humorados, os telefonemas de negócios. A noite é o tempo da bonança, tempo das mulheres enfeitadas, das boas músicas, das luzes coloridas. A luz do sol é um tédio – pensava o homem.

E assim, desinteressado das horas quentes da tarde sem-graça, saiu de casa. No carro, não ligou o rádio, driblou o tráfego das ruas e alcançou a rodovia. Fazia isso sempre que achava a vida sem atrativos. Ou os momentos em que a vida não lhe dava alegria. Tomou a pista à direita e, menos de um quilômetro depois, retornou e rumou ao norte.

Lembrou que aquele era um hábito antigo, dentre os vários que cultivava. Mas há tempos não o praticava. Viajar aqueles quarenta e dois quilômetros era o que fazia todas as vezes em que se sentia só. Ou seja, todas as vezes em que brigava com a mulher. Meia hora e lá estava ele, ao pé de Silvana, carinhoso e malemolente, cheio de palavras escolhidas e carinhosas. A moça retribuía as falas e carícias, desmanchava-se em dengos e, satisfeito, o sujeito tomara a estrada de volta.

Viveram seis anos assim. Seis anos e quatro filhos. Filhos que ele nunca registrou, alegava a situação de casado, impedido por lei de registrar filhos ultra-leitos. Silvana acreditava. Para ela, ele era um homem sábio, cheio de receitas e leis. Até um dia, porém. É que, certa vez, enquanto ele viajava com a família em férias, curtindo litoral, uma das filhas (eram dois casais) adoeceu.

Silvana costumava acioná-lo nessas ocasiões, e ele sempre cuidava de tudo. Mandava que levasse a criança ao médico, ele chegaria logo, logo, nada faltaria às crianças. Nada, a não ser a existência oficial do pai. O registro. O nome para constar nas carteiras de identidade.

O jeito foi ir ao posto de saúde pública.

A atendente conhecia a moça e as crianças. Sabia de sua história de vida. Pediu cartão, certidão, qualquer coisa assim. E só então soube que aquelas crianças não eram registradas. Silvana explicou que o pai não podia, etc. A moça da recepção fez uma cara de muxoxo. Em seguida, informou a Silvana que desde há muitos anos essa coisa tinha sido revogada, que qualquer pai podia, sim, registrar seus filhos.

Conversas mais, detalhes surpreendentes, orientações várias e Silvana saiu dali decidida. Buscou a Justiça, conseguiu registrar os quatro filhos e sumiu da vida do sujeito. Agora, vítima do marasmo de uma tarde de novembro de sol, lá vai ele. Sabe onde chegar... Vai ver Silvana. Sabe como conquistá-la, reconquistá-la. Certamente, teriam algumas horas de amor. Desta vez, não descuidará. Tomará cuidados para não engravidar a moça outra vez.

Chegou. Consultou tudo em volta. Viu luzes na casa. Chamou. Ninguém atendeu. Insistiu na campainha. Uma vizinha saiu à porta, reconheceu-o e contou, Silvana viajou pela manhã, a luz estava acesa para disfarçar. A moça e as crianças só voltariam daqui e alguns dias.

O homem foi embora. Um anjo chegou primeiro.











Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009


Goiânia: argamassa, asfalto e livros



Luiz de Aquino






O poeta Guido Dutra, brasiliense de Anápolis, envia-me um apanhado de fotos da Normandia. Não são fotografias comuns, mas flagrantes colhidos nos dias que se seguiram à ocupação, aquele que passou à História como “O Dia D”. O capricho está nas tomadas atuais, focando os mesmos cenários, nos mesmos ângulos das imagens de maio de 1945.

Senti-me triste. É que, nestes 46 anos de presença em Goiânia, cidade que festeja 76 anos de sua Pedra Fundamental (e há 72 anos tornou-se a sede do governo estadual), vi muitos prédios demolidos sem qualquer respeito ao que, no nosso caso, formaria a História visual da cidade. Pedro Wilson, quando prefeito, reconstruiu os jardins da Avenida Goiás, devolvendo a Goiânia uma de suas mais belas imagens. Na década 1970, o coreto da Praça Cívica foi transformado num monstrengo inexplicável, mas o prefeito Rubens Guerra o restaurou, recobrando a forma original. Penal que os vândalos o depredam várias vezes ao ano, e a Prefeitura tenta preservá-lo.

A França buscou restaurar a Normandia, após a Guerra Mundial, respeitando os prédios bombardeados, devolvendo-lhes as condições de habitação e proporcionando, outra vez, um belo visual. Em Goi... Desculpem! No Brasil, essa vontade fica apenas nos corações dos poetas e arquitetos sensíveis, porque existem os que preferem demolir tudo para construir outra vez, modernizando para enriquecer-se. Dói-me ver que uma propriedade do Exército Brasileiro, a casa onde viveu o marechal Cândido Rondom, no Rio (Rua Mata Machado, em frente ao Maracanã) é, agora, um esqueleto totalmente abandonado, quando devia ser um patrimônio histórico.

Se a memória física (patrimonial) não é preservada, a gente briga e se esforça para manter a história das pessoas. Como me empenhei no sentido de fazer valer a memória do contista José J. Veiga, que, vivendo fora de Goiás desde os seus vinte anos, deixou clara a sua vontade de ser lembrado na própria terra. E coube ao SESC de Goiás acolher e preservar seu acervo, a meu pedido. Antes, porém, amigos da desgraça tentaram destruí-lo. Os livros, móveis e objetos, depositados num cômodo de confortável e significativa casa no centro de Goiânia, foram parar no porão, para serem destruídos pela umidade e as traças. O SESC restaurou tudo.

Livros, livros... Já tivemos valiosas livrarias na cidade.Na Rua 4, o Bazar Municipal, da família Scartezini; na Rua 8, a Figueiró, dos Figueiroa; na Rua 2, e depois na Rua 3, a Livraria Brasil Central, depois a Universitária, a Planalto... Mas o Bazar Oió foi, seguramente, o mais emblemático. Era a livraria de Francisca Hermano e Olavo Tormin.

Lá pelo final de 2007, recebi e-mail de uma jovem, Lúcia Tormin Mollo, de Brasília. Neta do casal Francisca e Olavo, a moça concluía Jornalismo e desenvolveu o seu trabalho de conclusão no resgate da história da livraria, a única no Brasil que a famigerada ditadura dos generais linha-dura fechou no Brasil. Lúcia veio a Goiânia várias vezes, visitou escritores e ex-funcionários, ouviu professores e inúmeros amigos de seus avós. O trabalho ficou muito bonito, estimulei-a a publicá-lo, e o livro já está em ponto de lançamento, editado pela competência de Iuri Godinho, da Contato Comunicação.

Enquanto espero o lançamento, sigo minha rotina de escriba e futriqueiro das coisas de letras. Publiquei mais um livro, trabalho na conclusão de outros dois e tenho mais dois em andamento, enquanto sonho mais e mais. E atendo a quem me procura: escolas, veículos de notícia, colegas escritores, professores, curiosos...

Na terça-feira, 20, deste outubro, ou seja, ontem, a TBC, ou, como prefiro dizer, a TV Brasil Central publicou entrevista minha à bonita e ágil Michelle, repórter competente. Falei de escritores e procedimentos literários de uma Goiânia antiga. Antiga? Coisas de sessenta ou cinquenta anos passados, apenas. Goiânia atravessará alguns séculos para ser chamada de antiga. Entrevistas são ocasiões em que o entrevistado fala muito e acaba dizendo pouco. Por exemplo: citei dezenas de grandes escribas desta cidade, mas a edição não tem como publicar tudo. E, fatalmente, posso ter esquecido alguns nomes importantes – tal como posso, nesta crônica, omitir livrarias de peso na vida da cidade –, mas penitencio-me sem culpa. Outros cobrirão minhas falhas.

Nestes dias de festa, a semana em que o 24 de outubro se insere, presto humilde e individual homenagem à cidade que invadi naquele agosto de 1963, com uniforme do Liceu. Beijo seu cenário e seu passado de valorosos construtores, sejam eles de casas e ruas, de educação e finanças.

Ou ainda de poesia, música, pincel e tinta.Livros!








Luiz de Aquino é escritor e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Águas e a Poesia -a que se canta e a que se vive...

20 de Outubro, Dia Nacional da Poesia...Permito-me vagar em reminiscentes águas poéticas e transitar pela Poesia, a que se canta e a que se vive...

Ah, se lembrassémos da infância inventada como menciona o Poeta Mário Quintana, em sua obra Sapato Florido ... Quem já não sonhou riachos no fundo do quintal? Quando menina desejei ter sido trocada por uma prima que vivia no interior, ela sim possuía tais tesouros à mão e vista. Todas manhãs poderia, se assim quisesse, ter ido banhar-se em límpidas águas, colher da relva a Poesia, mascar lentamente o hortelã que vento semeia na terra logo que esta desperta...Um barco teria tido pronto à partida se ela eu fosse. A prima como eu, tornou-se professora, mas a a mim restou construir minha nau e lutar pelos sonhos através de versos sem fim, larguei o magistério logo cedo, que ela levou adiante assim como maternidade, matrimônio e diretoria de escola mas e a Poesia ? Soube que bem vive em sua terra natal que o arroio é conservado, que curte com os seus , nos finais de semana as nobrezas que preciso ainda muito navegar para contemplar. Realizei sonhos de viver em ilhas, conhecer o Planalto Central, a Chapada dos Guimarães, terras indígenas, rincões, caatinga, lagoas , a Cidade Maravilhosa e, das águas além mar sorvi algo bom... No mar da internet conheci Vâninha Moreira Diniz, que veio substituir minhas primas queridas e, de Poesia vestiu-se minha vida a partir do nosso encontro, a quase uma década.Ontem uma paciente contou-me um sonho bonito; estava em seu barco azul enfrentando corajosamente guinadas, apesar de quase um anel ter perdido...

Ah, trocaria todos tesouros da terra por entre as brumas, em sonho colorido ter renascido, com uma cabeleira de algas e, que ousasse nelas perder-se algum Poeta , este que delicadamente então. entre páginas de sua vida e versos, medeixas minhas guardaria...

Devaneio à parte, pergunto-me; quais são as infâncias inventadas de hoje, o que habita os corações das meninas ? Em seu imaginário ainda existe riachos, cantigas de alvoreceres entre as flores e, o desejo de um barco possuir para sair dos confortáveis shopings centers ? Por Poetas suspiram ? E os meninos ainda desejam pescar futuros em estrelas marinhas, navegam em barcos sem fundo para mirar constelações ?
Ando desatualizada... Mas creio que enquanto houverem mestras como minhas primas,( sua irmã também apesar de aposentada continua a prestar serviços às escolas locais e a comunidade ), mulheres modernas guerreias, que não se deixaram seduzir pelas maravilhas das megalópolis , a Poesia ingênua , aquela que canta as belezas naturais resistirá e, no seio da terra nem todas infâncias mais belas serão só as inventadas , haverá memória a ser poetizada ... - Um pouco do possível senão sufoco - deleuze -
Pois é , hoje 21 de outubro aniversaria a Poetisa Vâninha M.Diniz (que entre as amigas da idade adulta , está na minha lista de esperanças de que a literatura iniciará ainda e sempre através dos versos...
Saindo da Prosa e adentrando à magia passo a seguir , estrofes do Poeta Arthur Rimbaud, extraídas de sua obra Barco ébrio- Bateau ivre, aproveitando para celebrar junto ao Dia Nascional da Poesia o dia de nascimento deste Poeta ocorrido num 20 de outubro também., deesejando ardentemente ,que hajam Poetas, águas e apreciadores da Poesia não sómente em datas especiais, mas que dela
sirvamo-nos em abundância pois que a linguagem poética é a que mais aproxima os corações humanos; através dela a humanidade fala !

(...) Vislumbrei siderais arquipélagos! ilhas
De delirantes céus se abrindo ao vogador:-
Nessas noites sem fundo é que dormes e brilhas,
Ó Milhão de aves de ouro, ó futuro Vigor? –
Certo, chorei demais!
As albas são cruciantes.
Amargo é todo sol e atroz é todo luar!
Agre amor embebeu-me em torpores ebriantes:
Que minha quilha estale! e que eu jaza no mar!
Se há na Europa uma água a que eu aspire, é a mansa,
Fria e escura poça, ao crepúsculo em desmaio,
A que um menino chega e tristemente lança
Um barco frágil como a borboleta em maio.(...)A. Rimbaud -20 outubro 1854, Charleville 10 de novembro 1891, Marselha)
ilustrações 1- Vladimir Kush -(Moscou, 1965 vive em Los Angeles EUA
2- foto virg Chapada dos Guimarães 1979