quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Linguagem que aproximam


em tempos marcados por
dissonâncias afetivas
divagações filopoéticas

ao meu filho e aos amigos Athur ML e Lao

"A vida sem música é um erro, uma tarefa cansativa, um exílio”F. Nietzsche In Assim Falou Zaratustra


Encontros deram-se através das paixões comuns tais como a música e filosofia, às afinidade pré existentes agregaram-se outras, isto aconteceu tanto em relacionamentos reais quanto nos virtuais, mas é sobre este últimos que atenho-me com mais acuidade nos parágrafos a seguir.O diálogo virtual proporcionou e proporciona aprofundamento no mundo das idéias, leituras e universos pessoais encontram-se, tangenciam-se no invisível atemporal. O interior se faz compreensível através de diversas linguagens. Como explicar aproximações fulminantes? No virtual uma memória de futuro antecipa-se aos fatos e nele mesmo devires são permeados de intuição, esta que está contida na escrita onde o rítmo , musicalidade íntima deixa-se perceber.
Busquei expressar em palavras recentemente; Do invisível -A música parceira de todas horas preenche a atmosfera com as cores da alma... Entre ausências imagens, sons -mar-rítmos movem meus cataventos ...Antecipa-se ao pensamento todo sentir, ou seja a emoção é primordial à razão, esta estando à serviço da primeira. Tentamos explicar racionalmente, através da linguagem, que é pensamento o sentido, incomensuravelmente maior que o vocabulário existente e disponível. O corpo tem sua própria linguagem, na teatrealidade expressar-se, toda arte é tentativa de fazê-lo e, quando impossibilitado compõe patologias...Entre as "loucuras" inclui-se a busca de sentido a tudo que nos acontece, a vida talvez não tenha sentido , mas é certo que o que sentimos por vezes causa espanto devido as proporções que os sentimentos tomam .
Talvez o que haja é o inexplicável e inexpressibilidade e, que assim continue até o último dos dias, contudo intentar compreender e expressar é nos peculiar. Por ventura aceitamos as inúmeras interpretações possíveis aos acontecimentos?Permitimos, admitimos singularidades filosóficas, abertura ao pensamento que buscar criar conceitos que descrevam percepções... ?
A Poesia, enquanto arte, permite-nos a liberdade expressiva que outras áreas do conhecimento humano impedem, além de não requer outra instrumentação que o corpo do Poeta escrivinhador...
Gosto de crer que atraímo-nos consoante aproximações entre nossas leituras individuais do mundo, este que nos cerca e permeia.Por motivos que não sei explicar a não ser pela intimidade ocorrida muito cedo, desde que tenho lembrança de existir, com audição musical dos clássicos, música erudita, instrumental em geral, incluindo as composições medievais, incrivelmente belas, em detrimento ao popular , tornei-me ouvinte sensível e não por questão de erudição musical. O gosto viria da alta freqüência vibracional que as notas atingem transcendendo o palpável, o vivido, resgatando o elo dos sentidos universais ? ...A música é linguagem universal. Através dela o especial torna-se visível...Com este devaneio um pouco longo e talvez desinteressante pretendo ilustrar a profundidade que algumas aproximações atingem. Ocorre que a palavra magia vem à mente em certas ocasiões.Das Articulações Invisíveis - nos silêncios mais íntimos das madrugadas/ no pulsar da chama acesa na audição solitária de Bach /no mais ermo recanto da terra /o mistério nos aproxima/ águias, pombas, gaivotas/seres do silêncio a quem nada escapa /ouvido atento aos chamados dos ventos/ah! nós que ouvimos um pouco /cremos nas flautas/nos tique taques nos assovios /a menor dissonância / atentos /em nós sempre um berço /um terço a mais pianiedade...O conceito pianiedade criei nos idos de 1979, para dar conta de encontros de intensidade semelhantes onde parece que são as infâncias ( in fante que não possui fala ) que dialogam utilizando a linguagem primordial - a música possibilitando entendimento capaz de superar dissonâncias que linguagens outras apresentam. De maneira que quando em pianiedade o encontro se faz, acontece , silêncios e verbo harmonizam-se abrindo portas ao infinito...Tido como de conhecimento amplo é o efeito benéfico que a música exerce sobre os seres vivos não somente ao homem, existem vários estudos sérios a respeito.A música é som com harmonia e ritmo, mas fisicamente trata-se de energia cinética, energia em movimento ligando cada nota em seqüência e formando a linha melódica. Essa energia cinética determina a ressonância fazendo com que outras coisas ressoem em uníssono, entre esta o organismo. A ressonância que ocorrer sobre a matéria orgânica faz com que os ritmos vitais naturais das células, dos tecidos e dos órgãos sofram alterações, entrem em ritmos especiais e isto pode se refletir em algum tipo de desequilíbrio ou de equilíbrio que irão se refletir sob a forma de doenças ou como saúde.
Aos que encontram na filosofia de Nietzsche uma identificação e , ou gostariam de mais conhecer sua relação com a música , há um excelente Livro a consultar intitula-se , NIETZSCHE E A MÚSICA de Rosa Maria Dias.
Boa pedida é rever Dias de Nietzsche em Turim , de Júlio Bressane- um filme sensorial, que não deixo poeira sentar, há cenas extraordinariamente belas - diria ...um ode à vida !
Finalizo com as sábias palavras do filósofo tão querido, que a mais de quarenta e tantos anos, tem sido amigo de cabaceira e, companheiro em ocasos e auroras mais pungentes..." temos a arte para que a verdade não nos destrua"
Ilustrçs. Piano Vladimir Kush Moonlightsonata
Músicas de relax e classicas aqui

sábado, 5 de dezembro de 2009

Parque Carmo Bernardes


Parque Carmo Bernardes


Luiz de Aquino


Maestro Joaquim Jaime, regente da Orquestra Sinfônica de
Goiânia, na inauguração do Parque
.


Estive duas vezes, nos dias 27 e 29 de novembro, no Parque Carmo Bernardes, obra municipal que valoriza substancialmente o Parque Ateneu. Em ambas, fui acolhido com a gentileza do presidente da Agência Municipal do Meio Ambiente, Clarismino Júnior. A imprensa, alvo daquele primeiro encontro, a dois dias da inauguração oficial, noticiou com fartura os dados, imagino que só faltou o número de árvores existentes (as de replantio, certamente foram notícia).

Não me cabe fazer ressoar a estatística. Prefiro a análise emocional do cidadão anônimo e a emoção do poeta. Imaginem: privei da amizade de Carmo Bernardes, fiz dele meu exemplo a seguir, dei ouvidos a sugestões suas e candidatei-me duas vezes a uma vaga na Academia Goiana de Letras: na primeira, disse-me ele, iria lá votar em mim, mesmo doente, caso seu voto me fosse indispensável.

Vislumbrei que Isócrates de Oliveira me derrotaria e não insisti com meu ídolo. À vaga seguinte, não concorri; preferi ver Eurico Barbosa ascender à imortalidade e obtive dele apoio para a próxima ocasião, e essa veio-me de modo triste: faleceu Carmo Bernardes. E fui eleito para a Cadeira 10.

Em meus arquivos, encontro dezenas de textos em que cito o velho mestre. São passagens em matérias jornalísticas, crônicas e outros relatos. Resumo recordando que, quando lecionava no Colégio Estadual Dom Abel, entre 1968 e 1970, fui professor de três de suas cinco filhas. Isso nos aproximou e concedeu-me a liberdade de, declarando-me seu leitor, comentar os artigos, contos e crônicas de sua lavra publicadas no semanário “Cinco de Março”.

Eu e Clarismino, presidente da AMMA.


No dia do meu aniversário, este ano, enviei a Clarismino Júnior o texto que me foi pedido para ser inserido na lápide sob o busto do escriba patureba (sim: Carmo nasceu em Patos de Minas, mas veio para Goiás antes dos cinco anos de idade e tornou-se um dos nossos mais legítimos regionalistas). Costumava dizer-me ele que não era bom ficcionista, nem sentia falta do esforço da imaginação, pois a vida vista e vivida eram munição bastante para muitas vidas, se lhe fossem permitidas, de farta produção literária. E foi ele, certamente, dos mais ricos detentores de palavras e falas dos nossos camponeses.

Parênteses: explico aos mais moços a palavra “camponês”: é o mesmo que sertanejo, caipira ou roceiro. A expressão era relativamente comum no nordeste, mas no período democrático entre 1945 e 1964, surgiram por lá as tais “Ligas Camponesas”, um dos alvos dos golpistas da “revolução”, carimbadas pelos caçadores de bruxas como comunistas. Por ter sido proibida ao longo de vinte e tantos anos, a palavra caiu em desuso, apesar de sua bonita sonoridade.

Se Deus me der vida, escreverei ainda muito mais sobre Carmo Bernardes, além das minhas crônicas, meu discurso de posse na AGL e as matérias de jornais em que enfoquei o grande goiano nascido em Minas (aliás, são muitos e muitos milhares os grandes goianos nascidos em Minas... Minha mãe inseriu-se aí). Prefiro, agora, repetir o que escrevi para o busto de matuto letrado:

“Carmo Bernardes, intelectual profundo.

Carmo refutava o academicismo que “não mergulha”, aquele que “só faz análises de superfície”. É ele o escritor de todas as águas – as límpidas e as turvas, as profundas e as do espelho de céu e nuvens, as plácidas e as de cachoeira. Perfeccionista na linguística e na gramática, aplicava com maestria as regras do bem-escrever ao linguajar simples e vasto das gentes e lides do campo. Enfim, um homem denso e simples, rico e despojado.

Luiz de Aquino Alves Neto

(Sucessor de Carmo Bernardes na Cadeira 10 da Academia Goiana de Letras)”.

A população do Parque Ateneu e adjacências está feliz. E de parabéns. O mérito, porém, é das equipes do prefeito Iris, especialmente a do ambientalista Clarismino.

O busto de Carmo, a placa e eu, envaidecido pela

oportunidade de homenagear meu amigo e antecessor.



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço. E-mail: poetaluizdeaquino@gmail.com

sábado, 28 de novembro de 2009

Oió, a livraria

Oió, a livraria




Beatles, blues e ieieiê. Para quem gostava de vogais, tinha também AI-1, AI-2 a sequência, sendo o “cinco” o mais famoso deles. A tal de “revolução”, que se anunciou no dia primeiro de abril de 1964, gostou do poder e resolveu ficar, “elegendo” o segundo presidente pela via indireta e deixando indícios de que ficaria por muito tempo, ainda.

Costa e Silva, o marechal que chamei aí em cima de “segundo”, idealizou o tal de AI-5 e reinou até ser deposto (por uma doença ou pelo triunvirato que fez a ponte para Médici). Ao mostrar sua maior obra ao ministério, colheu do coronel Passarinho essa pérola: “Às favas com os escrúpulos”. E, assim, passaram eles à História.

Ainda não tínhamos, no Brasil, um sistema eficiente de comunicação à distância, felizmente. Se o tivéssemos, talvez a coisa ficasse bem pior. Mas o sistema tinha seus títeres e lambe-botas. Estes, como o bem e o mal, estavam em toda parte. Os de Goiânia já haviam dedurado muita gente. Daí, a prática do beija-mão ante os coturnos sem alguém a quem entregar na bandeja que já contivera a cabeça de Salomé.

Numa reunião (sim, meus jovens, não são só os petistas que gostam de reunião... os caça-bruxas também gostavam), alguém citou, “en passant”, o Bazar Oió. Alguém mais no grupo, certamente mais à direita que o próprio embaixador norte-americano que financiou o golpe de 1964, resolveu indignar-se: o Bazar Oió, a charmosa livraria de Olavo Tormin, parecia-lhe um reduto de esquerdistas, terroristas e comunistas, um acinte ao regime e à gloriosa Revolução redentora.

Claro que essa tal reunião é imaginária. Mas tudo indica que tenha havido, sim. Afinal, numa outra, ainda em 1964, e pelo mesmo grupo (é bom frisar que o grupo era constituído de civis simpatizantes à ditadura), decidiu-se por eliminar a tiro um dos companheiros. E o escolhido para morrer (obviamente ausente à reunião) era um jornalista adversário do governador Mauro Borges. Assim, acusariam o inquilino do Palácio das Esmeraldas de assassinato e a “revolução” o apearia do poder. Por coincidência, na noite em que o jornalista seria morto, Castelo Branco, o marechal presidente, assinou a destituição de Mauro.

Pois bem: como não foi necessário matar um dos seus, o grupo, feliz com as medidas do arbítrio, resolveu partir contra o Bazar Oió. Fuxicaram uma história de corrupção, de apropriação do dinheiro público, e acusaram-no, envolvendo outras pessoas igualmente de bem. E o Bazar Oió, que ponteou a vida goianiense desde 1953, acabou fechado definitivamente em 1974. Os bens de Olavo e de sua família foram sumariamente tomados e incorporados ao patrimônio da Caixa Econômica Federal. A família preservou a unidade, apesar da desgraça a que foi condenada para o prazer mesquinho de uns poucos que (estes, sim) locupletaram-se ao longo das duas décadas de ditadura.

Esta é a minha visão de um fato, de uma instituição cultural e de uma família. É incompleta, portanto não equivale à verdade exata, mas esta, a meu ver, é algo utópico, inatingível. E uma boa parte dessa história é contada no livro “Bazar Oió – a ditadura contra a livraria”, da lavra de Lúcia Tormin Mollo, neta de Olavo e de Dona Francisca Hermano Tormin.

Na mesma noite, lancei, em Goiânia, o meu "Meia-Ponte do Rosário, Pirenópolis, ao lado da jovem e talentosa Lúcia Tormin Mollo (Foto: Sinésio Dioliveira).


O livro, lançado na Academia Goiana de Letras na sexta-feira, 27/11, tem o poder de nos conduzir aos bons (primeiramente) e, depois, aos tristes anos das décadas de 1950 e 60. Depois, veio a fatídica idade-média de Médici. E as alegres vogais de antes deram lugar ao canto duro e linear da tal de ordem-unida, seguida do som horripilante dos cascos juntados em obediência ao terror de Estado.


Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com)

Nota do autor: Mantive, neste texto, os hífens na conformidade da antiga regra, pois tenho dúvidas sobre os ditames do acordo unilateral ortográfico. L.deA.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

SOBRE POEMAS E LEMBRANÇAS (pinheiro neto/nov/09)


 Soninha Porto e Pinheiro Neto na Feira do Livro em Porto Alegre 
Nov/2009




doEU demais deixar Porto Alegre no dia 06 de novembro passado. Embora trouxesse comigo os rostos, as lembranças, as conversas, os planos, as risadas e os muitos chopes, além das duas caixas da coletânea “Poemas à Flor da Pele”, a sensação de “quero mais” permanecia.


Foram dois dias intensos de convívio literário e artístico. Novos amigos, novos projetos, novas promessas. Amigos de outras Feiras e de outras épocas e o revisitar de novas perspectivas e parcerias.


Rever, conversar e novamente fazer planos com o meu amigo e emérito professor Francisco Camargo Neto. Conhecer pessoalmente Soninha Porto, coordenadora do movimento da “Poemas”, batalhadora cultural e autora do livro de poemas doEU; Raphael Pacheco, promessa de boa poesia; Claudete Silveira, com toda sua sensualidade poética, dentre outros e outras, além da performance maravilhosa de Maria Flor da Pele, personagem criada pelo ator Marcos Bahrone, com declamações de textos de vários poetas brasileiros.


Já havia participado da Feira do Livro de Porto Alegre em várias edições anteriores. Três dos meus sete livros, além de algumas coletâneas, tive o prazer de lançá-los através dela. Escritores gaúchos de renome tive o prazer de conhecer através dela: Moacir Scliar, Lia Luft, Antonio Hohlfeldt. O grande poeta gaúcho Mário Quintana tive o prazer conhecê-lo após passar boa parte de uma tarde conversando com ele num banco da praça da Alfândega na Feira do livro de 1988 ou 89, não lembro bem.


Esta 55ª edição da Feira, entretanto, teve outro sabor: um sabor anunciado pelo perfume que misturou poemas, flor, pele, amizade, confraternização, identificação e chope: o sabor de Poemas à Flor da Pele.

Crônica postada no site da Poemas à Flor da Pele pelo autor
http://poemasaflordapele.ning.com/group/minhascrnicas

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

UMA SOLUÇÃO PARA UM MUNDO MELHOR

Ivanaldo Xavier


Toda virada de ano é a mesma coisa: o que fazer para termos a garantia de um ano melhor? Pra começo de conversa, cheguei a pensar em fazer algumas simpatias populares. Pensei que seria interessante comer tantas uvas quantas fossem necessárias e guardar as sementes comigo durante todos os 365 dias deste novo ano, mesmo que para isso fosse necessário andar com um saco cheio nas costas, feito um papai Noel.


Seria meio ridículo, para não dizer ridículo e meio, eu, que sempre andei com sacos na frente, colocar um saco nas costas e ainda por cima, cheio. Desisti. Não seria melhor, então, pular ondas do mar? Seriam sete ondas, mas estaria disposto a pular tantas quantas fossem necessárias para que o mundo tivesse paz, as pessoas tivessem saúde e o país prosperidade, minha cidade conseguisse maior desenvolvimento preservando o meio ambiente, a sua memória e a segurança de uma cidade interiorana.


Pular ondas talvez, também, não funcionasse, pois atrás das sete ondas puladas viriam outras tantas e quem poderia afirmar que pulei as ondas certas. Naturalmente, pular ondas tem o significado místico de pular o azar, pular o mal, pular as coisas ruins que pudessem vir a acontecer em 2010. Mas quem poderia afirmar que eu não estaria pulando exatamente as boas ondas?


Acredita-se que a crendice popular pode mudar o nosso futuro com estes atos, bem simplórios, é claro! Talvez uma coisa mais exótica funcionasse melhor, como por exemplo: as sementes da romã. Chupar gomos de romã e guardar sete sementes poderia me trazer sorte e fazer melhor o ano de que está vindo. Sei não... talvez fosse melhor plantá-las por ser uma planta reconhecidamente medicinal.


Deve existir algo mais eficaz! O ser humano, com toda a sua sabedoria, deve ter encontrado algo mais inteligente do que estas simples simpatias que ridicularizam o próprio homem, fazendo-o crer em coisas banais. Uma semente qualquer pode mudar alguma coisa se for plantada, pois ela gera uma árvore que dá frutos e mata a fome.


Deve existir algo que realmente mude o mundo para melhor. Algo que tenha a força de um furacão, sem ser destrutivo. Algo que jogue fogo como um vulcão, mas sem queimar. Algo que seja maior que os oceanos, mas sem ocupar o espaço que eles ocupam. Deve existir esse algo especial e deve estar escondido dentro do próprio ser humano.


Algo muito mais forte me leva a acreditar que nós podemos nos apegar a outra crença, mais intensa, mais possível e passível de mudar o mundo. Algo que faz parte da natureza, até mesmo humana. Algo que evitaria o apertar dos botões que acionam as armas de destruição em massa. Algo capaz de nos fazer estender a mão até mesmo para os nossos supostos inimigos. Algo que faz com que os corações magoados tenham a capacidade de perdoar quem os magoou.


Acredito em uma força que todo ser humano traz no coração, algumas vezes adormecida, e não se trata de nenhuma crença religiosa! Algo superior que habita todo coração, mesmo aqueles mais duros e sofridos. Algo maior que os oceanos e que não ocupa espaço físico algum, mesmo tendo uma dimensão incomensurável. Um sentimento chamado amor e que pode mudar o mundo, tornando-o muito melhor, não apenas neste ano que já está próximo, mas em todos aqueles que virão.




sábado, 21 de novembro de 2009

Todas as cores do mar


Camilo Mota



Soube, através de um amigo, que outro amigo o questionara do porquê de eu ter me mudado para Saquarema. O que eu vira nessa cidade, tão pacata, tão à beira do Oceano Atlântico? A água, o mar, o céu, o sol e suas cores, aqui, parecem ter me cativado de uma maneira diferente de outras terras. O sol nasce manso pela manhã, e mais tarde se põe em cores variadas além das montanhas, refletindo um adeus iluminado nas ondulações da lagoa... ele diz em seu quase silêncio de luz que a vida é enorme quando contemplamos a nossa pequenez. E também as pessoas com seu jeito solar, quente, de falar amigo. Alguma coisa mineira, de antanho, me faz olhar esse mar com admiração.

E não a mim apenas isso tudo é cativante. Pois que o professor Latuf Isaías Mucci foi mais além e derramou em versos tudo o que sente acerca desta terra ainda admirável, com suas ondas, surfistas, cores feitas em molduras de gente. Mineiro como eu, veio ele ter em Saquarema o encontro mítico e real. Assim como Manuel Bandeira exaltava uma Pasárgada para onde poderia se refugiar e encontrar o ápice da vida em seu máximo prazer, também Latuf o faz, mas num sentido concreto: ele não busca a terra mítica, pois que já encontrou a terra real de seus sonhos. Em “Águas de Saquarema” (Saquarema, Tupy Comunicações, 2009), o poeta revela um amor tal pela região que o acolheu que, à maneira dos românticos em relação a suas amadas, recolhe em versos as sensações e sentimentos que norteiam sua vida sempre em direção à coisa amada. Torna-se, camonianamente, o amante na coisa amada? “Fora de Saquarema / Sou / peixe com mágoa / pássaro sem paz / ave avessa / exilado poético / asilado ilhado / (...) Fora de Saquarema / Nenhum zen me segura”, revela o poeta em sua “Canção do Idílio”, como um Gonçalves Dias pós-moderno a exaltar a falta que lhe faz sua amada pátria, cujos sabiás fazem verdadeiros ninhos na alma. E reforça sua relação com a terra, firmando raiz: “Não me vou mais embora daqui, / nem que me arrastem pelos cabelos / que já perdi há muito na cidade” (“Radicalmente”).

A proposta de Latuf poderia cair no lugar comum. Afinal, fazer um livro com uma temática de grande exaltação e paixão por um local em particular é um desafio. Mas aqui revela-se um mistério, que faz parte da alma do poeta e também de Saquarema. Há vibrações tais nessa terra em que a natureza se expressa de forma tão dinâmica, que ela própria se mostra constantemente em oferenda para a inspiração de cantos de amor, como os cantados por Latuf. E ele faz jus a esse chamado. Tal qual o marinheiro que se deixa inebriar pelo canto da Iara, Latuf navega nos cabelos de Iemanjá, surfa as ondas, e mostra-nos uma leitura extremamente lírica e zen do mar, um dos principais personagens do livro. “Os meus velhos olhos / nem se cansam de sonhar / estas ondas antigas / vagando em cantigas, danças densas” (“O mar, o mar”). O poeta não cai no lugar comum. Sua “face líquida” vai se moldando a cada novo encontro com sua amada. Antes, apela à simplicidade para dizer de seu amor, de sua valorização da vida, das pessoas, do afeto. É isso: Saquarema é um grande afeto na vida do poeta. E ele, qual um girassol caeiriano, se volta para o brilho dessa luz que se lhe revela a cada dia de uma maneira nova.

Há que se ler o livro de Latuf como quem saboreia as ondas, ou como quem sente a tessitura de uma folha de orquídea ou, ainda, como quem chupa uma suculenta manga em pleno verão. Seus versos em “Águas de Saquarema” são leves, para serem levados pelo vento fresco, pelo hálito de palavras ditas com amor, simplesmente com amor.


Camilo Mota é natural de São João Nepomuceno-MG (1965), reside em Saquarema desde 2003. É editor do Jornal Poiésis (www.jornalpoiesis.com), membro titular da Academia Brasileira de Poesia, e membro honorífico da International Writers and Artists Association (IWA).

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Novembro de letras




Luiz de Aquino






Novembro , novembro... Mês do golpe de Deodoro contra seu protetor Pedro II; mês da “intentona” comunista de 1935 (há quem diga que aquele golpe foi um factóide getulista para justificar o plano do Estado Novo), mês da tentativa dos militares da linha-dura contra a posse de Juscelino, em 1955. Para alguns supersticiosos, novembro é “um agosto retardado”. Para mim, mês de bons e maus acontecimentos, mormente se levarmos em conta que o que me parece mau é bom para os que pensam do outro lado do círculo.

Tenho grandes e queridos amigos nascidos em novembro, e isso nos enseja momentos festivos e felizes. Novembro 19, aniversário de Iná (minha prima e primeiro amor quando sequer chegara à adolescência), de Paulo Fernando (irmão escolhido) e de Gisele , linda e cronista. Dia em que a República abriu mão da bandeira que usou por quatro dias e que se tornou símbolo do meu Estado, Goiás. Foi num 19, há quatro anos, que publiquei o meu “As uvas, teus mamilos tenros”, pura poesia erótica.

Infelizmente, dois dias antes, a pianista professora compositora e mulher maravilhosa, a mais importante dentre todas as pessoas nascidas nesta terra mesopotâmia Brasil Central, Belkiss Spenziere, fechou os olhos, negando-nos sua luz. Mas cuidou muito bem, e muito antes, de legar-nos sua arte e seus exemplos de Ser Humano que merece ser referida com iniciais maiúsculas.

Felizmente, há o 18, data de Dona Lousinha, professora-símbolo que há seis décadas é referencial da Educação em Goiás. Claro está que, nos últimos vinte anos, tendo feito por merecer, Dona Lousinha dispensou o giz e as coordenadorias, as diretorias e os horários, mas continuou a ensinar-nos valores de vida, como é da praxe de quem faz jus ao título. Dona Lousinha, este ano, concluiu o seu 89º ano de via, ou seja, já exerce o nonagésimo, no modo como deveríamos contar a idade. A ela, que gerou tantas pessoas encantadoras, o meu beijo de agradecimento. E bem lhe premiou Deus com tais filhos, com quem festejo essa preparação para a fase nonagenária, resumindo-os na pessoa da poetisa Leda(ê) Selma.

E já que me despedi dos fatos tristes, festejo mais aniversários. Meu primo, Antônio Cupertino, e a comadre mui querida Celestina, ambos do dia 13; o poeta, professor, publicitário e doutor em Literatura, Goiamérico Felício, dia 11; meu sobrinho-afim e afilhado em Deus, Rafael Granja, 28; e seu pai Cícero, 22, o mesmo dia da prima e comadre Teresinha Craveiro... Vou parar, porque não tenho cacoete para colunista social e já fico injusto com aqueles a quem não citei. Como não consigo falar nem escrever sem citar minhas paixões, cá estou de volta ao mundo das letras.

Dia 26, meu conterrâneo caldas-novense e irmão de ofício Delermando Vieira tomará posse na Cadeira 26 da Academia Goiana de Letras. O poeta, o mais premiado na história das letras de Goiás, com mais de uma centena de vitórias em diplomas, troféus, medalhas e pecúnia, talentoso e competente, deveria estar na AGL há muitos anos. Mas foi, muitas vezes, “aconselhado” por falsos amigos a adiar sua pretensão em favor de outros, alguns sem os quesitos óbvios para integrar um sodalício de Letras, mas preferidos por seus papéis de realce no meio político e social.

Enfim, o dia de Delermando! Ele é muito bem-vindo à Casa de Colemar.

Ah! Também lá, no casarão da Rua 20 com a Rua 15, na sexta-feira, 27, às 20 horas, farei dobradinha com a jovem e talentosa Lúcia Tormin Mollo. Ela vai lançar seu livro de estréia, “Bazar Oió – A ditadura contra a livraria”. E eu, devo autografar o meu novo livro, “Meia-Ponte do Rosário, Pirenópolis”. Esperamos lá todos os meus leitores, os de livros e os de jornal.











Luiz de Aquino – poetaluizdeaquino@gmail.com – é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.