Três poetas em conluio
Luiz de Aquino
Abstenho-me de contar quotidiano, de analisar fatos e façanhas. Hoje, resumo meu texto a um poema decorrente, produto da leitura de dois poemas, dois poetas. E aqui vão as nossas vozes, a começar pela professora e poetisa Sílvia Neves, de Porangatu, Goiás:
Silêncio
No silêncio da cidade pacata
Aguça-se a percepção
Da melodia da existência
Contrapondo-se à essência
Na noite não se ouve ruídos
Enquanto o corpo descansa
A mente grita a ausência
Do barulho cotidiano:
O disse-me-disse
Da injustiça muda
Do desejo reprimido
Do suor expelido
Da doença que abrasa
Do desempregado sem casa
Do idoso que chora
Do visitante que vai embora
Do homem sem dentes
Da dama cega ardente
Do cavalheiro surdo
Da boiada no sol quente
Do som do berrante
O cansaço do estradeiro
Do mendigo errante
E a labuta do boiadeiro
Da moça que namora
Um amor que aflora
Com rapaz anda de bonde
No jogo do esconde- esconde
Da mulher que trabalha
No varal roupas anis
A animação do cachorro
Meio ao canto dos bem-te-vis
Do zunzunzum do mosquito
Um bando de periquitos aflora
Um despertar pelo canto do galo
No frescor da afetuosa aurora
No silêncio
A vida prossegue
Numa luta sem voz
Suave..
Atroz...
E aí vem Brasigóis Felício, poeta em tempo integral, analítico em profundidade das coisas humanas, incluindo-se a múltipla alma do poeta Pessoa...
Queria ser como
o Esteves da tabacaria
- sem poesia
e sem metafísica. Não como
Fernando Pessoa, o poeta,
que lá ia comprar
o seu fumo e a sua palha.
Olharia a pedra
e veria a pedra
e não uma forma imóvel
do rosto de Deus.
Se eu não fosse tão cheio
de certezas, tão carregado
de livros e medos,
seria simples e humilde,
como os que renunciaram
à vitória e à derrota.
Sabendo que a verdade
é uma terra sem caminhos,
seria tão silencioso
como as folhas na relva,
ou a solidão da neve
ou tão vasto como as aves
que não precisam de escadas
para voar na amplidão do céu.
Passaria a vida entregue
à minha desimportância
a fumar minha cigarrilha
na calçada do nada,
dando bons dias aos passantes
sem me sentir consumido
pelas moendas do tempo.
Passaria pelos dias
sem lamentar a passagem
da vida que viria
se tudo não tivesse dado em nada
como tudo dá, quando tudo acaba.
Seria um ser
tão sem destino
que todos os caminhos
levariam a quem Eu Sou.
Passaria pelos outros
mortos vivos como eu
indiferente ao vazio em que vivem
sem ter que cumprimentar os vizinhos
por mero protocolo
de civilizado aparente.
Não seria tão irônico e sibilino
como um cão filosófico
a vagir teorias pós-tudo
como animal raivoso a rosnar
em defesa de seu osso.
Se eu não fosse tão cheio
de certezas, tão carregado
de livros e medos,
seria simples e humilde,
como os que renunciaram
à vitória e à derrota.
Sabendo que a verdade
é uma terra sem caminhos,
seria tão silencioso
como as folhas na relva,
ou a solidão da neve
ou tão vasto como as aves
que não precisam de escadas
para voar na amplidão do céu.
Abelhudo, cheguei com a minha colher-de-pau...
Meu canto à Silvia
Os versos de Sílvia silvam
no silêncio dos meus tímpanos
vetustos (por isso, cansados).
Os versos de Sílvia
têm cores de madressilvas
e rostos comuns de pessoas
sonantes, suadas, silentes.
Verseja a mestre-mestra
de letras e formas de artepalavra
e desperta olhar de analista
do poeta em brasa
que não dorme, nem é cinza.
Cinza é a cor da minha cabeça,
cabeça armazém de ecos
em meses repetidos tantas vezes, somatório
de dores e de flores, que não se é poeta
impunemente, nem esteio,
nem dormente.
Meu nariz não aceita, minhas vias
de ares e aromas não suportam. Por isso, abro mão
do Esteves e da cigarrilha, beijo Pessoa, abraço
a brasa do poetamigo sulgoiano e elevo
salvas à Silvia, a nevar no cerrado
nortegoiás.
Um beijo, L.deA.
(Sílvia, permita-me sempre a revisão).
Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras (poetaluizdeaquino@gmail.com).


Bem-vindo, meu amigo! Bonita as vozes dos poetas e as imagens. Abraço
ResponderExcluirObrigado, Luciana!
ResponderExcluirEspero não decepcionar os leitores do blog...
Luiz de Aquino