Luiz de Aquino
O título é simples, mas decidido, decisivo e definitivo: “Meu nome é mulher”. Circula pela internet há tempos, e quase sempre (diria que, na quase totalidade das vezes), é citado como de “autoria desconhecida”. Assim me chegou na primeira vez, e não gastei mais que um ou dois minutos para localizar o nome da poetisa, uma policial militar paulista: Fátima Aparecida Santos de Sousa.
Por que conto isso? Porque incomoda-me isso de se divulgar textos sem citar a autoria. As emissoras de rádio, há algumas décadas, começaram a ignorar os autores de músicas, permitindo que o público acreditasse que o cantor era dono e senhor das melodias e letras. O descaramento foi tamanho que alguns cantores passaram a acreditar que eram, sim, autores, e alguns foram punidos pela Justiça a ressarcir os verdadeiros autores.
É que, especialmente no meio musical, houve um tempo em que era normal o autor vender direitos autorais a cantores famosos. A literatura dá conta disso muito bem: a biografia de Noel Rosa por Paulo Didier e João Dias deixa claro que o Poeta da Vila é o verdadeiro criador de Cidade Maravilhosa, mas vendeu a música a André Gustavo (esse é apenas um fato, entre centenas ou milhares). E tenho conhecimento de inúmeros autores, daqui mesmo da terrinha, que assinaram obras literárias criadas por outros. Consta que, em terras de Minas, alguém que assinava obras de um irmão tornou-se famoso sem jamais ter escrito os livros que levam seu nome. E de Goiás, dou-me conta de pelo menos duas autoras que publicaram obras escritas por terceiros; uma delas sequer se dá ao trabalho de transcrever as histórias para o seu estilo (que, acho eu, não é lá grande coisa).
Volto a “Meu nome é Mulher” e transcrevo o poema inteiro:
“No princípio eu era Eva / Nascida para a felicidade de Adão / E meu paraíso tornou-se trevas / Porque ousei libertação!
Mais tarde fui Maria / Meu pecado remiria / Dando à luz Aquele / Que traria a salvação! / Mas isso não bastaria / Para eu encontrar perdão!
Passei a ser Amélia / “A mulher de verdade” / Para a sociedade!
Não tinha a menor vaidade / Mas sonhava com igualdade!
Muito tempo depois decidi: / “Não dá mais! / Quero minha dignidade, / Tenho meus ideais!” / Mas o preconceito atroz / Meus 129 nomes queimou
Então o mundo acordou / Diante da chama lilás!
Hoje não sou só esposa ou filha; / Sou pai, mãe, arrimo de família; / Sou ourives, taxista, piloto de avião, / Policial feminina, operária em construção! / Ao mundo peço licença / Para atuar onde quiser! / Meu sobrenome é Competência / O meu nome é Mulher!”.
A poetisa, portanto, é (Pérola Neggra, com G dobrado) Fátima Aparecida Santos de Sousa, policial militar em Mauá, SP, e registra seus textos na Biblioteca Nacional. Portanto, que se interrompa a “corrente” que dá o poema como de autora desconhecida. O e-mail da autora é fatimaperolaneggra@hotmail.com e seu telefone, (011) 9409-0630.
Como se vê, a moça existe, é talentosa, competente e bonita.
Luiz de Aquino é escritor e jornalista,
membro da Academia Goiana de Letras.


Parabéns Luiz de Aquino, resgatar a autoria de uma obra desse porte é o mínimo que se pode fazer para devolver a pérola a verdadeira dona, que diga-se de verdade, também é uma pérola, não apenas pela beleza, mas pela competência.
ResponderExcluirParabens...belo texto e bela autora!
ResponderExcluirboa semana
abçs