Luiz de Aquino
Quando dói o corpo e a cabeça parece sob pressão, quando as juntas se recusam a flexionar normalmente, os olhos ardem e os nervos parecem sobrecarregados, é hora de ligar o carro e escolher a estrada. Adoro estradas! Se asfaltadas e sinalizadas, oferecendo segurança, melhor ainda. E quando nos sentimos desgastados, tanto faz seguir sem rumo quanto definir o destino e se por a caminho.
Fiz isso na sexta-feira. Escolhi Pirenópolis, de novo. Motivava-me o luar em quarto crescente e as cores do casario no centro quase tricentenário, muito em especial a Rua do Rosário. Até uns sessenta anos atrás, essa rua ligava a Matriz de Nossa Senhora do Rosário (sim, a mesma que foi incendiada pouco tempo após a reforma geral) ao Largo de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Esta, menor e mais bela que a Matriz, foi demolida por razões não muito explicadas. Mas as pesquisas de jovens estudantes que se prestam a ouvir pessoas quase centenárias, bem como debruçar-se sem preguiça sobre alfarrábios empoeirados vem trazendo, devagar, a verdade à tona.
Cheguei quando a noite começava a debruçar-se sobre o verde de matas, as feridas nos montes (a que chamamos jazidas) e o traçado sem esquadro das ruas das antigas serenatas. Estacionei na Rua do Rosário, caminhei poucos metros até o trecho de comércio que, há algumas décadas, seriam “de secos e molhados”. Fiz ponto na Confraria do Boxexa – nome comercial da cafeteria, tabacaria e espaço cultural do meu amigo Bochecha. Ou Boxexa, já que, no Brasil, cultivamos a liberdade extralegal de grafar como bem entendemos os nomes próprios, sejam de pessoas ou marcas comerciais.
Na parte baixa da rua, um palco. O pano de fundo dá-me conta de que acontece ali (não foi o que me atraiu, pois eu não sabia antes) a segunda edição do Piri Jazz, festival de música que levou de volta os que lá estiveram no ano passado. Da ponta do balcão, vi que descia a rua o meu amigo Dimerval, que ninguém conhece. Ou melhor, era o Bororó, baixista genial, marca histórica na música de boteco em Goiânia, instrumentista de um sem-número de grandes nomes do meio musical contemporâneo deste Pais.
“Amanhã (sábado, dia 29 de agosto) vou tocar com Cristóvão Bastos”, disse-me ele. Bororó falava do Quarteto Brasil. Algo de virtuoso, impecável, genial. O grupo atua há quatro anos e, em 2007, lançou na Europa um disco... Ah, vejam o que encontrei na Internet:
“O Quarteto Brasil reúne Cristovão Bastos (Piano), Jurim Moreira (Bateria), Bororó (Contra-Baixo) e Zé Canuto (Sax). Ele surgiu a partir do projeto 4 x Jazz, realizado no CCBB, quando o maestro Cristovão Bastos foi convidado a prestar uma homenagem ao pianista Dave Brubeck. Em 2007 lançou exclusivamente na Europa o CD “Bossa Nova – Delicado“, pelo selo Kind of Blue, com composições de Cristovão Bastos, Bororó, Waldir Azevedo, Luis Gonzaga e Dave Brubeck”.
Zé Canuto, Bororó, Cristóvão Bastos e Jurim Moreira, o Quarteto Brasil
Lá, na Rua do Rosário, o Quarteto Brasil mostrou isso aí. Música de mexer com a platéia, fazer o sangue correr mais morno e ativo, altivo. Senti um orgulho indisfarçável, pois metade daquele quarteto estava, muito antes, no meu coração: Bororó, velho amigo das andanças de música e poesia em Goiânia; Cristóvão, amigo de infância, era o garoto do acordeão, referência maior nas festas da inesquecível Escola Evangelina Duarte Batista, em Marechal Hermes, quando o Rio ainda era Capital da República.
Emocionante revê-lo! Melhor ainda foi exercer a tietagem e ganhar um autógrafo no cedê “Curtindo a gafieira”, que cuidei de ouvir logo e reouvir tantas vezes. Um abraço de “até a próxima”, seguido de um pacto: “Indo ao Rio, aviso-o para marcarmos um encontro em Marechal Hermes”.
Ele sorriu aceitando. Espero ir logo.
Luiz de Aquino ( poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.
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Puxa, fiquei encantada que me deu vontade de sair agora de brasilia e pegar a mesma estrada e ir a Pirinópolis. Pirinópolis lida em suas palavras se tornou poética e convidativa. Parabens!Abraços a Pirinópolis e a você também!
ResponderExcluirObrigado, Márcia!
ResponderExcluirA cidade é, sim, poética, tanto quanto seus arredores de morros e cachoeiras, cerrado e pedrarias.
L.deA.
Bela a Pirinópolis do texto, meu amigo! Seus textos são belíssimos!
ResponderExcluirAbraço
Deliciosa a tua decisão poeta Luiz de Aquino...
ResponderExcluirBelo texto e ilustração...fica em nós a energia boa desse amor bonito que tem por esta cidade e mais lindo ainda o carinho pelos amigos! Grata pelo passeio colorido que nos ofereceu
E que vontade me deu de conhecer a poética cidade de Pirenópolis!
abraços com carinho agradecido
da Eliana