sábado, 20 de junho de 2009

Dor & Alegria


Era noite de princípio de inverno que ainda não tinha chegado oficialmente pela folhinha, mas para nós, acostumados a um calor sempre intenso, o que sentíamos era frio, frio mesmo. As moradias já começavam a dormir mais cedo, cada vez mais. A rua agora deserta era um amontoado de casas fechadas, com medo daquele inverno de cara apressada que agredia. Eram 21h30min, eu caminhava com o coração ferido naquela rua de todo dia com clima europeu pensando... e pensando na vida. Como pôde a Nilcinéia, minha amiga do coração perder o seu nenê de cinco meses? Oh! dor traiçoeira que não avisa e não manda recado! Por que estranhamente espeta-me, tortura-me, deixando-me inerte aos algozes dos pensamentos negativos? Queria esquecer, precisava esquecer, não queria sofrer, mas a lembrança borbulhava no meu ser abobalhado ainda pela recente notícia recebida. Olhei para o céu escuro e sem lua e pedi a Deus Nosso Senhor que enxugasse as lágrimas que riscariam aquele rosto jovem, virgem no sofrimento e que desse força, muita força para aquela vida seguir em frente na caminhada sem volta. Estava abatida, jogada no canto do sofá. A TV falava e eu absorta, não ouvia, enredada pelo assustador acontecimento. Eram 30 dias de maio. Acabava de chegar da rotina de todo dia com o plano de ir ao aniversário de Cecília, minha amiga, grande amiga. E agora? Onde achar força para lutar contra o abatimento que me prostrava? Onde estava a coragem e determinação, virtudes que, até agora pouco, estavam comigo?...E lutando e lutando comigo mesma, resolvo num galope, levantar-me, e com passos determinados, sigo na rua deserta, alcanço o lar da aniversariante e os velhos e amados, os queridos amigos mais chegados que irmãos. Na sala aconchegante, passam os petiscos da “Master Cook Cecília”. Ouço os risos, as falas tão familiares, aquele som de família, de amigos, que esquentam meu coração congelado de dor. Um sentimento de criança me invade. Lembro-me do falecido vovô Bibi e dos seus casos tão pitorescos, os quais me faziam rir e rir sem parar. Era tão bom aquele tempo... a casa nos recepcionava com um ambiente calmo, alegre de muita luz. A paz e a felicidade estavam também presentes comemorando a miríades. Cecília chega. Como é querida minha amiga, uma mulher forte, executiva de Deus, heroína de várias batalhas espirituais! Sorrindo sempre, vai até à porta, e despede-se dos nossos amigos irmãos, que mais cedo do que é o costume, encaminham para suas casas, ela acena para os últimos que, em algazarra quase infantil, distanciam-se. Lá dentro, só uns poucos, e entre eles, eu, permaneciam na hospitalidade de Cecília que, como rainha da festa, contava suas estórias sempre sui generis, arregalando os olhos, mudando o tom da voz de acordo com os seus personagens hilários, tudo naquele jeito de fazer rir e rir, num tempero forte de brincadeira. Suavemente a alegria entra no meu coração, abrindo as janelas de minha alma, àquele lampejo de vida e sem perceber comecei a dar boas gargalhadas dos fatos reais de sua vida, do seu dia-a-dia cheio de dificuldades tremendas, mas que eram contadas com tanta pilhéria que pedi licença para rir das coisas que eram para chorar e temer. Foi aí que lembrei que estava me sentido tão bem, igual ao tempo em que o meu querido vovô, que já partiu para a glória, contava seus casos de português, seus patrícios, e lembrei: ele era também assim, igualzinho à Cecília Teodora, simples mais de um admirável bom humor.
__ Boa noite, Cecília! Já é tarde tenho que ir. Outro dia apareço. No caminho de volta penso: Foi uma noite memorável, apesar de começar com tanta tensão. Já em casa menos atormentada, pela tristeza da separação, vou dormir. Amanhã, acordar cedo, viajar para roça, ir ao enterro na Fazenda, porém chegarei mais forte, para ajudar os que estarão como estive hoje.
Regina Codeço
(Contribuição enviada por email)

A palavra muda.


Não usaremos de palavreados, muito menos diremos impropérios. O problema não é nosso, como me declarou uma sincera amiga. Problema do morro é problema do morro. Mesmo estando acima de nossas cabeças, baixamos os olhos para os teclados do piano, e buscamos a harmonia da Palavra nenhuma, porém em harmônico silêncio.

Staccato!

Quantas fantasias e carros alegóricos estacionados, quantas cabeças de isopores enormes, de olhos vazios, fitando o vazio. Alguém dará um jeitinho nesse lixo, enquanto nos digladiamos para discutir o formato de cabeças leves e de preferência imunes às intempéries do tempo. Conseguiremos mais uma eternidade de olhos no nada.

Breque!

Utilizaremos pontos, traços e pontinhos, racionaremos os hifens, aboliremos os tremas e evitaremos as palavras polêmicas. O problema continuará não sendo nosso, continuaremos construindo bonecos, mas não abriremos mão de nossa máxima:

Muda!

A palavra (é) muda quando escrita no vento.




Carlos Alberto Veiga Muniz
(Car_Litos Veiga)

O HOMEM E SEU FILHO

Sábado, 13/06/2009

O homem e seu filho acocorados, separando camarões. Os grandes formam o lote menor. Camarão seco. O homem mais ainda. O sol tórrido. A pele crestada que nem pergaminho compondo mapas da vida sofrida na lida só ida, sem pausa, que ninguém pediu pra percorrer. Mapa do tesouro. Do camarão. Seco. O sol. Neste sol, nesta vida de arremedo sem medo, pra quê?... o medo?... Será que finalmente chegou o verão? Em julho dá pra ganhar mais com os camarões da região... Região de duas estações, cidade de poucas opções pra quem vive de vender camarão. Pra quem não vive, também. Tem gente que não vive, mas finge bem. Que nem aquelas pessoas do ônibus. De Mosqueiro a Belém o bodum do camarão quase visível em espirais olorosas... Vontade de vomitar com o misto do primeiro trago ao fedor indefinido, pavoroso.
- Credo! Que pitiú é este?! Que gente porca!...
Algumas pessoas, naquele ônibus, fediam mais. Os cheiros até se confundiam. A moça suava e disfarçava. Será que a inhaca vinha de lá de dentro das suas vergonhas... “A gente sua...” Cheiros que se confundem. Perfume sem valor, nem precisa pagar. O dia trouxe o sol com vontade de brilhar e revelar o que todos tentamos esconder com Boticários ou Alfazemas da vida... Quase todos, colhidos de surpresa, revelavam o vencimento precoce de seus protetores axilares, íntimos, recônditos. Ou nem. Mãos segurando na barra. E fediam. Nem sentiam. A gente se acostuma a tudo nesta vida. Principalmente com (o) dores. E indiferença diante da dor que cutuca e até parece arroto quando preso. Comida pouca, barriga de vento do menino que aprende o ofício de misturar camarão grande aos muitos pequeninos que devem ficar escondidinhos... Aprendendo o ofício de enganar pra melhor levar a vida de ciladas e logros. Quanto mais esperto e atento, menos chance de escorregar no limo das palavras cuspidas de tudo que é lado. Será que a moça de tênis de marca que vem ali não vai querer comprar?... “- Mas quando, já...” O sol, a fome, a pressa de chegar pra comer o churrasco nosso de cada sábado, “porque hoje é sábado”. E eu nem gosto assim de churrasco, mas como. Eu como... eu como... eu como... eu como... A gente se acostuma a tudo na vida. E o que é bom, vira hábito.
O homem seco e seu filho aprendiz de enganar, bem que iam gostar, mais do que eu, de comer churrasco hoje.
“E o povo aqui sempre pobre...

”Regina Makarem - Belém (PA)

(Colaboração enviada por email.)

Um pé nas minas de Pirenópolis




Um pé nas minas de Pirenópolis (*)


Luiz de Aquino - poetaluizdeaquino@gmail.com.br






Meu canto telúrico remonta, certamente, à pregação da primeira professora, Dona Vanda Rodrigues da Cunha, em Caldas Novas. Moça bonita, de longos cabelos negros, ênfase na fala e uma insistente apologia às qualidades dos rios de água fria e às fontes termais da pequenina urbe sul-goiana.


Assim aprendi a amar minha terra: a partir de Caldas Novas até os não-limites pátrios, com ênfase para dois pontos especiais – o Rio de Janeiro e Pirenópolis – antes de me fazer goianiense pleno.

Em casa, estimulado pelo pai, eu cantava canções e valsas de serenata. Meu velho, ainda muito moço, tocava ao bandolim ou ao violão as peças de sua infância, acompanhado pelo inseparável José Pinto Neto, boêmio-símbolo da minha terrinha natal. O repertório de meu pai compunha-se, pois, do cancioneiro nacional divulgado pelas rádios e ainda as de compositores goianos, especialmente os de Pirenópolis – obviamente, com destaque para as da lavra do meu avô paterno, de quem herdei o nome.



A saudade é também forte êmulo. Aos dez anos, fui morar com minha avó Inês, no Rio de Janeiro. Concluído o curso primário, ingressei no Colégio Pedro II, onde concluí o ginasial e iniciei o Clássico. Em vésperas do aniversário de 18 anos, retornei a Goiás e matriculei-me no Liceu de Goiânia, onde concluí o Clássico. Casei-me, tive meus filhos, cursei Geografia na Universidade Católica e, ali, estreitei amizade com o professor José Sizenando Jaime, pirenopolino de ótima cepa.


Meu avô e meus tios, meus primos e novos amigos, além (claro!) da beleza da mulher da terra fizeram-me assíduo na velha Meia-Ponte. Apaixonei-me pela cidade, seus vultos e sua História, sua veia de literatura e música. A luz da lua sobre as pedras do Rio das Almas, vazando o balaústre da ponte fazia renda nas areias da praia. Subia ao morro do Frota, às grimpas da serra da pedreira, rumo aos Pireneus, errava nas miúdas estradas de fazenda, cantava ao luar e atrevia-me (naquela época dos anos 70 do século passado, hoje não...) a tirar agudos de um belo cavaquinho que jamais mereci.



Ao mesmo tempo, poetizava. Escrevia para exaltar as pedras das ruas e dos rios, o verde das pastagens e da natureza, o frio do Rio das Almas, a cantiga feliz das cachoeiras. Sob esse clima, cometi, numa das minhas primeiras publicações em jornais,

uma crônica alusiva à cidade e à Festa do Divino: “Tem maromba, ronqueira e banda-de-couro”. Não tardou muito e produzi, em parceria com José Pinto Neto (sim, o amigo de adolescência de meu pai) uma canção: “Sentimento pirenopolino”. No gosto popular da cidade, essa canção é chamada de modo mais simples e sonoro, embora menos abrangente: “Manhãs alegres”.



Em síntese, estes tantos anos de amor à cidade mostram-me, hoje, que tenho material de prosa para um livro festivo, alusivo à terra-berço de meu pai e de cuja Academia sou membro fundador e ex-presidente.

Cuidarei disso.




(*) As fotos (exceto à minha com o Gabriel ao colo) são de Dalva José Pereira que, como eu, nutre uma paixão irresistível pela antiga Meia-Ponte de Nossa Senhora do Rosário.

Luiz de Aquino, poeta e jornalista, membro da Academia Goiana de Letras.


Doce Energia é a Poesia!

Doce energia é a Poesia!

Distraída em pensamentos, rendo-me aos sentimentos,
que sem cerimônia chegam numa avalanche...muitas vezes
não sei o que fazer com eles, mas sigo adiante pelo prazer de descobrir
até onde posso alcançar sem precisar sair do lugar... Doce energia!
Sinto-me rodeada por anjos ao ouvir os gorjeios dos passarinhos...
Esqueço das minhas asas podadas e voo com liberdade transgressora.
Tranço realidade com a imaginação. Bebo do orvalho pousado nas flores
e absorvo sua magia. Deixo o medo pelo caminho e amenizo frustrações
compactuando com a arte da contemplação. Aprendo com a mansidão
do crepúsculo a vagar pelas sensações. Transponho barreiras com brincadeiras.
Um faz de conta... Porem de alegria verdadeira. Sei que a estrela que me guia...
Faz da minha via um arco-íris. Oferecendo-me como porto a lua cheia.
Nessa hora, imperativo é o desejo de pousar.
Ah o pouso!
Por vezes espalhafatoso... Mas disfarço num sorriso, e escrevo...

Eliana f.v. – Li Andorinha

Tempo de celebração

“ O prazer quer eternidade
pura, profunda eternidade.”
(Nietzsche)

Como nos aquece a lembrança dos bons momentos que vivemos! As ocasiões festivas, um sol brilhando, a planta enverdecendo, as flores que chegaram, os risos com os amigos, o aconchego com o amado. O fruir das coisas simples da vida. Pequenas aventuras que celebram o existir.Celebrar é abraçar visões líricas, é vislumbrar nascimentos, é ter no olhar a força que ilumina a despeito das circunstâncias. Celebrar é agradecer, é redescobrir o valor das coisas. É entrar no barco e encostar os dedos nas águas do rio- atravessando águas claras ou sombrias. Porque, como disse Paulo Mendes Campos: um dia tem sempre outro dia a esperá-lo, a recompô-lo, a redimi-lo.

(Luciana Pessanha Pires)

sexta-feira, 19 de junho de 2009

NINGUÉM ME CONTOU, EU VI


Itaperuna, 18/11/08


O cubículo, situado no morro, que talvez a família denominasse de casa, abrigava cinco pessoas: o casal e mais três filhos.
Pelo bolor e escuras marcas escuras de mãos escorridas pelas paredes sem esboço, percebia-se ao adentrar naquele local que ali estava erguido o castelo da pobreza onde a água não era encanada, não havia esgoto e as teias de aranha apresentavam-se como o ponto alto da decoração.
No piso de terra batida quatro esteiras de palha encontravam-se empilhadas em um cantinho da casa. Um pouco afastado, na parede ao lado, estava um fogão artesanal confeccionado com tijolos e sobre ele uma trempe de ferro enferrujado com duas bocas: atrás dele um canecão sem a alça e duas panelas pequenas de alumínio, as quais, bem amassadas, e em cada lugar côncavo o pretume acumulado preenchia todo o espaço. Encostados em outra parede via-se cinco amontoados de tecidos dobrados: talvez somente uma muda de roupa em cada um deles. Um pano carcomido pelo tempo servia como cortina para uma abertura onde algum dia pudesse vir a ser uma janela. Ah! Sim, na sala, quarto, ou cozinha, nem sei como me referir a este local, havia uma porta que com toda certeza fora jogada no lixo por uma pessoa bem pobrezinha, porém para eles era de grande utilidade, pois vedava a intimidade daquele interior. No teto forrado por telhas-vãs colocadas sobre caibros apodrecidos e sinuosos, pendiam picumãns bem unidos, que iam aumentando... aumentando... nos raros momentos em que a lenha ardia no fogão.
O marido estava ausente à procura de algum biscate. Ela dialogava com a visita, sentada no chão e acompanhada de dois filhos. O outro, uma menina, em total nudez engatinhava pelo terreno que circundava o barraco: local onde tralhas e entulhos misturavam-se a papéis esvoaçantes.
O coração da visitante derreteu-se pelos sentimentos mais profundos de piedade, pois ao despedir-se presenciou uma cena ainda mais comovente: a criancinha desnuda alimentava-se dos seus próprios excrementos.
Pelo tempo que se passou (uma década e meia), e se a tudo isso essa criança conseguiu sobreviver, ela deverá estar hoje debutando pelas ruas da minha cidade – Itaperuna.

Flora Malta Carpi - Presidente Emérito da Academia Itaperunense de Letras.

(Contribuição enviada por email)