terça-feira, 1 de setembro de 2009

“Piri Jazz” e Cristóvão Bastos


Luiz de Aquino


Quando dói o corpo e a cabeça parece sob pressão, quando as juntas se recusam a flexionar normalmente, os olhos ardem e os nervos parecem sobrecarregados, é hora de ligar o carro e escolher a estrada. Adoro estradas! Se asfaltadas e sinalizadas, oferecendo segurança, melhor ainda. E quando nos sentimos desgastados, tanto faz seguir sem rumo quanto definir o destino e se por a caminho.

Fiz isso na sexta-feira. Escolhi Pirenópolis, de novo. Motivava-me o luar em quarto crescente e as cores do casario no centro quase tricentenário, muito em especial a Rua do Rosário. Até uns sessenta anos atrás, essa rua ligava a Matriz de Nossa Senhora do Rosário (sim, a mesma que foi incendiada pouco tempo após a reforma geral) ao Largo de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Esta, menor e mais bela que a Matriz, foi demolida por razões não muito explicadas. Mas as pesquisas de jovens estudantes que se prestam a ouvir pessoas quase centenárias, bem como debruçar-se sem preguiça sobre alfarrábios empoeirados vem trazendo, devagar, a verdade à tona.



Cheguei quando a noite começava a debruçar-se sobre o verde de matas, as feridas nos montes (a que chamamos jazidas) e o traçado sem esquadro das ruas das antigas serenatas. Estacionei na Rua do Rosário, caminhei poucos metros até o trecho de comércio que, há algumas décadas, seriam “de secos e molhados”. Fiz ponto na Confraria do Boxexa – nome comercial da cafeteria, tabacaria e espaço cultural do meu amigo Bochecha. Ou Boxexa, já que, no Brasil, cultivamos a liberdade extralegal de grafar como bem entendemos os nomes próprios, sejam de pessoas ou marcas comerciais.

Na parte baixa da rua, um palco. O pano de fundo dá-me conta de que acontece ali (não foi o que me atraiu, pois eu não sabia antes) a segunda edição do Piri Jazz, festival de música que levou de volta os que lá estiveram no ano passado. Da ponta do balcão, vi que descia a rua o meu amigo Dimerval, que ninguém conhece. Ou melhor, era o Bororó, baixista genial, marca histórica na música de boteco em Goiânia, instrumentista de um sem-número de grandes nomes do meio musical contemporâneo deste Pais.

“Amanhã (sábado, dia 29 de agosto) vou tocar com Cristóvão Bastos”, disse-me ele. Bororó falava do Quarteto Brasil. Algo de virtuoso, impecável, genial. O grupo atua há quatro anos e, em 2007, lançou na Europa um disco... Ah, vejam o que encontrei na Internet:

O Quarteto Brasil reúne Cristovão Bastos (Piano), Jurim Moreira (Bateria), Bororó (Contra-Baixo) e Zé Canuto (Sax). Ele surgiu a partir do projeto 4 x Jazz, realizado no CCBB, quando o maestro Cristovão Bastos foi convidado a prestar uma homenagem ao pianista Dave Brubeck. Em 2007 lançou exclusivamente na Europa o CD “Bossa Nova – Delicado“, pelo selo Kind of Blue, com composições de Cristovão Bastos, Bororó, Waldir Azevedo, Luis Gonzaga e Dave Brubeck”.


Zé Canuto, Bororó, Cristóvão Bastos e Jurim Moreira, o Quarteto Brasil


Lá, na Rua do Rosário, o Quarteto Brasil mostrou isso aí. Música de mexer com a platéia, fazer o sangue correr mais morno e ativo, altivo. Senti um orgulho indisfarçável, pois metade daquele quarteto estava, muito antes, no meu coração: Bororó, velho amigo das andanças de música e poesia em Goiânia; Cristóvão, amigo de infância, era o garoto do acordeão, referência maior nas festas da inesquecível Escola Evangelina Duarte Batista, em Marechal Hermes, quando o Rio ainda era Capital da República.

Emocionante revê-lo! Melhor ainda foi exercer a tietagem e ganhar um autógrafo no cedê “Curtindo a gafieira”, que cuidei de ouvir logo e reouvir tantas vezes. Um abraço de “até a próxima”, seguido de um pacto: “Indo ao Rio, aviso-o para marcarmos um encontro em Marechal Hermes”.

Ele sorriu aceitando. Espero ir logo.



Luiz de Aquino ( poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


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sábado, 29 de agosto de 2009

fluências...



Ontem falei com uma amigo de várias décadas que vive do outro lado do mar. Os afetos povoaram meus sonhos e acordei impregnada de imagens e, do rumor das ondas do mar e dos tempos em que traçamos rumos tão distintos e, ao mesmo tempo iguais. A intensidade das palavras multiplicaram belezas, subtrairam cansaços, somaram afetos e foram divididos recortes de vida; a cumplicidade tem resistido ao tempo e às distâncias . Nossas conversas sempre foram marcadas por disfluências, pausas suficientes para inspirar e expirar significados ...

Não sei por quantos anos ainda iremos comemorar nossos aniversários através das ondas, pois que das incertezas estamos marcados. Não sei também se algum dia, lado a lado celebraremos e, se estaremos novamente vestidos com sonhos de proporções e transparências similares.


Embora em vias paralelas andamos, foram os momentos de confluências que contaram e ainda contam.


Creio, não ser possível esculpir em pedra , dada a quantidade de expressões que nos escaparam e os afetos que continham, mas arrisco dizer que nas areias intemporais algo foi inscrito e, este algo que nos escapa flui através da voz do vento.

(confluência - mobilidade de fluxos que convergem, direções que se juntam, encontro entre dois caminhos, ruas ou avenidas, dois rios que passam a correr em um leito comum... )
Ilustração - R. Magritte

Divino espetáculo


Por que será que precisamos de tantos significados, explicações, rótulos, conclusões e detalhamentos? Qual a grande necessidade de estarmos sempre nos explicando, batizando todas as coisas, concluindo se é assim ou assado. Criando atalhos e justificativas, buscando lógica e razão, queremos segurar o mundo através de nossas cabeças, acumulando informações e conceitos. Entender, em certo sentido, é também fragmentar, dividir, analisar. Em nossa ansiedade por entendimento acabamos por reduzir a vida às dimensões já conhecidas, para em seguida cairmos no tédio e no desinteresse. Quando crianças, o mundo é sempre mágico e somos a pura expressividade. À medida que amadurecemos e aprendemos que a vida é assunto muito sério, esquecemos de brincar, de sentir e de apenas emocionarmos.
Tudo isso me ocorre a propósito de certa viagem de férias que fiz a um lugar paradisíaco chamado Dunas de Itaunas. Um pequeno vilarejo que fica ao norte do Espírito Santo e que nos anos 50, devido ao lençol arenoso soprado pelos ventos nordeste, foi totalmente soterrado. A vila, como que brotando das cinzas, renasceu nos anos 70 ao lado do rio Itaunas e do outro lado, próximo ao mar de um azul profundo, edificaram maravilhosas dunas de até 30 m de altura de areia finíssima e dourada onde o sol celebra sua existência espalhando seus lindos raios.
Do alto das dunas é possível ver a praia de um lado e o rio de outro e o lugar atrai turistas de todos os cantos do mundo que, ao chegarem em Itaúnas, ficam fascinados pela manifestação do sol na hora do crepúsculo. Por alguns minutos o céu é banhado de luz multicolorida e alí, por sobre as dunas, ficamos com a alma embriagada, encobertos e encantados por um imenso arco-íris. A vila refletindo as cores do céu dá a impressão do paraíso.
Foi durante esse divino espetáculo, raro momento em que me permito ir além dos limites do conhecido em busca dos mistérios do Sagrado, acreditando que nada existe que não tenha forma antes inventada pela natureza, que escuto, por acaso, a expressão de um pequeno coadjuvante da mãe-natureza. Uma criança de mãos dadas com sua mãe que, naquele instante, tornou-se símbolo do reencontro com a minha própria emoção:
- Que beleza, mamãe! Quem pintou?

Maria Lucia de Almeida

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Palestras e polícias


Luiz de Aquino


A noite fechava seu ciclo, dando espaço à luz que, na roça, dizem ser “a barra do dia”. Deixei o Lucas no colégio e tomei o rumo leste pela Avenida Anhanguera. Cheguei à Escola Municipal Alice Coutinho, na Vila Morais, tinha de falar sobre a escrita, a poesia, o jeitão dengoso da prosa em crônica. Dou bom-dia à professora Mara Rúbia, tão-logo a vejo à porta, e quero saber quem foi Alice Coutinho. Uma educadora, conta-me a educadora. Fico feliz: gosto de ver escolas que têm nomes de professores e afins.

Recordo que, no município do Rio de Janeiro, é de lei: escolas recebem nomes de educadores. Com esse argumento, o prefeito César Maia vetou o nome do palhaço Carequinha. E já ouvi de ene professores a mesma pergunta que me incomoda: se ele não foi educador, quem o será?

Falei de versos e músicas, de crônicas e causos. Ouvi alunos a declamar versos e gostei mais de vê-los produzindo paródias e respostas a poemas meus. Claro, sou vaidoso, sim! Fiquei todo, todo ao ver dois painéis – um com poemas de autores goianos (eu no meio) e outro só com minhas crônicas e fotos minhas. Quem não gosta de ser acarinhado, hem? Saí feliz da Escola, afagado pela boa recepção, tanto de mestres quanto de alunos, e cumprimento todos eles abraçando Kamila Marquez, Rodrigo e Elinny.

No mesmo dia, viajei a Pirenópolis. O presidente da Câmara Municipal, Eli de Sá, convidou-me para falar aos vereadores. E sempre há muito o que falar quando a motivação é estudantes e poesia; ou Pirenópolis. Pirenópolis é poesia sempre. E música. E tela e tinta. Pirenópolis é vida!

Vivi um dia feliz. Muito feliz!

São assim os dias, sempre. Os meus dias. Escrever, fazer contas várias, incomodar-me no trânsito, sofrer com os noticiários prenhes de notícias ruins. Os dias são, para todos nós, sequências de pequeninos fatos de vários matizes. Triste é viver uma situação vexatória, algo que nos dá a sensação de violados. Ai, a gente reage... Contei, na crônica de quarta-feira última, de quando minha amiga contestou um policial que punha o carro sobre a calçada, obrigando pedestres e transitar na pista asfáltica. “Polícia pode”, disse o soldado, e ela retrucou: “Pode nada”. Esse feito foi da professora e advogada Sonia Marise Teixeira, e não de Maria do Rosário Paranhos. Esta viveu um outro momento, mas com um suposto policial à paisana que, de longe, mostrou uma carteira dizendo “Sou policial, está vendo?”. Rosário é, tal como Sônia, professora e advogada (elas não aceitam desaforos), e o desafiou: “Traga aqui essa carteira e verá o que faço com ela”. O homem não se aproximou, devia ser mesmo um impostor. Mas exerceu a truculência típica dos mal-educados (há mal-educados em todas as profissões, a gente sabe).

Na quinta-feira passada, 27 de agosto, meio-dia e meia, mais ou menos, uma gangue de jovens em motos causou um início de pânico à saída do Colégio SESC Cidadania, no Jardim América (a cerca de três quadras de uma delegacia da Polícia Civil). Alguém detonou uma bomba (caseira?), o bando ameaçava atropelar crianças e adolescentes, capacetes foram arremessados. Vários pais acionaram o telefone 190, mas a PM demorou a chegar. Não sei a razão da demora, mas os minutos de espera foram angustiantes.

Uma pena que a PM nunca responda ao que a imprensa conta. Ela pode?




Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.





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quinta-feira, 27 de agosto de 2009

CONVERGÊNCIAS - A Poesia Visual de Tchello d´Barros no Rio de Janeiro

A partir de 3 de Setembro de 2009


“Convergências” – A Poesia Visual de Tchello d’Barros

O espaço de exposições do Largo das Letras, Rio de Janeiro – RJ, apresenta a exposição Convergências, composta de poemas visuais do catarinense/alagoano Tchello d’Barros. A mostra apresenta também o álbum fotográfico Palavraria Pública, um exercício de street photography, onde o autor fotografa – no Brasil e em diversos países - recortes de frases em placas, out-doors, fachadas de lojas, etc, resultando num diálogo inusitado com as obras de Poesia Visual. Para a poeta Andrea Lúcia, curadora da exposição, “esta é uma boa oportunidade para o público carioca e fluminense conferir como os trabalhos de diferentes fases desse poeta visual se relacionam com sua produção contemporânea”, pois a mostra traz para o Rio de Janeiro algumas criações recentes e mesmo alguns trabalhos inéditos do autor. Embora Tchello d’Barros tenha também publicado até o momento cinco livros de poemas ‘convencionais’, começou mesmo foi com poemas visuais lá pelos idos de 1993, em Blumenau – SC, e segue numa produção lenta mas constante, numa média de meia dúzia anualmente. Desde 2004 está radicado em Maceió – AL, e por conta das oficinas literárias que ministra sobre o tema, reuniu alguns trabalhos de séries mais representativas e estreou a mostra em 2006, no NAC – Núcleo de Arte Contemporânea, em João Pessoa – PB. Na seqüência, em 2007, foi exibida no Misa – Museu da Imagem e do Som de Alagoas, em Maceió – AL. Em 2008 foi apresentada no CEN - Congresso Internacional de Literatura Lusófona, em Blumenau – SC. Após essa passagem pelo Rio, a mostra segue a itinerância para outras capitais brasileiras.

Para a abertura da exposição em Santa Tereza , haverá também um sarau de poesia, coordenado pelo poeta Luiz Fernando Prôa, que realiza na cidade diversas ações literárias, além de editar o site Alma de Poeta, onde Tchello desenvolve algumas curadorias. No sarau, além da apresentação dos Poemínimos – micro-poemas Verbi-voco-visuais de Tchello d’Barros – diversos poetas estarão presentes para recitar seus próprios poemas. Na sequência, apresentação musical (guitarra, violão e piano) com Aloysio Neves trazendo arranjos de Toninho Horta, Egberto Gismonti, Hermeto Pascoal, A. Neves, Joe Pass, Villa-Lobos e Tom Jobim, entre outros.

Programa

Abertura às 19:00hs

- Exposição de Poesia Visual - Tchello d’Barros

- Exposição do álbum Palavraria Pública - Tchello d’Barros

- Sarau Alma de Poeta - coordenação de Luiz Fernando Prôa

- Apresentação Musical (guitarra, violão e piano) - Aloysio Neves

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SERVIÇO

Abertura: quinta-feira 03 set 2009 - das 19 às 24h

Local: Livraria Largo das Letras - Tel. (21) 2221-8992

Rua Almirante Alexandrino, 501 Largo do Guimarães

Bairro Santa Tereza - Rio de Janeiro - RJ

Entrada franca

Visitação: 04 set à 04 out 2009 - Terça à Domingo - das 14 às 24h

Curadoria: poeta Andrea Lúcia - agatha_triste@hotmail.com

Mais informações: Tchello d’Barros - tchello@tchello.art.br

Agradecimentos:

Anna Mallet – Largo das Letras

Luiz Fernando Prôa – Alma de Poeta

Paulo Rafael – Pizzas Artesanais

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Informações Complementares:

Como chegar:

De carro: Pode subir pelas ruas Cândido Mendes, na Glória, Monte Alegre, no Bairro de Fátima, Joaquim Murtinho, na Rua do Riachuelo, é só seguir os trilhos do bonde.

De ônibus: Há duas linhas, 206 e 214, o ponto final fica na Av. Nilo Peçanha, ao lado do Buraco do Lume, antes de subir o morro tem parada na rua Gomes Freire, Lapa, em frente ao Supermercado Rede Economia e Banco Itaú.

De Bonde: Há horários de meia em meia hora, o último partindo ás 20:30h, é só se dirigir a estação ao lado do prédio da Petrobrás, na av. Chile, Centro.

Gastrô: no local pode-se tb degustar as Pizzas Artesanais de Santa Tereza, acompanhadas por um bom vinho, uma cerveja bem gelada, limonada suíça, doces e a cachacinha Caraíba, da cidade de Paraopeba, M. G, guardada em barril de jequitibá. Tudo ao ritmo e a velocidade tranquila do bairro de Santa Tereza.

Feriado: O espaço estará aberto também na segunda-feira do feriado de 07 de setembro.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

UM CONCURSO


(imagem google)

O concurso é desafio sobre a capacidade de pensar e de se fazer entendido por outros.

Soninha Porto

Participar de concursos é isso. Esta crônica coloquei num concurso da Comunidade Poemas à Flor da Pele e foi selecionado em 2º lugar. Este resultado é significativo, já que fui quase entendida, ou o que falei serviu pra alguma coisa. Pelo menos pro resultado do concurso. Lendo-a novamente, lógico que já alterei alguma coisa, mas no seu bojo continua a falar do encontro do meu íntimo comigo mesma. Redundância? Pode ser, mas quem escreve sabe do que falo, momento em que prestamos mais a atenção em nós mesmos. E fui em frente. Então, com vocês:

O POETA E O POEMA

O poema nasce do confinamento do poeta em si mesmo. Pois é, lendo Vinícius de Moraes e a sua prosa "Transfiguração pela poesia", esta frase brotou do fundo de mim. Maravilhosa essa força das palavras! Que provoca até fazer seus efeitos. A poesia só existe quando toca o outro, pensei. E pensando nisso, Vinícius renasceu ali, no exato momento em que me prendeu a seus pensamentos. Logo me arremeteu ao concurso de Machado de Assis, fiquei até em dúvida, de como o tema poderia se encaixar nas idéias Machadianas, ele que penetrou como ninguém nos meandros da alma humana.

Tentei me ocupar com outras coisas, fui até a cozinha, tomei um café, fumei um cigarro, mas em vão, conclui que o pensamento tinha me aprisionado, por mais que eu tentasse escapar, nada mais teria sentido, até que eu, confinada em mim, escrevesse sobre o poeta e o poema em sua nascente, sobre as idéias e imagens que chegavam pulverizadas...
Tentei me enxergar ao escrever e percebi a essência do pensamento do poeta, o que ele quer dizer, e é engraçado me observar, a entrega a um completo delírio, sem descanso, até que o ponto final chegue.
O meu lado poeta fala alto, imagens minhas e dos que padecem, ou aquelas doces e ternas, que escorrem dos vãos da minha alma cheias de fantasmas ou inspirações.Tenho a impressão de que os vultos se aproximam, sem nexos a procura da forma, e pouco a pouco vou construindo ou desconstruindo. Creio que Vinícius me fez desconstruir, a partir de seu pensamento busco o que me inspira e tento desfazer o quebra-cabeças, a língua ferina da dor, ou a que adula o viver.

Na tela, pinceladas de arco-íris e de sombras que persistem duras e frias. O poema parece planar e eu também, derramo sentimentos que pulsam, vivos de crueza, de cheiros, da sensibilidade que insiste em falar de amor. Porquê de amor? Se a vontade é de rasgar-se até a exaustão.
Mas o amor persiste, ele faz cair os véus do tédio, acalora o corpo e traz cor. Desse delírio de afeto ilusório transformo manhãs e as noites passam a ter luas, onde ilumino-as com versos.
Mas o lamento remexe, machuca, é um andar nas sombras à procura de luz.
Sensações poderosas, que a minha mente insana provoca, ao fazer culto ao amor, ao corpo e a alma, ou às perdas, que só eu sei, das tantas e tantas tristezas nas sinistras noites de solidão.

E de tanto pensar e criar, o desfecho de uma noite em mim é a embriaguez em versos do poeta pra fugir da indiferença que o cerca, ou para reter a beleza do que sente, onde junta tudo e joga nas palavras o manto das desventuras, ou encantos oriundos de seus sonhos. É uma viagem ao fundo, é a transcendência do ser, a sensação do prazer infinito, quando ele chega quase a lamber os versos e cospe a poesia. Quer atingir indiferentes, ou em chamas, os cheios de esperança e confiança na largueza da vida, o que seu transe proclama, ainda que viva em si um vazio.

Que significados terão estes pensamentos pra alguém? Este confinamento vai ajudar a renascer quem chora e sofre? Vai dizer algo a quem ama e canta?

Com essas idéias todas bailando em mim, olho pra noite, o céu tá escuro, lá fora está frio, tento me aquecer e enrolada numa manta, ainda me faço perguntas e depois de cansar de tanto olhar o lado de fora, volto-me pra dentro de novo, as palavras me chegam meio sem sentidos, fogem, relutam, até que num repente de inspiração o poema se entrega, pronto, inteiro, sem contestação. Satisfeita com o resultado dou pequenos retoques. É preciso rever, irá viajar pelo mundo à procura do outro, aquele que em sintonia com minhas idéias, retenham-nas em um novo confinamento. Pode ser que não provoque nada em alguns, mas esta liberdade é a que quero, a beleza do vôo livre do poema, em rumo incerto, ou a crítica certa.
Ao chegar, como chegou a prosa do genial Vinícius, completa-se o ciclo vital do poeta, do contrário a poesia nasceu morta.


terça-feira, 25 de agosto de 2009

Trânsito, educação e politicagem

Trânsito, educação e politicagem


Luiz de Aquino


Desde a tenra mocidade, descobri que a diferença entre adultos e crianças está mesmo é no preço dos brinquedos. Ou seja, os brinquedos tornam-se mais caros à medida que a gente cresce – ou envelhece, para ser mais preciso – e não nisso aí que dizem ser “maturidade”. Maturidade está na pele, que perde o brilho e se enruga, bem como nos cabelos, que perdem a melanina. Não há tempo a perder com argumentos: olhe aí à sua volta, veja os brinquedos dos filhos, sobrinhos e netos, compare os preços com os brinquedos dos adolescentes, depois com os dos adultos... Viu? Conferiu? Descobriu? Tudo bem, pois!

Existem brinquedos que parecem baratos, mas resultam em coisas caras. Futebol, por exemplo, pede apenas uma bola, não é mesmo? Não, não... Quanto custa o terreno de cem metros de cada lado para se fazer nele um campo de futebol? E a terraplenagem? E o gramado? As travas... Ah, se é gramado e bem medido, logo haverá quem exija alambrados, arquibancadas e vestiário, mais os sanitários etc.

Para a quase totalidade dos mortais, um brinquedo caro, também, é o carrinho. Não falo dos carrinhos de fricção com que os petizes (icha! Essa palavra eu busquei longe, no tempo) se divertem, mas dos fuscas e celtas e corsas, que logo nos sugerem pálios e gols e meganes. Brinquedos não exigem de nós apenas seu custo de aquisição: há a manutenção e os cursos acessórios.

E aí, já que falei em carrinhos, vem o trânsito. Com o trânsito, a educação (ou a falta dela): motoqueiros que costuram entre carros e xingam os choferes (mais uma das antigas), pedestres que gesticulam para condutores... Há poucas horas, parei ao ver, diante de um colégio, o aluno de seus dez ou onze anos que já descia da calçada, ignorando o carro. Buzinei discretamente e fiz-lhe um sinal, sugerindo atenção. O guri respondeu, com a educação que lhes dão os pais: “Tô vendo, idiota!”. Tem nada não... Apenas cinquenta anos entre nós dois. Ah, cinquenta anos e, com certeza, um par de pais imbecis.

Viaturas da PM continuam obstruindo as calçadas estreitas de qualquer bairro. “Policia pode”, respondeu, tão mal-educado quanto o aluno que citei, um soldado à minha amiga Rosário, advogada. E ela: “Pode nada!”. Sim, a PM infringe o Código de Trânsito Brasileiro ao não usar, sistematicamente, o cinto de segurança e ao estacionar, a bel-prazer, nas calçadas, estejam a viatura e seus ocupantes a serviço ou não.

As pessoas, especialmente os que já sentem ter cumprido mais de setenta por cento de seu tempo ou missão nesta vida, sentem-se frustradas. E aí, o noticiário fica quase todo ocupado com a ex-secretária da Receita Federal dizendo que sim e a ministra da Casa Civil jurando que não. A opinião pública entende que a ex-secretária inspira mais confiança que a ministra, que pretende vir a presidir o País e a Nação.

Quero não, siô. Prefiro a Marina Silva. A ministra candidata, alinho-a com o menino mal-criado que atravessa a rua desafiando os carros, o policial que acha que a PM “pode” infringir a Lei, bem como o “gênio” que bolou isso de pôr viaturas onde, diz o Código, é espaço reservado a pedestres.

Ah, a todos esses quero juntar também os que estacionam em lugar reservado para portadores de deficiência física e idosos. São tão “confiáveis” quanto a ministra que quer suceder o presidente Lula.



Luiz de Aquino é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.