domingo, 5 de julho de 2009
POESIA BRASILEIRA PERDE UM DE SEUS EXPOENTES
Por Tatiana Fraga
Sites de literatura, blogues, twitter e orkut publicam notas e depoimentos pessoais sobre a morte do escritor Rodrigo de Souza Leão, conhecido pelos poetas quase sempre virtualmente, já que Rodrigo pouco saía de sua casa, e a internet foi seu principal canal de comunicação com o meio literário.
Rodrigo de Souza Leão começou a escrever aos 18 anos e publicou dois livros: Há Flores na Pele (Poesia, 2001) e Todos os Cachorros são Azuis (Prosa, 2008), além de inúmeros textos na internet. Na net, começou publicando o e-zine, Balacobaco, que circulou por quase seis anos; depois veio o site Caox, a revista Agulha, a Germina Literatura e a revista Zunái, que editava com o poeta Claudio Daniel, além de seu site pessoal, o Lowcura (www.lowcura.blogspot.com).
Rodrigo tinha diagnóstico de esquizofrenia, tema que frequentemente levava para seus textos. “Nós vivemos em tempos esquizofrênicos. Muita gente tem depressão ou síndrome do pânico. É uma sociedade que está doente porque dá valor ao que não se deve: o dinheiro. O ser humano viveria muito mais se parasse com essa babaquice de querer dominar o outro”, declarou ao site Portal Literal em novembro de 2008. Entrevistou também diversos escritores, publicando boa parte da produção da nova literatura. “Rodrigo foi um fenômeno da internet. Quase sem sair de casa, tornou-se conhecido no meio literário por aproximar os escritores e as tendências mais diversas. A literatura brasileira fica menos solidária, menos generosa e muito mais triste”, lamenta o poeta Frederico Barbosa.
Rodrigo de Souza Leão dizia que torcia para que existisse algo depois da morte “para ver o que as pessoas acham de mim quando eu estivesse morto. Para saber se meu melhor amigo iria chorar, se alguma namorada ia lembrar de mim, se meu livro ia vender depois de morto... Porque depois que morre todo escritor vende”. Sobre os livros, não sabemos, Rodrigo, mas seus amigos estão chorando.
Depois da morte
Se pudesse decidir pra onde ir
Riria
HOMENAGEM
A Casa das Rosas fará uma homenagem ao poeta no dia 09 de julho, quinta-feira, às 19 horas.
Com a presença dos poetas Claudio Daniel, Horácio Costa, Virna Teixeira, Frederico Barbosa, Marcio-André (RJ), Leonardo Gandolfi (RJ), Franklin Alves (RJ) e todos que quiserem participar. Venha!
Casa das Rosas
Espaço Haroldo de Campos
de Poesia e Literatura
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Erudição, humildade e lirismo
O professor Antônio Lázaro de Almeida Prado é legítimo representante de uma categoria de intelectual que se torna a cada dia mais rara no nosso país. Aquele para o qual o conhecimento vem com naturalidade, como algo simples e corriqueiro. Sem impostação ou impostura, sem máscara ou vaidade. E, acima de tudo, sem arrogância ou narcisismo. Felizes não consigo mesmos, mas com o conhecimento em si, estes eruditos humildes são professores fenomenais, pois a sua alegria vem justamente de dividir com os outros, sem estrelismo ou falsa modéstia, a sua vasta erudição.
Se todo gesto ou fala do professor Almeida Prado é perpassado por esta erudição humilde, a sua poesia não haveria de ser diferente. A dicção poética deste Lúcido Sonho é clássica. Mas de um classicismo sem pose, natural, de estudioso que conhece a fundo os mecanismos da poesia e sabe manejar como poucos os seus recursos mais tradicionais para, alterando-os minimamente, compor poemas que, embora elaborados ao extremo, aparentam simplicidade e espontaneidade.
A poesia de Almeida Prado lembra, assim, os célebres versos de Olavo Bilac, que recomenda “A um poeta” que “na forma se disfarce o emprego / do esforço; e a trama viva se construa / de tal modo, que a imagem fique nua, / rica mas sóbria, como um templo grego. // Não se mostre na fábrica o suplício / do mestre. E, natural, o efeito agrade / sem lembrar os andaimes do edifício”.
Basta observarmos a sonoridade do poema A Voz Humana para percebermos a maestria do poeta. No primeiro verso a aliteração de FL reproduz o caráter choroso e frágil (flébil) da flauta: “FLuindo, a voz da FLauta FLébil”. Já no segundo, a repetição da sílaba BO imita o som do “riBOmBO das BOrrascas”, enquanto no terceiro a aliteração do TR apresenta uma harmonia imitativa do som “esTRépido, furioso, das meTRalhas.” Isto é poesia: o som a serviço do sentido.
Mas ainda há quem pense que erudição não combina com sentimento? Pois este Lúcido Sonho é prova do contrário. Grande parte do livro é composto por poemas de amor. Seja do amigo, do pai ou do amante. Seja o amor abstrato pela beleza, pelo rio Piracicaba ou pela literatura, o amor incendeia os versos: “E, assim, tu que és a fonte da poesia, / Com o encanto da voz, sempre embargada, / Verás como progride, dia a dia, / O incêndio de nossa alma conjugada...
Se é verdade o que dizia o grande pintor Francisco Goya, que “el sueño de la razón produce mostruos”, certamente o contrário ocorre com este Lúcido Sonho de Antônio Lázaro de Almeida Prado. Nele, erudição, humildade e lirismo se conjugam para produzir o que é essencial em qualquer obra de arte literária: prazer e beleza.
Frederico Barbosa
sábado, 4 de julho de 2009
Tempo de edificar algum jardim
Há uma insatisfação constante. Andamos insatisfeitos com o paraíso que temos. De paraíso em paraíso, constatamos que paraísos terrenos não são perfeitos. Uma palavra, um gesto, uma atitude, um fato alheio a nossa vontade pode desmontar nosso paraíso definitivamente. Impedidos de voltar ao paraíso perdido, seguimos receosos diante das decisões, das escolhas a que somos impelidos. Então, ou optamos pela vida, ou pela morte. A opção pela vida cria condições para a construção do nosso jardim, onde devemos deitar sementes de fé, amor, carinho, amizade, encantamento, preciosas flores para tornar “La vita bella”.
Paraísos perdidos devem ser esquecidos, do contrário, seremos Sísifo rolando a pedra e caindo da montanha. Se alguma pétala caiu, se a rosa se recusou a oferecer suas pétalas, o jardineiro “bordacostura” aqui e ali os meandros, as mil sutilezas amorosas do existir ao ver ruindo seu investimento de ideais e esforços.
Artur da Távola já afirmou: “O homem (se) constrói o mito da perfeição pela dificuldade de aceitar a inerente imperfeição e incompletude da vida. Quanto mais o ser humano se auscute, será para defrontar-se com a impossibilidade de alguma solução pacificadora, permanentemente perfeita e acabada. Somos um fazer-se sem descanso”.Jardim é lugar onde se cultivam flores e plantas de ornato. Como é prazeroso passear num jardim bem cuidado! Como é agradável ser um jardim regado! Como é triste verificar que algumas pessoas escolhem, teimam em ser deserto! Desertos podem tornar-se jardins fecundos, almas podem ser restauradas. Há possibilidades de mudanças. Gosto das palavras edificar, reedificar, restaurar.
Elas são eficazes no combate a certos desertos: medo, insegurança, frustração, autocompaixão, mágoa, crítica, falta de perdão, ódio. Restauração é isso: tomar alguma coisa boa, que sofreu danos e estragos, lançar mão das experiências do passado, até dos fracassos, para trabalhar sua restauração, repará-la até que se torne como ela era originalmente. É quando estamos diante do desafio da remoção de coisas que se acostumaram a conviver conosco. Jardim regado precisa do Jardineiro Salvador, Consolador, Sarador, Regenerador, Restaurador. Posto que a alma humana traz muitas marcas das quais precisa se libertar. O que foi perdido no Jardim do Éden pode ser conseguido mais uma vez em Cristo. Que bênção e que privilégio caminhar diariamente com Deus agora, esperando aquele dia quando poderemos viver eternamente em sua presença, no céu!Enquanto estamos no corpo, vamos cuidar dos nossos jardins.Jardinagem requer esforço, trabalho, método,investimento. Cultivar essas tais flores pede sensibilidade, sabedoria, paciência. Esta semeadura de vida é a decisão de florescer mesmo diante dos percalços, das crises, das nossas tragédias pessoais. Jardins pedem altruísmo, reciprocidade. Jardins são submetidos a pragas, a ervas daninhas, a coaxar de sapos.
Edificar jardim requer sabedoria. A Bíblia aconselha não arrancar o joio para não danificar o trigo, deixar que cresçam juntos até a ocasião da ceifa. Tempo a ser respeitado, processo a ser cumprido. Ser jardineiro é também lidar com espinhos, ferir-se às vezes, não é só presenciar nascimentos, florações, aromas. Manhãs e adormeceres no jardim ensinam sobre a beleza de tudo. Há beleza em todas as estações. No outono, folhas secas estalam sua lucidez de ter sido folha tenra, agregada e agora colorir livremente o solo, ainda fazendo barulho.
Luciana Pessanha Pires
Herdeiros do mar ?
As águas negras das noites sem luar o amedrontam certamente mas não entregam-se às forças sombrias da psique. Acompanhado ou só com seus pensamentos e fé prosseguem . Embora tenham intimidade com embarcações não se avalentam demasiadamente ao ponto de desafiar o mar. Parece que não são consumidos pelo ideal de um eu... São ecologistas naturalmente, bem aterrados, apesar de sobre águas, quase sempre, estejam ocupados seus pensamentos.Flutuam como anjos sem asas no horizonte resguardando o sentido do sagrado ... Seus olhos encharcados de sol trazem o brilho dos que sabem que não estão a procura de quimeras e recompensas vãs. Seus sonhos também sobrevivem às ameaças do galope vertiginoso do progresso destituído de ética.No meu imaginário este homens que vivem da pesca são privilegiados por conta de poderem vivenciar a figura mítica do herói em sua lendária individuação , integração da própria psique emprestando conceitos junguianos. Esta atividade tão antiga não é ensinada nas escolas e sim no exercício de vida, transmitida oralmente de pai para filho na maioria das vezes.Quiçá haja espaço nos dias das cidades, para o homem contemporâneo que vive espremido entre os idéais de seus pais e seus próprios anseios de liberdade, para que vivam suas fictícias façanhas e, sintam-se fortes guerreiros; os melhores aos seus e aos olhos de suas mães. E, que um contentamento lhes sobre para sorrir ante as batalhas íntimas e as possa enfrentar de cabeça erguida.
Aos senhores , não de escravos, ou da natureza, mas de si mesmos, com suas mãos calejadas, cortadas pelas linhas de redes e vidas, açoitados pelo vento, frio e sal , que na tenaz coragem e humildade sobrevivem, pretendi reportar-me em singela referência. Ainda, fomentar a crença que possa haver respeito aos homens do mar e ao próprio.
Anseio que seus costumes simples sejam ensinamentos a futuras gerações o que não é fácil. Que a literatura ocupe-se também do valor das narrativas seculares de seus feitos, ansias de inclusão e, consiga aproximar-se , com linguagem acessível aos simbolos locais de seus herdeiros.
Alguns dentre estes homens, ainda são como pedras, simples na aparência contendo em seus interior um rio de fogo, apesar da pouca importância midiática a eles dispensada. Constituem uma resistência ante aos apelos do ter . Quero crer que hajam mantenedores da ligação com o centro da personalidade, contrastando com a corrida pelo capital e bens irreais ...
sexta-feira, 3 de julho de 2009
A Traição das Metáforas

por sermos duas metáforas novas, frescas, gostosas, desoprimidas e sem qualquer pseudo complexo de fidelidade é que estamos aqui em brazilírica pereira, por sugestão da uilcona biúka diante desta outra inquisição. não, ainda não fomos apresentadas a lady federika bezerra mas, a conhecemos pela sua fama internacional de porta-bandeira. macabea não pode se sentir frustrada pela nossa decisão de estarmos aqui neste confessionário. pimeiro, porque não temos, nem nunca tivemos nenhum compromisso com ela. segundo, é que alinhamos em outra frente liberal, e desfrutamos de todo direito de ir e vir, ter e dar prazer, gozar da forma que melhor nos convir. sexo? é uma opção de gosto mesmo. até no palco, porque não? irônicas? sim nosso mestre serAfim nos ensinou que do sarcasmo nasce a grande arte, mas o importante é que nós como metáforas não precisamos estar somente em entre/linhas , estamos também nas entre/tuas, entre/minhas, e não se trata de traição, procuramos fazer algo diferente, por exemplo, do que já vimos em filmes de Godard, construídos em larga medida só com citações e referências. Apoiamo-nos nas coplagens como elementos básicos para ultrapassá-los e transcendê-los agimos como uma espécie de conspiradoras conscientes dos bens culturais e materiais que nos pertencem como patrimônios da humanidade.
Uma outra
Não deveria, portanto, macabea vociferar aqui sua ira, acusando-nos veladamente de traidoras, sem assumir de fato em atitude pública a destilação desse veneno como palavra que não entra em cena.
As belas letras, para nós, começaram através das letras belas, narcisas pelo próprio nomes: metáforas. E por fidelidade a federika não traímos macabea, apenas não fazemos parte de uma mesma concepção de que a palavra parte, e as letras que pretendemos belas não são simplesmente nossas, muito menos dela. Podemos constatar com gratidão que emergem das lendas, fábulas, crônicas e contos, poemas concretos de uma visão de mundo abstrato bem nítido e pessoal talvez, quiçá, quem sabe única reflexão de ruidurbanos, restos de gravuras, resíduos tipográficos. Ou seja: uma série de gestos amorosos, eróticos de novo, repletos de ironias sensuais, doce fervor, fogo de malícias explosão de gozo, por sinal, diga-se de passagem, que essas dimensões éticas, jurídico-morais, nunca nos interessaram. Nossas relações com a propriedade privada, em todas as suas formas e cristalizações históricas, sempre foram tranqüilas e sem remorsos.
quinta-feira, 2 de julho de 2009
Rodrigo Souza Leão
Faleceu ontem, no Rio de Janeiro, aos 43 anos, o poeta Rodrigo de Souza Leão. Deixa um vazio na vida das letras, como um verso a menos numa estrofe formal. A esta hora, creio que já ganhou asas e uma lira para cantar entre os anjos.
Luiz de Aquino
Lendo e vendo alguma poesia...
A primeira grande linha divisória da história humana se apresentou na capacidade de comunicação simbólica que prenunciou a invenção da escrita. Em que pese a importância da tradição oral, a invenção do livro ampliou sua fixação e transmissão em grandes quantidades e em formas especiais. Isso teve inestimável valor para a compreensão histórica da estrutura social de forma permanente, aumentando as possibilidades críticas, racionais, lógicas de comunicação do pensamento. Ler e pensar são processos indissociáveis que caminham juntos na expressão nossa e do outro, na revelação e na partilha de idéias e sentimentos. O domínio da leitura e da escrita implica capacitação política, cidadania ativa.
O objeto livro tem fascínio social e cultural multidimensionado. Seu poder totêmico se exibe nas bibliotecas dos ricos, nas lombadas trabalhadas a ouro para serem admiradas. Ter livros, de preferência à mancheia, se traduz em poder social, econômico, político e cultural, quantitativamente: raramente se louva a qualidade da meia dúzia de obras que um bibliófilo possui, mas todos se quedam boquiabertos ante a quantidade de volumes que coleciona. Ler e ter livros é reserva das classes abastadas.
Minha história com a palavra escrita se iniciou nos bondes antigos do Rio, no trajeto entre o Centro (onde minha mãe trabalhava) e o Flamengo (onde morávamos). Para eu não dormir durante a viagem, minha mãe, professora, lia os letreiros das lojas por onde passávamos. Me encantavam as ‘letras com frio’, imensas lantejoulas prateadas da Casa Neno e sua promessa: serve bem ao grande e ao pequeno. Assim, fui alfabetizada nos bondes, tendo por cartilha os letreiros comerciais, fascinada pelo mistério dos sinais. Um pouco mais tarde, ganhei de meu pai a obra infantil completa de Érico Veríssimo, e então entendi o mais importante: tanto em forma de lantejoulas tremulando ao vento, quanto em tinta sobre papel, os sinais só ganhavam vida quando eu, elemento central do processo, lhes atribuía sentido. Sem minha participação efetiva, eram apenas sinais isolados que não se comunicavam com o mais profundo em mim: meu pensamento, minha imaginação, minha fantasia. Em seguida, veio outra descoberta importante: lendo, eu podia reconhecer e partilhar bens de consumo do cotidiano adulto, como a receita de bolo, o letreiro do bonde, o bilhete da vizinha. Eu já fazia parte daquele mundo, e me sentia pronta, aos quatro anos e meio, a desvendar os segredos da existência. Por outro lado, pressupondo que aprender a ler era ato tão natural quanto aprender a amarrar os sapatos, ficava perplexa no contato com adultos não alfabetizados. Entender essa e outras formas de exclusão social ainda levaria algum tempo.
Como prefaciou Célia Lucia Monteiro de Castro em livro meu, ‘a leitura tem muitos mistérios e encantamentos.’ Mistérios e encantamentos cercam a literatura, leitores e práticas sociais de leitura. Ler é olhar e ver, não apenas palavras escritas ou impressas, mas também pessoas e objetos que nos cercam, uma leitura da qual nos apropriamos através dos sentidos, das emoções, da razão – do pensamento. Mistérios e encantamentos.
Ler permite o acesso amplo e extenso aos bens culturais da humanidade, e às variadas formas de sua produção e consumo. Ler é ato transdisciplinar e eclético que compreende os outdoors da rua e a novela da televisão, as obras clássicas ou canônicas e as notícias de jornais e revistas de fofocas sociais. Ler já foi habilidade, exercício espiritual, atividade sagrada, meio de instrução da elite, acesso à verdade absoluta, causa de várias doenças: resfriados e dores de cabeça, enfraquecimento dos olhos, ondas de calor, gota, artrite, hemorróidas, asma, apoplexia, doença pulmonar, indigestão, obstipação intestinal, distúrbio nervoso, enxaqueca, epilepsia, hipocondria e melancolia.
Há leitores que se adaptam ao texto, buscam significados e se submetem às prescrições de leitura; outros contribuem com múltiplas interpretações e modos de percepção. Com formas variadas, são um coral polifônico, vivo, dissonante, em processo de permanente transformação. Merecem respeito. O importante é que a leitura suscite sempre dúvidas, especialmente acerca de nosso próprio olhar, favorecendo a busca de outros caminhos, novas direções, outros sentidos. Interpretar um texto é apenas o primeiro passo para sua leitura mais profunda, rumo a novos mergulhos e vôos, dentro e fora de nós mesmos. Leitores integrais realizam essa utopia liberadora através da literatura.
Para mim, a literatura é a combinação indissolúvel de arte, palavra, sociedade. A palavra é uma construção poderosa de fronteiras sociais, rotulando indivíduos em classes e castas: basta uma palavra mal dita para criar marcas indeléveis. A arte é outro divisor de águas na classificação das culturas e políticas sócio-econômicas: quem diz que só as classes abastadas gostam de arte abstrata e de música erudita nunca foi a um concerto, ópera ou balé a preços populares no Teatro Municipal do Rio. Sem ilusões: não existe uma predisposição biológica, cultural, ou sócio-econômica para se gostar de funk, axé ou concertos sinfônicos. É muito mais uma questão de oportunidade, de acessibilidade social. A arte – da cor, da luz, do movimento, do som, do odor, do sabor, da palavra – exige sentidos, emoções, reflexão; e isso não custa dinheiro. Custa leitura e sensibilidade, com todos os sentidos abertos à beleza, ao gozo, ao prazer. E isso, parodiando o anúncio, não tem preço.
Então, se a palavra e a arte são construções sociais, a literatura, arte da palavra, tem um poder mobilizador ilimitado, do qual nem sempre estamos conscientes. Arte, palavra, vida, liberdade são substantivos abstratos que se tornam concretos através da leitura. Concretizar abstrações através da leitura é ato transformador, revolucionário; é ato de amor e de educação. Leitores integrais são educados; não me refiro a etiqueta social, mas ao impulso de olhar e ver, à consciência da palavra, da arte, dos processos sociais envolvidos. Podem ter uma vida melhor, sendo sujeitos sociais mais plenos e felizes. Não é esse nosso desígnio maior? Crescer, viver e ser feliz?
Fica aqui a questão: isso se aplica à leitura da poesia? Por que sim? Por que não? Podemos experimentar um pouco, sem medir metragem, sem conferir rima, pensando em rhythm and blues apenas?
Com a palavra, os caros leitores, que sempre têm algo a dizer. Ainda bem!
(Contribuição enviada por email)
