quarta-feira, 23 de setembro de 2009

Datas de riso e de siso


Luiz de Aquino


“Muito riso, sinal de pouco siso”, diziam os avós dos meninos da minha geração. Demorei a entender o que era “siso”. Tinha um certo pudor de perguntar demais, receava broncas, receava que alguém já me ensinara num momento de meus devaneios, e como eu devaneava!

Siso. Juízo. Dentes do siso. Dentes-siso. Dia desses, li numa página de Internet, de propaganda de uma clínica dentária (eles preferem “odontológica”), a palavra “ciso”. Ou terá sido “cizo”? Lutei contra meus princípios, entre eles o de rejeitar categoricamente profissionais de nível universitário que não sabem grafar corretamente palavras do seu próprio ofício. Como aquele pediatra que escreveu “fraudas” (sim, ele se referia àquele paninho que se dobra formando vestimenta para a genitália e o bumbum das crianças). Vislumbrei naquele médico uma vocação para estelionatário (ou político sem escrúpulos, que os há).

Carrego comigo, por conta daquele malfadado provérbio da infância, o receio de rir em momentos sérios, já que evito ser grave nos instantes do riso. O siso. Ah, o siso! Meu filho Lucas, trazendo da escola os aprendizados de intervalos e recreios, soltou-me essa: “Não crio juízo porque não sei o que ele come”. Gostei! Ah, esses garotos escolares, sempre cheios de novidades!

Costumo festejar o 15 de setembro como uma data feliz. Afinal, marca o aniversário do poeta lusitano Manuel Maria Barbosa Du Bocage e, também, da brasileira admirável e decantada Lya Luft. E as vésperas me dão aniversários marcantes, como o de meu primo Léo (10), o do mais brilhante dos nossos presidentes, Juscelino (dia 12, dividido com a minha médica amada Mara Narciso e a jornalista Sueli Arantes); dia 14, meu filho Léo e meu irmão Ângelo. Daqui a alguns dias (19), minha mãe completaria 86 aninhos (que falta nos faz, Dona Lilita!). Como não festejar?

O sábado passado, dia 12, prometia ser feliz. Sempre evoco JK, o maior de todos os bandeirantes, o mineiro com alma gigantesca e olhar profundo não para o longe, mas para o futuro. Bocage, o de versos exatos, viajando do lírico ao erótico e ao chulo, sem perder a técnica, a graça e o talento. Lya, a que expõe com maestria a alma feminina, compondo o time de Gilca Machado, Cecília Meireles, Clarice Lispector e tantas outras menos referidas, mas não isso menores.

Foi Leda Selma, poetisa e contista de fina pena, quem me ligou quase acordando. Contou-me que acabara de ler na Internet: faleceu Antônio Olinto. Sim, o nosso amigo, autor de A Casa da Água e dezenas de outros belos livros de poesia, contos, romance, dicionários, gramática etc. O professor, diplomata, jornalista, crítico etc. e tal. Aquele que, há dois anos, convidado por este poeta, com apoios como os do secretário Kleber Adorno, do prefeito Iris Rezende, dos líderes do Comércio José Evaristo e Giulio Cysneiros, veio inaugurar o Espaço José J. Veiga na Biblioteca Central do SESC.

Antônio Olinto nos deixou, pois. O Brasil sente. O Rio de Janeiro e Minas Gerais sentem (especialmente Ubá, dele e de Ari Barroso). Sentem os leitores e escritores de Goiás. Sente mais a Beth Almeida, sua alma-viva. A Cadeira 8 da Academia Brasileira de Letras será declarada vaga nesta quinta-feira, 17 de setembro.

Nos últimos dez anos, tive com ele bons momentos de prosa sobre poesia e vida. Contava da África e dos Bálcãs, de Ubá e do Rio de outras décadas. Perguntava pela Academia Goiana de Letras, contava da Brasileira, recordava goianos vários e realçava: “Precisamos eleger o Gilberto”. Falava de Gilberto Mendonça Teles. Agora, sinto que Olinto sorrirá feliz se Gilberto vir a ocupar a Cadeira 8 da ABL.



Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.



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terça-feira, 15 de setembro de 2009

"Vive l'amour"


‘Vive l’amour’ é um filme especial e também uma obra prima visual. Quase desprovido de diálogos e misturando contrato de sagacidade, estranho erotismo e profunda tristeza, é um filme realista e, ao mesmo tempo, poético e sensível. Um filme para poucos, pois está muito além do mero entretenimento e acima da superficialidade do cotidiano jornalístico.
No enredo, Hsiao é um tímido vendedor de urnas funerárias, possui tendências suicidas e, como forma de redenção, busca coragem para por fim à própria vida. Mei-mei é uma corretora de imóveis que encontra no sexo uma forma de compensar seu intenso sentimento de abandono e infelicidade. Ah-rong vende roupas usadas e se ‘vira’, pelas ruas, para sobreviver. Três jovens solitários e fechados em seus próprios desesperos que acabam se encontrando em um apartamento vazio da cidade em busca da satisfação nos atos compartilhados. Vidas tristes e trocadas, caminhos densos, onde o viver ‘cada um por si’ e a incomunicabilidade são condições do mundo atual e a principal causa do sentimento de abandono e exclusão.
É o cinema contemporâneo que vem tratando da solidão urbana, da falta de amor e de comunicação entre as pessoas. De um mundo onde o materialismo e a alienação urbana ganham espaço e imperam sobre a civilidade e a razão da grande parte das sociedades. Onde o capitalismo com seu efeito globalizar produz uma realidade fria que não mais reflete o interior das pessoas, mas apenas o exterior. Vida de desencontros, vida de excluídos, sofrimento sem nenhum atenuante.
Geralmente , ouvimos, vemos e sentimos conforme nossas inclinações e evitamos, até mesmo excluindo, pessoas com a sensibilidade para enxergar determinadas facetas de nossa realidade. Uma dessas pessoas é o diretor Tsai Ming-Liang que através de seu excepcional “Vive l’amour” veio nos confirmar que muitas vezes mentimos mais alto quando mentimos para nós mesmos.

Maria Lúcia de Almeida

sábado, 12 de setembro de 2009

SÁBADO, SETEMBRO 12, 2009



Giulio Cysneiros, Antônio Olinto e eu, inaugurando o Espaço José J. Veiga na Biblioteca Central do SESC, em Goiânia, dia 5 de setembro de 2007.



Almas materiais

Luiz de Aquino

Beth Almeida, entre mim e Antônio Olinto (*)


A vida era ainda, para mim, algo de muito novo e a descobrir a cada instante. Ou melhor, não era a vida, mas eu próprio a novidade. A vida, propriamente, estava aí, tal como está ainda, desde quando Deus fez a Terra com planícies, montanhas, rios, mares e praias e planaltos e geleiras etc. E sobre ou sob, dentro e fora, colocou as cores das plantas e o ânimo dos animais.

Pois bem: nunca me esqueço que a vida começava todos os dias, e começava cedo. O sol era a mesma bola de fogo centímetros acima da linha do horizonte, e o horizonte de Caldas Novas era verde de matas, e as manhãs eram frias e sonoras de pássaros e poucas vozes de gente. As pessoas eram todas nossas conhecidas.

Era essa a infância de mim. E já naquela época eu sabia que algumas pessoas, algumas famílias, algumas casas tinham sua alma repetida. Não a alma individual, mas alguém que dava equilíbrio à alma imaterial de cada um. Ou à sua família, ao seu lar, a sua casa física (também). Essa “alma”, visível e palpável, era alguém sem a qual a pessoa em questão, ou a família que a rodeava, ou a casa que ganhava calor e harmonia não existiriam. Ou não existiriam como a entendemos.

Numa família, que me era próxima, a alma era Maria, uma empregada de décadas. Maria dedicou cerca de cinquenta anos de sua vida a equilibrar a família que lhe dava salário. Mas não era apenas salário: era o lar, o sustento, o social... O equilíbrio, enfim. Aquilo era, e eu menino já o sentia, a troca perfeita. O mesmo se dava na humilde casa do meu bisavô, o mais bonito dentre todos os velhos da minha terrinha natal. Para ele, o fiel de balança era Sebastiana.

Na tevê, já se veiculou matéria jornalística mostrando pessoas que são “almas” de personalidades políticas, esportivas ou artísticas. Dão-lhes nomes outros, como assistente, secretário (a), governanta e outros mais. Sinal dos tempos, que gosta de criar novos nomes para funções antigas. Para mim, são almas materiais.

Pouco tempo após a morte de José J. Veiga, conheci, em pessoa, o escritor Antônio Olinto, que personaliza, para mim, a figura do acadêmico completo. Imortal da Academia Brasileira de Letras, ele reúne em si funções várias, todas ligadas ao mesmo ofício de cultor das letras. Jornalista, critico literário, professor, poeta, ficcionista e diplomata (neste item, o adido cultural perfeito). E quando o conheci, ainda vivia ao seu lado a também escritora e pesquisadora incansável Zora Seljan, que hoje o acompanha do outro plano de vida.


Antonio Olinto, Célia Siqueira Arantes e Beth Almeida

Imaginei ser Zora a alma andante de Antônio Olinto. Não era. Esta era, para o casal Zora e Antônio, ninguém menos que a pessoa que os acompanhava em todos os passos: Elizabeth Almeida.

Nestes quase dez anos, estive muitas vezes com Antônio Olinto. Visitei-o várias vezes, no Edifício Itaoca, em Copacabana. Ele veio a Goiânia algumas vezes, a última delas a meu convite, para inaugurar o Espaço José J. Veiga na Biblioteca Central do SESC. Estando aqui, sempre foi palestrante na Academia Goiana de Letras ou no Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Estar com ele é aprender sempre, e muito. E bem!

Antônio Olinto vive, no momento, época de restabelecimento da saúde, abalada com o peso de um pouco mais de noventa anos de intensa vida intelectual. Jamais o vi sem Beth Almeida ao lado. Tenho certeza, pelo que vi sempre, e pelo que ouvi dele mesmo, que o autor de A Casa da Água não vive sem seu anjo de guarda (e vida). Afinal, são quase trinta anos de zelo ininterrupto.

Um beijo, Beth Almeida! Sou seu fã, tanto quanto o sou do nosso grande amigo e ídolo comum.




Luiz de Aquino (http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com) é jornalsita e escritor, membro efetivo da Academia Goiana de Letras, e escreve aos domingos neste espaço.

Antônio Olinto autografa para Célia Siqueira Arantes (Goiânia, 05/07/09).


(*) Antônio Olinto faleceu no sábado, 12 de setembro, horas depois de esta crônica ser escrita.

quarta-feira, 9 de setembro de 2009

Dói nos olhos e ouvidos


Luiz de Aquino


Circula na Internet um vídeo em que a cantora Vanusa, que integrou o movimento “musical” chamado “jovem guarda”, nas décadas de 1960 e 1970, tenta cantar o Hino Nacional Brasileiro. A louríssima (ainda loura) começa imitando Fafá de Belém, mas é traída pelo talento, pela memória e pelo desapego. Pelo visto, ela sequer sabe torcer pelas seleções brasileiras de futebol e vôlei, ou pelos atletas olímpicos que, passo a passo, vêm consolidando o nome do Brasil como expressão esportiva.


A arrasadora maioria dos que se manifestam sobre a “interpretação” de Vanusa condena-lhe o feito. É sabido que preparar-se é missão de todo profissional, mais ainda de artistas músicos, atores e similares. Um agudo fora do lugar dói no ouvido. Um descaminho completo, como ela fez naquele evento de agentes públicos do Estado de São Paulo, é totalmente imperdoável. Os que a defendem inventam um mal-estar; os maliciosos falam em bebida alcoólica e até mesmo em drogas; e os inimigos do nome Brasil lhe dão razão, dizem

que a cantora fez um justo protesto contra o despreparo do presidente Lula, a corrupção institucionalizada, os descaminhos que os políticos cometem com o dinheiro público etc. e tal.


Ligo a tevê e me desespero com as invenções dos apresentadores, especialmente os esportivos (mas sem perdão aos demais) que confundem a Nação com suas concordâncias errôneas e suas regências descabidas. Não fosse o bastante, ainda vemos professores universitários inventando novas terminações para palavras usuais. Lembra o personagem Odorico Paraguaçu, na novela e na série O Bem Amado, de Dias Gomes, a trocar desinências.

A publicidade, mais que o jornalismo, é responsável por inúmeros erros repetidos à exaustão. Lá pelos idos de 1984, quando da campanha “Diretas-já”, apareceu-nos um “Muda Brasil”, sem a pontuação correta. Isso se repete ainda e até mesmo a Secretaria da Educação já bancou uma campanha “Acelera Goiás”, no mesmo molde. Agora, vejo por aí afora um não-entender o que é acento agudo e o que é crase, como “á partir de “ (com acento agudo) e a expressão “sale” em lugar de liquidação, ou “30% off” em vez de “desconto” .

Agora, canso-me de ler “Disk Pizza” e “Disk Oração”. Pergunto-me: por quê? Aonde andam os professores da Língua? Ah, eu sei! Boa parte deles, com preguiça de refinar os estudos e atualizar-se com a gramática, jogam a culpa de tudo na Linguística. Quando não, viajam na própria baba e dizem tratar-se de “liberdade poética”.

Eu, hem?!



Luiz de Aquino – http://penapoesiaporluizdeaquino.blogspot.com - é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.



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segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Pensamentos que não me largam...

Pensamentos que não me largam...
Eliana f.v. – Li Andorinha

Por que o simples se torna tão complicado,
quando solicitamos a liberdade dos inocentes?!
Onde as pessoas começaram a desviar suas alegrias
e a gentileza na convivência? Agindo com esse imenso
descontrole e inexplicáveis ações carcerárias?!
Seguem caçando animais para seu bel prazer.
Roubam suas vidas por um punhado de dinheiro.
Passam por cima da natureza e do sentimento alheio...
sem o menor constrangimento.
Que fizeram os pássaros para estarem engaiolados?!
O que disseram os peixinhos confinados em aquários?!
E as árvores... que silêncio deixaram escapar para terem
seus sonhos de alcançar o sol absurdamente podados?!
Quero a metamorfose desses desacertos. A simbiose com a
Natureza e o Universo. Para sossegar minha alma em meio
a tantos questionamentos.
Preciso beber da serenidade e a grandeza da plantinha, que a
despeito de tantas agressões, surge com sua frágil aparência.
Sorrindo com um verde de encher os olhos e orvalhar a alma!
Quero junto a ela crescer em flor... Iluminada da mais doce cor.
E na primavera proclamar a conquista da liberdade compartilhada
Com a gentileza do “ser e deixar ser”

sábado, 5 de setembro de 2009

Escrito na testa?


Luiz de Aquino


Pessoas sensíveis percebem, pelo olhar ou pela sequência de gestos, o que se passa na alma de outrem. Há os que carecem ouvir para entender o próximo. A percepção da alma alheia enseja muito conhecimento. Mas todos somos metidos a entender de tudo, não é mesmo? Qual é a idade dos provérbios? Alguns se perdem na História, estão na Bíblia; outros surgiram no eterno caminhar da humanidade, romperam fronteiras, sobreviveram ao tempo vital de línguas hoje tidas por “mortas”.

Sim... As ideias sobrevivem até mesmo aos idiomas!

Certo é que nos metemos a opinar sobre tudo. Curiosamente, quando mais estudamos um assunto, quanto mais dominamos um tema, menos opinamos sobre ele. Tenho amigos que gostam de aconselhar sobre tudo. Outros, de encontrar defeito em tudo, e incluo-me entre estes. Um quadro torto na parede, uma letra no lugar errado, a completa ignorância da regência e da concordância (quando professadas especialmente por professores e jornalista, dói mais ainda de se ouvir), a gravata torta... Ah, a gente nota, não é?

Gosto de recordar os tempos de escola, quando estudávamos Platão e seu sistema de Educação. Parecia cruel aquilo de o Estado tomar as crianças dos pais, preparando-as para a vida social, submetendo-as a filtros temporários em que se revelavam serviçais, empresários, profissionais liberais ou políticos. Para Platão, as pessoas de governo eram as mais sábias, as que detivessem maior escolaridade (isso seria independente da vontade da pessoa, mas selecionado entre os de melhor aproveitamento).

Nos últimos vinte e cinco séculos, Platão remexeu-se muitas vezes na tumba (para evocar um antigo dito popular). Ou, na possibilidade da reencarnação, as vidas posteriores devem ter aprimorado seu espírito de filósofo. Mas quanta coisa esdrúxula se vê por aí, se considerarmos que o sábio grego estava certo! E devia estar, ou não sobreviveria dois mil e quinhentos anos por suas ideias.

“De médico e de louco, todos temos um pouco”, diz a sabedoria milenar. Os médicos multiplicaram-se em especialidades e mesmo em outras profissões. Em torno da Medicina, surgiram enfermeiros, farmacêuticos, bioquímicos, veterinários, psicólogos... Não sou capaz de enumerar todos os ofícios derivados, mas pode se dizer que desde os nutricionistas até os cabeleireiros e pedicuros (agora chamados de “podólogos”) são crias da Medicina.

Mas a petulância dos “sábios de esquina” é muito maior que a simplicidade científica de um filósofo grego. Isso de se dizer que policial que mata bandido merece medalha é dar poder de julgamento instantâneo e irrecorrível a um agente, a quem compete o policiamento ostensivo, a repressão a distúrbios e encarregados de investigação. Não precisaríamos mais de juízes, promotores e advogados. Se é verdade que bandido traz escrito na testa essa condição, será que os policiais sabem ler isso? Ou apenas os deputados eleitos sabe-se lá por quais artifícios?

Escreveram algo na minha testa, certamente. O que será? Poeta? Puxador de assunto? Intransigente? Intolerante? Carinhoso?

Tudo mentira! Ninguém tem nada escrito na testa. Se o tivéssemos, certamente teríamos políticos de muito melhor qualidade. Poeta também, é claro. Mas ninguém precisa de votos para ser poeta.

Se os policiais soubessem ler isso, aquele brasileiro assassinado pela Scotland Yard estaria vivo.




Luiz de Aquino (poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras. Escreve aos domingos neste espaço.


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terça-feira, 1 de setembro de 2009

“Piri Jazz” e Cristóvão Bastos


Luiz de Aquino


Quando dói o corpo e a cabeça parece sob pressão, quando as juntas se recusam a flexionar normalmente, os olhos ardem e os nervos parecem sobrecarregados, é hora de ligar o carro e escolher a estrada. Adoro estradas! Se asfaltadas e sinalizadas, oferecendo segurança, melhor ainda. E quando nos sentimos desgastados, tanto faz seguir sem rumo quanto definir o destino e se por a caminho.

Fiz isso na sexta-feira. Escolhi Pirenópolis, de novo. Motivava-me o luar em quarto crescente e as cores do casario no centro quase tricentenário, muito em especial a Rua do Rosário. Até uns sessenta anos atrás, essa rua ligava a Matriz de Nossa Senhora do Rosário (sim, a mesma que foi incendiada pouco tempo após a reforma geral) ao Largo de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Esta, menor e mais bela que a Matriz, foi demolida por razões não muito explicadas. Mas as pesquisas de jovens estudantes que se prestam a ouvir pessoas quase centenárias, bem como debruçar-se sem preguiça sobre alfarrábios empoeirados vem trazendo, devagar, a verdade à tona.



Cheguei quando a noite começava a debruçar-se sobre o verde de matas, as feridas nos montes (a que chamamos jazidas) e o traçado sem esquadro das ruas das antigas serenatas. Estacionei na Rua do Rosário, caminhei poucos metros até o trecho de comércio que, há algumas décadas, seriam “de secos e molhados”. Fiz ponto na Confraria do Boxexa – nome comercial da cafeteria, tabacaria e espaço cultural do meu amigo Bochecha. Ou Boxexa, já que, no Brasil, cultivamos a liberdade extralegal de grafar como bem entendemos os nomes próprios, sejam de pessoas ou marcas comerciais.

Na parte baixa da rua, um palco. O pano de fundo dá-me conta de que acontece ali (não foi o que me atraiu, pois eu não sabia antes) a segunda edição do Piri Jazz, festival de música que levou de volta os que lá estiveram no ano passado. Da ponta do balcão, vi que descia a rua o meu amigo Dimerval, que ninguém conhece. Ou melhor, era o Bororó, baixista genial, marca histórica na música de boteco em Goiânia, instrumentista de um sem-número de grandes nomes do meio musical contemporâneo deste Pais.

“Amanhã (sábado, dia 29 de agosto) vou tocar com Cristóvão Bastos”, disse-me ele. Bororó falava do Quarteto Brasil. Algo de virtuoso, impecável, genial. O grupo atua há quatro anos e, em 2007, lançou na Europa um disco... Ah, vejam o que encontrei na Internet:

O Quarteto Brasil reúne Cristovão Bastos (Piano), Jurim Moreira (Bateria), Bororó (Contra-Baixo) e Zé Canuto (Sax). Ele surgiu a partir do projeto 4 x Jazz, realizado no CCBB, quando o maestro Cristovão Bastos foi convidado a prestar uma homenagem ao pianista Dave Brubeck. Em 2007 lançou exclusivamente na Europa o CD “Bossa Nova – Delicado“, pelo selo Kind of Blue, com composições de Cristovão Bastos, Bororó, Waldir Azevedo, Luis Gonzaga e Dave Brubeck”.


Zé Canuto, Bororó, Cristóvão Bastos e Jurim Moreira, o Quarteto Brasil


Lá, na Rua do Rosário, o Quarteto Brasil mostrou isso aí. Música de mexer com a platéia, fazer o sangue correr mais morno e ativo, altivo. Senti um orgulho indisfarçável, pois metade daquele quarteto estava, muito antes, no meu coração: Bororó, velho amigo das andanças de música e poesia em Goiânia; Cristóvão, amigo de infância, era o garoto do acordeão, referência maior nas festas da inesquecível Escola Evangelina Duarte Batista, em Marechal Hermes, quando o Rio ainda era Capital da República.

Emocionante revê-lo! Melhor ainda foi exercer a tietagem e ganhar um autógrafo no cedê “Curtindo a gafieira”, que cuidei de ouvir logo e reouvir tantas vezes. Um abraço de “até a próxima”, seguido de um pacto: “Indo ao Rio, aviso-o para marcarmos um encontro em Marechal Hermes”.

Ele sorriu aceitando. Espero ir logo.



Luiz de Aquino ( poetaluizdeaquino@gmail.com) é jornalista e escritor, membro da Academia Goiana de Letras.


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